[Crónica] Peneda ou a história de um lobo incauto

#1
A ideia tinha começado a formar-se há cerca de um mês. Sabia que o grande Índio iria virar quarentão e tal efeméride tinha que ser comemorada. Foram estabelecidas conversações secretas com os restantes membros da tribo, tendo-me calhado a feitura de uma proposta de empeno, a prenda de aniversário mais adequada. Sentei-me em frente ao PC munido de uma cervejinha fresca e vasculhei a minha gaveta de tracks. Lá fui sugerindo uma volta pelos caminhos que, recentemente, tinha desbravado (... gole de cerveja...), ou uma repetição de um empeno na Peneda que tinha descrito no site do JAP, o desactualizado “Depósito” (... outro gole de cerveja...), ou um outro passeio na Peneda que o CEVA não conhecia (... outro gole... porra, acabou, deixa-me abrir outra...), ou então, (... deixa-me ver... outro gole e mais outro...) porque não juntar os dois (... mais uns goles...): até ficava interessante. Alegre (com a minha capacidade criativa), enviei a proposta aos outros selvagens. O ET respondeu logo que queria a última alternativa e perguntou “... de que distância e acumulado estávamos a falar?”...
Foi só no dia seguinte que, sobriamente, me dediquei à matemática da coisa. Um frio arrepio trepou a minha corroída coluna vertebral. No que me iria meter...? Eis, pois, o presente de aniversário:



Eis o aniversariante a comer a sua fatia



Curiosamente, depois de tanto entusiasmo com a proposta, o ET baldou-se e deixou-me entregue ao Indy e ao jovem Eduardo. Tremi, lembrando-me das notícias que tinha vindo a receber dos dois: 200 km aqui, 170 Km ali, “estamos a planear 300” acolá...
Acompanhava-nos, também, o alegre Óscar que vinha munido (avisou-nos logo) de numerosos atalhos colados no track de GPS. É que o perfil altimétrico parecia muito pérfido para tão tenro amante de todo-terreno.

A partida deu-se junto à ponte de Cabreiro sendo precedida de um encontro imediato com outro grupo de ciclantes. Após uma breve troca de palavras eles seguem e nós, uns minutos mais tarde, arrancamos também. O início do emp... digo trajecto é simples: “ganham-se” 1200 metros de altitude em cerca de 15 Km. Começo a aperceber-me de que teria um daqueles dias difíceis quando a imagem mais recorrente é a dos meus dois companheiros, bem lá à frente, a fazer aquela última curva da estrada.



Ainda relativamente fresco, fui admirando as paisagens soberbas da Serra da Peneda. O bendito granito



os abrigos dos pastores transumantes



e a subida, finalmente a amansar e a levar-nos aos cerca de 1300 m de beatitude.



Seguiu-se a inevitável descida-por-calhau que seria o acompanhamento para as subidas daquele dia.



Depois de passarmos Aveleira, o Eduardo resolveu furar e, enquanto ele resolvia as suas dificuldades com o equipamento, o resto do grupo avançou solidariamente até uma sombra de pinheiro. Como a resolução do problema demorava, deu tempo para discutir sexo e jogar à malha com duas garrafas de cerveja e duas rodelas de madeira.





Neste ponto, o Óscar amaricou-se e abandonou-nos à nossa sorte.

Dirigimo-nos, então, a um troço de calçada, na encosta decorada de tojo em flor.



Depois de “algum” sobe-e-desce para cruzar os vales profundamente vincados nas fraldas da Peneda, cruzando aldeias que gozavam tranquilamente o seu fim-de-semana, iniciámos a subida mais dura do dia lá pelos lados de Orjaz. Ao cruzar a aldeia, pareceu-me ouvir alguns conselhos sensatos.



A primeira parte da subida ainda a consegui fazer com um mínimo de desenvoltura. A segunda parte, um terrível zig-zag de pedra solta até ao topo, custou-me muito, começando a temer as cãimbras. Tentando gerir o esforço com algum empurra-à-mão nos bocados mais duros, lá cheguei ao topo do Cabeço do Pito pensando “ora aqui está um Pito pouco acessível”. Os cavalos lá no alto olhavam com ar de comiseração o meu avanço, encosta acima.



