Uma aventura de btt em 1992

Nozes

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Vinte anos. Como pode já ter passado tanto tempo?


Não me perguntem datas ou locais certos. Tenho algures num caderno onde apontava as voltinhas que fazia os dados desta aventura,mas enquanto não o encontrar não posso dar certezas.
Mas encontrei as fotos,e é o que basta.


A rota:
Muitos devem saber que o principal abastecimento de água de Lisboa é a albufeira da barragem do Castelo de Bode,no rio Zêzere. O percurso da linha de água é sempre que possível em linha recta,e o cano é quase sempre subterrâneo,excepto em locais muito ingremes ou passagem de cursos de água. A acompanhá-lo existe uma estrada de manutenção,em terra,na grande maioria do percurso.

O meu desafio foi chegar à barragem de Castelo de Bode seguindo essa estrada sempre que possível,e voltar pelo alcatrão.



Depois de fazer uns reconhecimentos até à zona de Casével (Torres Novas),e achar que seria “canja” uma viagem numa estrada que não apresentava practicamente nenhumas dificuldades,sem trânsito e principalmente sem o perigo de me perder.


E assim num belo dia de Junho (penso eu que foi por esta altura),enchi um bidon,coloquei numa mochila o farnel e um cantil de água fresca,e fiz-me ao caminho…





Por causa das grande volta que tinha que dar para encontrar uma ponte para passar o Rio Alviela,fui directamente de casa até ao Sobral,e lá iniciei a minha saga.Os primeiros kms correram exactamente como previsto,até ao primeiro desvio,já na zona dos Riachos.
Aqui dei de caras com umas ruínas romanas,a Villa Cardillio. Que belo sítio para uma pequena pausa !






Depois de abandonar a linha de água por uns kms para procurar uma ponte sobre o rio Almonda,retomei-a e rumei ao Entroncamento,onde cruzei as obras da futura A23/IP6 (!),e segui por uma das zonas mais bonitas do percurso:





Até aqui as dificuldades não tinham sido muitas,mas o cansaço começava a notar-se,e mal sabia eu o que aí vinha…o mais difícil da viagem!
Depois do Entroncamento o terreno muda radicalmente,e o sobe e desce constante e muito íngreme dos últimos kms antes do Castelo de Bode,que quase sempre fazia saír o cano do solo,e a estrada era substituída por um estreito passadiço por cima do cano,a bons metros do chão…por momentos as dores nas pernas desapareciam!





Algures nesta zona,tive de fazer uma “ginástica extra”,o caminho estava vedado por um grande portão,de mais de 2m de altura. Depois de olhar para a zona circundante e constatar que não tinha outra hipótese,decidi-me a saltar por cima,coisa mais fácil de dizer do que fazer,com uma bike pesada e bastante cansaço…mas o pior estava para vir,a vedação era de uma quinta de gado bravo,e acho que nunca pedalei com tanta vontade ao avistar relativamente perto os seus inquilinos!






Mais adiante,outro grande desvio,desta feita para evitar as instalações da EPAL,onde a água é tratada…para quem vinha há umas horas no mato,ver aquele edifício todo cercado de uma rede alta,com relva até perder de vista e um aspecto “aeroespacial”,foi uma das maiores surpresas do trajecto.





E finalmente,cheguei á barragem! Objectivo (meio) cumprido,embora com mais dificuldade que o previsto…
Não me recordo,mas talvez a ideia inicial tenha sido voltar pelo mesmo caminho…rapidamente foi posta de parte,tendo em conta as dificuldades encontradas na vinda. Assim,passei por um café,comprei 2 garrafas de água,tirei mais umas fotos e fiz-me à estrada…com pneus largos,pernas “arrumadas” e uma sensação de anestesia,lá cumpri o caminho de volta a casa,com câimbras nas últimas subidas para ajudar à festa.

Uma das memórias mais marcantes foi parar num café em Liteiros (Torres Novas),para comprar uma Cola e um Mars,e ficar como que “siderado” a olhar para a tv,que mostrava o vídeo do “Are you gonna go my way” do Lenny Kravitz…eu estava tão cansado que por alguma razão aquilo ficou cá marcado no fundo.







No total,foram 130km,mais de metade em terra,já que a barragem de Castelo de Bode fica a menos de 60km de minha casa. Demorei 8h30m em toda a viagem,das quais 7h30m a pedalar…
Nunca mais voltei a fazer tantos kilometros,mesmo na bike de estrada.Já fiz algumas maratonas de 100km,e sinceramente hoje em dia não é a distância que me atrai,daí que se for esta aventura que fica no topo em termos de “longitude” não importo nada com isso.