Vencidas as dificuldades, rolámos rapidamente em direcção a Lamas de Mouro e parámos no Vidoeiro, um restaurante em Porto Ribeiro que foi já testemunha de muitas das minhas incursões pela Peneda. A paragem deu para repôr as calorias mas favoreceu o aparecimento das cãimbras logo que arrancámos, rumo ao nosso ponto de partida.



Para mim, o regresso resumiu-se a gerir o cansaço muscular e as cãimbras. O cansaço pedia que eu parasse mas se o fizesse, o mais provável era o músculo entrar em auto-gestão logo que retomasse caminho. Se não retomasse o caminho, teria que dormir no monte. Um trilema desgraçado.

No topo da serra, junto da nascente do rio Vez, cruzámo-nos com o mesmo grupo que por nós tinha passado no início. Tranquilamente, descansavam junto ao ribeiro. Com medo de arrefecer músculos e voltar a ter das minhas mazelas, continuo em frente sem grandes confraternizações. Antes parecer rude que sofrer...

O gran finale foi uma extensa descida por trilhos pedregosos, como não poderia deixar de ser. Mais de 1000 m de altitude perdidos, na sua maior parte, aos solavancos, encosta abaixo. Chegávamos, finalmente, aos carros, com o dia a findar, o sol escondido por trás do imponente relevo. Curioso como, depois de sofrer tanto, só tinha um sorriso de orelha a orelha.

Concluindo, repito o que já disse noutra ocasião: eis aqui um passeio que aconselho “1) a quem queira um desafio físico interessante, 2) aos que estão bem preparados fisicamente e poderão apreciar as magníficas vistas sobre a Serra da Peneda bem como os rebuçados técnicos oferecidos pelo esquecimento a que estes caminhos são, felizmente, votados, e 3) ao Pedro, para levar um incauto consigo e, depois, escrever a sua versão do passeio.” O incauto, ficou claro desta vez, fui, obviamente, eu.
 
#2
Re: Peneda ou a história de um lobo incauto

Mais uma vez em relato com direito a prémio Nobel :D
Desde as fotos passando pelas legendas foi um passeio espetácular sem duvida, um presente que deve ter sido muito bem aceite pelo Indy, mas para ainda não ter respondido ao tópico deve estar ainda todo dórido :twisted: :mrgreen:............uma empenoprenda destas é sempre muito bom :mrgreen:
Mesmo os restantes protagonistas ainda não se manifestaram, tambem gostaria de saber a opinião sobre o passeio :wink:............mas lá malta :D
 
#3
Re: Peneda ou a história de um lobo incauto

:clap: :clap: :clap: :clap: :clap:

muito bom!!! não se arranjam uns numeros para embelezar a coisa? tipo acumulado, distancia, etc?

abraço!
 
#4
Re: Peneda ou a história de um lobo incauto

Festas de aniversário há muitas. Umas fazem-se no conforto da própria casa com a companhia da família, outras fazem-se em restaurantes de faca e garfo na mão. Há também quem prefira a animação de um qualquer popular bar ou discoteca para comemorar a adição de mais um capítulo anual à sua cronologia de vida.

Mas que festa organizar para um especialista nos empenos de montanha e longa distânica? A resposta chegou por parte do Lobo, com  "Super Empeno da Peneda" como working title .

Super empeno? Estranhei o nome. Afinal, com este navegador ao leme todas as voltas são um empeno garantido. Fui então olhar atentamente para o menu. 105 km, mais de 3000 metros de acumulado, duas voltas distintas na Peneda, unidas por um troço de alta montanha. Já em 2007 tinha feito a porção inicial e final deste percurso e na altura fui confrontando com a violência do terreno e do piso. Relembrando essas dificuldades de anos idos, às quais se juntaria ainda um novo loop de 60 quilómetros mais, fiquei desde logo convencido que me veria confrontado com o, até então, mais difícil desafio da época de 2009.
Foi com alguma apreensão que preparei o equipamento. Esta ia custar, ó se ia.

O dia começou com a subida até perto do topo da Peneda. Fez-se com bom ritmo. As principais dificuldades em termos de inclinação estão concentradas nas curvas e contracurvas iniciais da estrada asfaltada.



Brincava com o resto do grupo, dizendo constantemente que ia lançar um ataque à Armstrong, só para ver se alguém queria seguir num pequeno picanço para quebrar a rotina. Mas ninguém estava interessado. Como disse o Indy " Eu e o Major somos pessoas focadas em objectivos. Atitudes dessas iam prejudicar o objectivo". "E não são os únicos", pensei cá para mim, sonhando com o temporalmente distante momento de regresso aos carros.



O terreno acalma um pouco à medida que se ascende, embora o piso quebrado possa por vezes causar problemas de tracção ou na escolha da trajectória óptima. E lá passamos no alto, a meras centenas de metros do cume da Peneda.



Era agora altura de trocar de track. A segunda parte do percurso era atingida seguindo um percurso fundamentalmente descendente, planando velozmente sobre os rochas quebradas durante quilómetros a fio.



A travessia de um bosque fechado encaminhou-nos para a aldeia de Branda de Aveleira, onde ajudamos um turista perdido a reencontrar a sua manada.



À saída da aldeia tive a desagradável surpresa de verificar que tinha um pneu furado. Abandonado à minha sorte por uma comitiva empenhada em despachar a subida seguinte, lá fiz a reparação a solo. Reparação essa que por pouco não dava em "tragédia". Acontece que das duas câmaras que levava comigo, uma era 29x1.5. Felizmente que a outra era uma 26x2.0 e me salvou o momento. Enfim, bicicletas a mais.

Foi nesta altura que o Óscar nos abandonou, sábiamente evitando o confronto com os monstros graníticos que se avizinhavam. Desejos de boa viagem foram mutuamente expressos e fizemo-nos de novo ao trilho. Era altura de descer mais um pouco. O Rui lamentava-se pela destruição do singletrack que anteriormente ocupava a encosta mas felizmente apenas poucos metros foram convertidos em estradão. Quase todo o trilho estava no seu estado original. As giestas e urzes em flor deram uma beleza especial ao troço.



Chegado ao fim deste single sou presentado com mais um pneu furado. Com apenas 40 km percorridos, era cedo demais para começar a entrar em problemas técnico-logísticos. Mas aqui houve trabalho de equipa . Graças a uma câmara emprestada pelo Rui e uma inspecção visual de picos por parte do Indy a coisa lá se compôs. 4000 km sem furos e aparecem logo dois na volta mais difícil do ano. A lei de Murphy ataca novamente.

A descida continuou por mais uns quilómetros. Já quase a chegar a Parada do Monte, eu e o Rui envolvemos-nos num curioso incidente com uma giesta empenhada em arrancar cabeças. Felizmente uma travagem rápida evitou decepamentos. Sem cabeça é difícil cumprir objectivos.

Estavamos agora prestes a abordar o terrível maciço do Cabeço do Pito. Erguendo-se no território mais a Norte de Portugal continental, obrigou-nos a uma subida em 3 actos.

No primeiro acto, abordamos as rampas de asfalto que unem Cortegada a Cubalhão. Quatro penosos troços de asfalto com inclinação sempre acima dos 15%, separados por apertados ganchos onde a inclinação sobe ainda mais, para valores próximos dos 20%. Segui eu o Indy na frente. Sentia-me bem. Ia a pedalar em pé e em força. Comecei a ganhar confiança para a o que ainda faltava subir. Lá atrás o Rui ia claramente em modo de poupança de energia. Atitude bem inteligente, face ao que ainda restava subir.



Ao atravessar a aldeia de Cubalhão vimos o nosso caminho interrompido por um agitado rebanho de ovelhas e os seus pastores. Uma pastora perguntou-nos qual o nosso destino. "Lamas de Mouro", respondemos.
A resposta foi clara: "Então vão para o lado errado. A estrada é para outro lado". E assim ganhamos a reprovação na escolha de caminho por parte dos habitantes locais, a marca essencial de um percurso bem escolhido!



Segundo acto de subida. Atacamos a porção mais técnica da ascensão. De Orjás até o curral de Cavaleiro Alvo. Piso duro e irregular. De inclinação razoavelmente suave, era no entanto pontuada por rampas curtas, areia solta a dificultar a tracção. Aqui segui poucos metros atrás do Rui, que navegava a encosta por trilhos difíceis de discernir.