Uma perspetiva sobre a máquina:



Quadro e forqueta em aço (nada de cromoly),travões Mafac cantilever,manetes de plástico,aros Empal alumínio ~40mm largura,pneus Michelin Hi-Hot 2.125”,manípulos e deviadores Triplex,pedaleiro (oval) e cubos Ofmega,15 velocidades.
Peso nunca soube…e ainda bem!



E uma palavra sobre o que era fazer algo deste género no início dos anos 90:
Não haviam GPS,telemóveis,internet,nem qualquer coisa do género. Havia mapas,cartas topográficas,sangue frio,desenrascanço e uma grande vontade de ir mais longe,à procura do desconhecido e de passar de bicicleta onde muito poucos tinham passado.



Olhar para trás e lembrar-me destes tempos faz-me ganhar ainda mais vontade de continuar a pedalar!


Obrigado pelo vosso tempo,

Boas pedaladas
 

muRte

Member
Excelente relato! Confesso que tenho saudades desses velhos tempos de BTT puro e duro, sem suspensões, amortecedores ou carbono ;)
 

BikeTrepaTudo

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Ora aqui está a génese do BTT. Aventura, coragem, divertimento e fruição da natureza.
Parabéns Nozes. Excelente trabalho e soberba coragem para empreender tal jornada, ainda para mais sózinho.
 

Lanwolve

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Fantástico. Uma boa ideia a explorar no futuro!

Só não percebi esta: "No total,foram 130km,mais de metade em terra,já que a barragem de Castelo de Bode fica a menos de 60km de minha casa."
 
E já pensaste como seria engraçado renovares hoje essa aventura, em jeito de comemoração ?
Com bicicleta menos pesada, com telemóvel, GPS, etc ?;)

Anyway...
Gostei muito de ler.
 

Nozes

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Obrigado malta!

lanwolve,no total foram 130km,e essa é a única certeza que tenho. Eu moro entre Santarém e Pernes,e comecei de casa,na direcção do Sobral,depois segui sempre que possível pela tal estrada (que é de terra e gravilha em toda a extensão),e na volta vim por alcatrão (Castelo de Bode,Entroncamento,Torres Novas,Pernes)...e sim,ainda hoje é uma aventura,espero que o meu relato entusiasme alguém a seguir as minhas "rodadas" :)

strike Claro que já pensei muitas vezes nisso,mas...por alguma razão não o voltei a fazer. Quem sabe um dia!
 

Medroso#78

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Boas caros camaradas do pedal :)

....Mais um excelente relato/rescaldo do nosso amigo "Nozes". Muito obrigado pela partilha. :)

Curioso como me fez relembrar os meus felizes 14 anos de idade (hoje tenho 34), em que se pedalava por tudo que era lado. Aqui na aldeia eram poucas as casas. Eramos muitos moços........ dava-mos alegria, e dor, (muita dor de cabeça) aos pais e vizinhos........ Transito só nas estradas nacionais, o resto era tudo nosso. Era realmente tudo diferente (sem telemóvel, sem internet, gps etc.. etc...). Enfim, tudo mudou. Para melhor?! Não sei..... "Sei apenas que nada sei". Confesso que me deu saudade........ é verdade, 20 anos como se passaram extremamente rápido. E hoje, já com filhos (o mais velho com 11 anos) mal pega na "ginga" (uma vez por ano no passeio "miúdos e graúdos") cá da terra. Só querem é consolas de jogos, pc´s e telemóvel!!!!!!!

Conclusão, com a prática do BTT, eu e muitos amigos, reencontramos a liberdade.. :)
 

syndicaterider

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Boas , epa este relato ...deu-me cá um ardor no estômago...que nostalgia!! Bem eu iniciei-me em 94 nestas lides do BTT e tal como relatas , os tempos eram tão diferentes!!! Apesar de ter começado a pedalar com 13 anos .....em 1987???!!!! Meu Deus há tanto tempo!!!!!!Iniciei-me no cicloturismo e após alguns anos de estrada decidi experimentar o BTT, na altura como tinha gasto 50 contos !!!!numa bike de estrada em 1990, a minha entidade paitronal não me concedeu mais paitrocinios e lá tive que bolir um pouco para juntar mais 8 contos(40 euros!!!) ..sim foi quanto custou a minha 1ª montada de BTT!! Nada de suspensões, nem nada dessas modernices ....mas ía onde íam as topo de gama da altura!!Tantas aventuras ,do género sair de casa de manhã sem destino, sem hora de chegada , muitas vezes a ficar sem água , sem comida no meio de nenhures e sem qualquer tipo de contacto!!! Isso é que era pedir fruta "emprestada"!!!
As vezes que me perdi e desorientei, houve alturas que nem sabia para que lado era o Norte!!
E aquela bike , que na maior parte das vezes as mudanças não entravam , os travões só abrandavam, mas a aventura e a sensação de liberdade era tanta que compensavam e bem todo o sacrificio!!
 

noody_here

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Um relato simplesmente soberbo, o meu tirar de chapéu a esta aventura e ao seu protagonista; Nos dias de hj com tanta preocupação de pesos, tracks, gps e outros tantos gadgets que esquecemos precisamente a génese do andar de bicicleta, a liberdade de ir mais longe do que sobre as pernas, a bicicleta para os putos de antigamente era como agora comprar o 1º carro.