Uns metros atrás seguia o Indy. A chegada ao curral foi marcada por um desafio em rampas de terra ou pedra. Qualquer que fosse o caminho escolhido era obrigatório desmontar. O Indy optou pelo caminho mais curto e passou a liderar o esforço de subida.



Chegamos então ao terceiro acto. Um encadeado de ganchos, ligados por secções inteiras de pedra e areia solta que apenas marginalmente se aparentavam com um caminho. Associados à dificuldade da pendente surgiam ocasionais obstáculos técnicos para transpor. Valas, regos rochosos, sequências de granito para trepar sem desequilibrar. De longe a longe surgia um ou outro caminho de cabra paralelo ao estradão para fugir das pedras, mas mesmo essa opção obrigava a uma atenção extra para não cair encosta abaixo. Com os recursos físicos e mentais a diminuir constantemente lá fomos avançando penosamente. Um gel energético revelou-se providencial para me ajudar a transpor os últimos degraus até ao estradão no topo do Cabeço do Pito.



Contornamos o Cabeço pelo longo estradão de acesso ao parque eólico. O rio Minho e Espanha espalhavam-se no horizonte, a Norte. Concluída a viragem de 180º, a velocidade aumentou à medida que perdíamos altitude, rumando rapidamente até Lamas de Mouro.



A entrada em Lamas de Mouro foi um pouco atabalhoada. Por momentos até nos separamos, quando um erro de navegação deixou os três a tomar caminhos ligeiramente diferentes. No entanto o reencontro foi rápido e pouco depois já estávamos reagrupados de bicicleta em mão, caminhando desajeitadamente pela obstruída e íngreme calçada que precede a aldeia.

Atravessamos fugazmente o centro da aldeia raiana e dirigimo-nos para o Restaurante Vidoeiro onde fizemos um primeiro reabastecimento tardio. Ainda só tínhamos despachado 60 km, faltavam tantas horas. Água fresca no camelbak, uma sandes no estômago e toca a rolar, que ainda haveria muito para subir.

E não foi preciso esperar muito. Logo à nossa frente surge o vale do Alto do Fojo. Imponente e rodeado por rochedos verticais, teríamos que subir um pouco da sua estrada de asfalto e contornar o monte por um estradão para tomar a direcção correcta.



Foi aqui o que o vírus do Empeno A começou a atacar o Rui. Atrasou-se bastante na ascensão por asfalto. Por pouco tomava a decisão de continuar a atalhar por estrada, mas devido à falta de rede telefónica para nos comunicar tal decisão optou por nos seguir à distância pelo caminho. Admiro a coragem de abordar as dificuldades que se seguiram com tão pouco combustível extra no depósito. Porque a dureza ainda continuou por muitos quilómetros, daqueles mais longos. Ainda assim, comparado com outras subidas do dia, o contorno do Alto do Fojo não foi especialmente duro, o piso até era bom. 





Em contraste, a subida final até as encostas sobranceiras do pico da Pedrada foi complicada. Transpusemos dezenas e dezenas de jardins de pedra, em luta constante para manter as bicicletas a rolar a um ritmo aceitável sobre o constante massacre das pedras. Pontes destruídas obrigavam a travessias de rio pouco ortodoxas. E o dia ia cada vez ficando mais curto.



Mesmo com o empeno a rondar, seguíamos a bom ritmo e coesos quando finalmente chegamos ao início da descida. Parece que desta vez a marreta não acertou em cheio em ninguém. O objectivo esperava-nos no fim daquela cobra de pedra.



Fazer esta descida requer concentração e força de braços para aguentar com os incessantes impactos. São calhaus sobre calhaus a atravessar durante cerca de 10 km. Um agitado e ondulante mar de rocha para navegar. Para ajudar à festa, numa das primeiras secções consegui logo fazer um "quase-OTB". Amparei-me com a mão numa pedra afiada e fiz um pequeno corte num dedo que começou a sangrar. Sem tempo para assistências médicas segui, espalhando sangue por todo lado. Manípulos, punhos, quadro. Tudo pintado de vermelho.

Alheei-me rapidamente de considerações negativas e lá reentrei no ritmo, rolando entre os outros dois artistas pela encosta abaixo. O amortecedor traseiro da minha bicicleta foi um dádiva divina. Lembro-me de fazer esta descida em 2007 com a minha HT e sofrer bem mais. Pelo menos o Indy, bom descedor, parecia muito abalado com a violenta descida na sua HT de alumínio.



Eventualmente o asfalto chegou, tapete suave e acolhedor para os nossos braços e pernas cansados. Embalados pelas curvas da estrada, fomos depositados na aldeia de Cabreiro onde os nossos carros nos aguardavam. 105.86 km, 3155 metros de acumulado. Objectivo cumprido, que bela festa!
 
#5
Re: Peneda ou a história de um lobo incauto

Outra vez Major.......

O muro duas vezes .....

Agora a Peneda ......

Parabens a todos

Obrigado pela partilha
Van
 
#6
Re: Peneda ou a história de um lobo incauto

A questão deriva de uma conjuntura que esgalha numa quadra ou quarentão.

Agora percebo prq foi um passeio muito restrito ! foi uma especie de encontro dos quarentões. O Plus, apesar de não ser quarentão, pelo menos goza da quarentena dos quarentões :mrgreen:

Lobo Inc Auto ! :roll:.... eu gostei mais do Auto da Alma, e do Auto da Barca do Inferno.

Continuem.

Abraço
 
#7
Re: Peneda ou a história de um lobo incauto

Relatar os passeios permite-nos recordar muitas das sensações, redobrando o prazer obtido.
Apesar de através dos relatos dos meus companheiros de jornada já toda a gente ter por esta altura uma visão de como as coisas se passaram, aqui fica a minha. Afinal o texto já estava alinhavado. Só peço desculpa pelos meus escassos conhecimentos da toponímia dos locais por onde passámos. Não tive oportunidade de estudar os mapas nos dias anteriores e por isso limitei-me a carregar o track e seguir o risco. Terei de emendar isso posteriormente.


E que belo presente de aniversário!

O dia até começou com uma experiência traumática: levantar da cama.

A Peneda. Foi lá que em tempos iniciei uma etapa que viria para sempre modificar a forma como passaria a encarar estas coisas da bicicleta. Voltei lá duas vezes depois disso, com companhia diversa, e coisas estranhas aconteceram. Pessoas que descansam em cima dos telhados; ciclistas abandonados, sós, na serra durante horas; raptos por ninfas septuagenárias… tudo isto acabou por impedir que levássemos até ao fim os planos que tínhamos para essas jornadas.

Ainda fazíamos os preparativos na beira da estrada já um grupo numeroso de ciclistas seguia a caminho do seu destino. Reconheci um deles, o Jorge. Ele há cada coisa! Pensa um tipo que não vai encontrar ninguém conhecido ali, quase no meio do nada… Mas não fui o único a ser reconhecido. Inimitável a cara de espanto do visado, quando vários membros desse grupo se aproximam: “Olá! Então você é que é o Major, não é?”. É o preço da fama.

A subida em asfalto começou, com inclinação violenta. Lembrei-me vagamente das palavras de alguém que em tempos, sobre a mesma, escreveu que não bastava ataca-la de início com a atitude do Tio Lance, era preciso conseguir manter essa atitude até ao fim. Pelo sim pelo não, tinha comigo as peúgas talismã.


O asfalto lá cessou mas a ascensão não. Lá me ia deliciando com a presença de alguns bosques de coníferas que povoam aquelas cotas. Mais atrás discutia-se o “ecosistema geológico”.

Tudo o que sobe… acaba por parar de subir no topo (um axioma que acabei agora de inventar) e lá começámos a descer um pouco até as cercanias de S. Bento do Cando. Apesar de o Major ter alguns dotes para a coisa, a verdade é que não era perícia técnica que me impressionava, ao vê-lo e ao Plus a descerem à minha frente, mas apenas a total ausência de estima pelo material. Evidentemente nunca tinham tido a experiência de ter de resgatar dali alguém com uma roda destruída.

Descemos ainda mais profundamente. Os trilhos eram agora novidade para mim. Mas voltámos a subir. O Plus furou, facto a que fomos completamente insensíveis deixando-o abandonado à sua sorte e à descoberta de que, por engano, tinha trazido câmaras de ciclocross na mochila. Um km mais à frente eu e o Óscar jogávamos à malha sob o olhar complacente do Major.