Sinceramente uma história tão simples e ao mesmo tempo que dá que pensar, os meus Parabéns.
 

madnez

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***** , estou a ficar velho tambem me lembro de começar a andar de manhã sem destino e chegar á noite, esfolado, cansado,com fome mas muito satisfeito, que bons tempos foram eramos miudos, agora somos homens e as perspectivas são diferentes, mas que dá saudade dá é legitimo, pior e termos a noção que não voltamos a viver aqueles tempos, já nos ocuparam o lugar :) por isso tento gozar o melhor possivel o presente pois o tempo não volta para trás.
Abraços Saudosistas
 

RTC

Super Moderador
Histórias destas alguns de nós ainda as guardamos na memória...agora em fotografias, com esta bem contada pelo Nozes, com certeza que serão muito poucas!
Quem me dera ter fotos dos tempos que fiz o mesmo. :clap:


Nos dias de hj com tanta preocupação de pesos, tracks, gps e outros tantos gadgets que esquecemos precisamente a génese do andar de bicicleta, a liberdade de ir mais longe do que sobre as pernas, a bicicleta para os putos de antigamente era como agora comprar o 1º carro
Bem dito! E tens toda a razão! ;)
 

Mach 4

New Member
Também tens dedo para as fotos...

Só gostaria era de ter começado no btt mais cedo, pois o tempo nunca mais volta atrás. Tu sendo um genuíno "old school" soubeste aproveitar muitas mais horas em cima dos selins...e isso já nunca mais ninguém te tira. As fotos perdem-se, estragam-se, rasgam-se, queimam-se, mas as memórias são indestrutivéis (ok, há a merd* do "Alzeimer").
Bom relato!!
 

Nozes

Active Member
Mais uma vez obrigado pelos elogios,fico feliz por ter despertado sentimentos de nostalgia em alguns de vocês. Quem praticava btt nestes tempos sabe que em relação a hoje não tem grande comparação,mas uma coisa é certa,era um btt mais "livre".

Lanwolve,como disse este caminho acompanha a linha de água que vai para Lisboa,por isso acredito seja mais ou menos idêntico em termos de acessibilidade.Só uma vez tentei explorar para Sul de Santarém,mas logo passados poucos kms encontrei o caminho vedado na zona de uma quinta,e não me dei ao trabalho de continuar. Sei que dentro do Vale de Santarém há acesso a este caminho,com certeza que daí para baixo muita gente já terá percorrido a estrada sem que se tenha apercebido de onde está a andar ou imaginado onde vai dar.

A secção Santarém-S.Vicente do Paúl (imediatamente antes do Sobral) é a que conheço melhor,e é muito utilizada por quem anda de btt em Santarém. Entrando junto à discoteca Twist,frente à Escola Agricola,consegues fazer talvez uns 15km praticamente em linha recta,apenas com uns desvios mínimos. Ao chegares a S.V.Paúl será necessário ir pela estrada principal para passar o Rio Alviela,e passados uns 3 ou 4 km retomas o caminho no Sobral.

A quem pensar em explorar este caminho,fica um aviso: Esta estrada é em grande parte da sua extensão vedada a veículos motorizados,com correntes presas entre pequenos pilares,quando se cruza com estradas publicas. De bicicleta estes pilares são facilmente contornáveis pelas laterais,mas convém ter cuidado,como o caminho é quase sempre a direito a tendência para olharmos para a paisagem pode levar-nos a encontrar uma destas vedações quase sem darmos por isso.

Talvez a semana que vem tenha tempo para tirar umas fotos deste caminho aqui perto de casa,afinal está exactamente igual ao que era há 20 anos atrás...ao contrário das minhas pernas :)

Boas pedaladas!
 

BikeTrepaTudo

New Member
Dentro do Vale de Santarém passa por debaixo da EN 3 a meio da povoação (perto do jardim), só volta a ver-se uma "estrada" do género que refere o Nozes no pinhal acima do Vale, mesmo junto à Estrada Real. Isto para sul.

Para norte vê-se da EN 3 a tal "estrada" junto ao jardim e a 200 metros tem uma subida que é quase uma parede. Passámos aí na maratona Festibike do ano passado. Cerca de 1 km depois o "cano" está assente em colunas (como se fosse uma ponte) para atravessar o paúl da Asseca, que é uma zona sujeita a cheias. É assim até perto de Santarém.
 
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