Foi por esta altura, logo após a reintegração do Plus na alcateia, que o Óscar decidiu activar o Plano B, emitindo o seu já conhecido “Inde! Inde!” e guiado pelo GPS encetou o regresso ao carro. Logo de seguida entrámos na primeira zona de descida verdadeiramente técnica do percurso.

Apesar de tudo a vegetação rasteira não omitiu a presença de armadilhas e uma escolha sensata entre as opções de caminho existentes evitou a flagelação. Através de veredas fomos percorrendo brandas e inverneiras até chegarmos a um aglomerado habitacional de dimensão razoável. À nossa frente elevava-se uma pujante massa rochosa cujo dorso o Major nos informou que iríamos percorrer. “Vamos ter com que nos entreter para uns tempos…”, pensei.

Os primeiros kms foram em asfalto e aquela hora o calor já trazia à memória a aproximação do Verão. A estrada foi estreitando e a inclinação aumentado. Como se sabe que nestas coisas a óptica engana muito, a tecnologia presente no cockpit do Plus ia-nos informando da inclinação constante daquele troço: 18%. Felizmente que havia zonas de descanso… só com 16%. Já no topo apanhei do chão uma boina vermelha, um pouco encardida, que alguém ali tinha perdido. “Uma boina dos Comandos… será uma recompensa por ter vencido mais esta dificuldade?”


Pito é uma palavra bastante popular no norte de Portugal. Talvez para aqueles que, como eu, nasceram em latitudes mais meridionais e não estão tão familiarizados com o este dialecto a expressão “Ir ao Pito!” possa não querer dizer nada. Não vou estar aqui a entrar em detalhes, porque são coisas do foro íntimo, mas posso dizer que demorou, demorou muito. Foi necessária força mas também muito jeito. Ali não se formou nenhum grupo, cada qual abordo-o à sua maneira mas no fim o sucesso sorriu a todos.

Finalmente em Porto Ribeiro, depois duma travessia manhosa duma mata que me pareceu mais praxe que outra coisa, tivemos o primeiro (e único) reabastecimento num dos estabelecimentos da localidade. E ainda há quem se queixe de que em certas maratonas os abastecimentos estão muito distantes…


A estrada que abandona a aldeia em direcção a Sul trouxe-me memórias de há cinco anos atrás, quando da primeira Travessia do Dragão. Já na altura tinha ficado impressionado com aquela linha serpenteante ao longo do vale, fazendo-me acreditar que estaria talvez nos Alpes.

Mas coisas havia que tinham mudado nestes cinco anos. O caminho que tomámos após abandonar a estrada era agora uma subida de bom piso para acesso a mais um parque eólico. O Major, acossado pelas cãimbras despertas pela paragem anterior, ainda ponderou fazer ali um atalho pelo asfalto mas a falta de rede no telemóvel… ou alguém que por malvadez não o atendeu… goraram a execução do plano de fuga.


Os kms que se seguiram foram penosos para o nosso lobo mas quem sabe nunca esquece e a recuperação muscular foi ocorrendo. Percorremos então durante alguns kms o trajecto da manhã em sentido inverso e voltámos a encontrar os Kézia (julgo ser esse o nome do grupo) com quem já tínhamos confraternizado pela manhã.


Atendendo ao seu estado ainda há não muitos kms atrás, surpreendeu-me a opção do Major em manter-se fiel ao plano de descida em vez de utilizar o mesmo trajecto da subida matinal. Parte do trajecto já conhecia e sabia o que me esperava…

Ressalve-se que a descida não começou logo. Houve ainda muito granito de variado temperamento para escalar. Mas ela lá chegou. O Major uivou um sinistro “Et ça commence!”. Mas, resumindo, apenas digo que as dores que sinto em diversas partes do corpo no momento em que estou a escrever este texto se devem todas a essa descida.


Fazer um epílogo disto é escrever sempre as mesmas lamechices... mas foi mesmo bom. No final, já no conforto dos sofás do carro e impelidos energicamente pela suave pressão do pedal do acelerador, comentávamos entre nós que é preciso primeiro estar sujeito a certas privações para poder depois apreciar devidamente os prazeres da tecnologia.
 
#8
Fántástico :clap: :clap: parabens, grandes fotos :wink:
Quer dizer que o Óscar, aproveitou-se do GPS para programar o plano B caso visse a coisa mal parada :twisted:
Será que tambem esteve presente na ida ao "pito"?? :twisted: ou não abordou como os nossos protagonistas a tal súbida :D.........."ide, ide"
 

Tico

New Member
#10
Ora bela decisão que tomei, :wink: pois seria um sofrimento depois da mazela na pleura :cry:, mas com um nervoso miudinho por não ter estado presento na incursão, fico com os relatos e as fotos e a salivar, mas haverá uma próxima e ai já estarei bem melhor :?: :?:
 
#11
Se isto fosse uma peça de teatro e eu estivesse na primeira fila...teria que me levantar para bater palmas e dizer...BRAVOOOOO!!

Este Geres é sem duvida uma pérola...

Vi aqui fotos que são lindissimas

BB
 
#12
A expressão "a curiosidade matou o gato", ditado popular usado para alertar uma pessoa de que um mal pode ocorrer se ela for curiosa. Eu diria que encaixa como uma luva neste episódio, e embora não tenha havido nenhum extreminio felino, quase esfolava um Lobo eh eh eh

Tive pena de não participar nesta "festa" de aniversário, quanto mais não fosse para ajudar a soprar as velas com o Major eh eh eh

Quanto ao O. Wilde, eu diria que está a precisar de um trilho onde nem o gps o safe de apanhar uma valente "marretada", e onde não possa soltar o seu grito de guerra "inde, inde" eh eh eh

Estou solidário com o imprudente acto do Major, ao colocar-se no meio de dois tamanhos predadores de alcatrão.

Ao aniversariante já tinha desejado os parabéns, termino dizendo que foi com muita pena que não participei, pois a zona é por mim muito apreciada, apesar dos acentuados desníveis, mas da sua inigualável beleza.

JMoniz
 
#13
Há mães e pais inteligentes que, quando levam a prenda de aniversário para o miúdo que o comemora, levam, também, prendas para o resto da miudagem para evitar estas cenas de ciúme. Sei que não deveria ter sido tão forreta e limitado a prenda ao aniversariante e seus acólitos, mas...
Fica para uma próxima oportunidade. Talvez até crie uma empresa: empenos.nos.anos.com.
 

ICH

New Member
#14
A pior coisa que me podia acontecer era receber uma festa de uma empresa que se chama come empenos no anos. LIVRA :twisted: :twisted: :twisted:

Realmente a coisa parece ter sido épica.

Se a muita gente deixa pena não ter ido, eu estou aqui atormentado com arrependimento. O aniversariante enviou-me um convite. Mas a relva no jardim clamava por atenção. E fiz a opção sensata de ficar e tratar do jardim. Agora... Estou aqui a pensar nunca mais. A bicicleta é bam mais importante que o corta relva.

Eu já conheço a maior parte do trajecto e isso deixa-me ainda mais triste. Está decidido vou betonar o jardim. :mrsock:

Além de que se eu fosse ficaria para trás com o Major (por solidariedade claro 8) :roll:) e rogaríamos pragas às duas máquinas de pedalar.

Ao contrário de Óscar em vez de inde... inde... eu digo convidem que para a próxima vamos lá ver se não falho.
 
#15
Parabéns ao aniversariante e aos restantes pela bonita jornada!
Fico contente por ver colegas do btt a desfrutar das paisagens da minha terra e gostarem tanto!
Caso queiram tenho uns tracks excelentes para partilhar por essa zona, disponham!!
 
#17
Eu só espero é estar a altura de retribuir o presente ainda este ano, quando o Lobo tornar a trocar de década :lol: :lol:
 
#19
...muito bom, sem expressões à altura!!

350plus said:
Um agitado e ondulante mar de rocha para navegar. Para ajudar à festa, numa das primeiras secções consegui logo fazer um "quase-OTB". Amparei-me com a mão numa pedra afiada e fiz um pequeno corte num dedo que começou a sangrar. Sem tempo para assistências médicas segui, espalhando sangue por todo lado. Manípulos, punhos, quadro. Tudo pintado de vermelho.
...os trilhos de sangue... :mrgreen:
 
#20
Boas,

Com festas de anos assim, fazia anos todos os fins-de-semana. :mrgreen:

Parabéns pela crónica, está muito, mas mesmo muito fixe!!! :clap: :clap: :clap: :venia: :venia:

Cumps.
hm