Singularidades Titânicas

#61
Por vezes percorremos longas distâncias para encontrar terreno propício a empenos cenicamente agradáveis... Nunca me apercebi que, baseado em Cinfães, se pudesse alcançar tão 'facilmente' esse objectivo... Está aqui, e tão perto da base, um excelente postal de BTT!
Se bem que seja mais adepto da descoberta, gostava de ter acesso a esses 'míseros' Kbytes de percurso!
 
#64
E X C E L E N T E !!!!

Primeiro de tudo um obrigado, ler algo a meio da semana dá um descanso à alma para o resto da semana e começar a pensar num fim de semana, que finalmente terá sol.
Depois mais um excelente relato com umas fotografias divinas.

Muito obrigado Major.
 
#65
Grande fuga à lavoura... parabéns pela crónica e pelos locais! :yeah:

Amanhã haverá certamente mais candidatos a fugir para os trilhos e a deixar a lavoura para trás... ;)
 
D

danielkezia

Guest
#66
Muito bom o relato e as fotos...Mais uma vez fica provado que é melhor estar sozinho do que mal acompanhado...
Quanto á bela ideia das pontes, seria engraçado...estao em sitios mais baixos que os talefes!!
 
#67
Tambem gostava de fugir de vez em quando da "lavoura" pra dar uma "voltinha" assim:-D.......................
Muitos parabens ao Lobo solitário pela partilha de uma parte de Portugal que nem toda a gente tem hipoteses de explorar/visitar e mostrar de como Portugal tem coisas mais belas como estas paisagens do que estádios de futebol ou shoppings;-)
 
#68
Palavras para quê...?

Um dos únicos senãos ao pedalar sozinho é ver cães de cauda erecta...no entanto, aproveita-se bastante a vertente cultural da coisa.

Parabéns pelo relato e pela partilha.

 
#70
Boas!

...mais um excelente relato da belíssima Serra que mais próximo tenho do meu "quintal"

É sempre bem frequentada, por "lobos" parabéns!



A Serra de Montemuro, de constituição essencialmente granítica, tem uma extensão de 40 km e o seu ponto mais elevado situa-se a 1382 m(Talegre).
Dali se usufrui uma vasta paisagem de grande beleza, avistando-se as Serras de S. Macário, Caramulo, Estrela, as cristas de Leomil, da Sra. da Lapa e do Pisco.

Vale a pena lá subir...



Abraço

bartes-13-
 
#71
Sim senhor

Muito bom esse treino escondido. Mas vendo bem acho que era silencio a mais faltava lá eu :D

E quantos aos telefes penso que só vale a pena ir a sua conquista quando temos alguem que pede passeio para pessoas em baixo de forma :eek:

Um abraço
 
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#72
Sempre a surpreender com as crónicas "épicas"...neste momento o tópico podia chamar-se "singularidades graniticas" dado os inumeros exemplares apresentados nestas magnificas fotos. Parabéns!

Obrigado pela partilha.

Já agora:

"Lobo-Ibérico no Montemuro
Existem actualmente cerca de 2000 lobos em liberdade na Península Ibérica, sendo que 300 se movimentam nas serras portuguesas.
Entre o Montemuro e a serra da Arada vagueiam três alcateias. Em Cinfães existe um grupo instável em que não foi detectada reprodução.
Pelo Grupo Lobo está a ser desenvolvido um Plano de Monitorização do Lobo nas serras da Arada, Freita, Montemuro e Leomil.
Com o patrocínio da Eólica da Cabreira, SA, da EDF e devido à persistência e empenho do Sr. Eng. Carlos Pimenta constituiu-se a Associação para a Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico nas Serras da Arada, Freita e Montemuro."

Cumprimentos.
 
#77


A beira alta sempre me seduziu. Rolando pela IP5, agora substituída pela mais rolante A25, o olhar era-me roubado do asfalto para aquelas superfícies graníticas, ondulantes, depois de passar Viseu e até chegar próximo da Guarda. Num serão de passeio nas cartas do IGEOE, tentei entender como acompanhar o rio Paiva mas percebi que é praticamente impossível fazê-lo em duas rodas. No entanto, de tanto seguir o trajecto do rio fui dar à sua nascente. Duas serras me cativaram: Lapa e Leomil. Ficavam nessa zona que me atraía há muito. Aquilino chamava-lhes Terras do Demo. Com ponto de partida em Aguiar da Beira, rabisquei um trajecto nessas cartas e guardei para um dia o explorar. Assim aconteceu este Sábado.
O bom tempo chegou e, por muito cansado que estivesse da semana de trabalho, não cedi à tentação do leito morno e arranquei cedo. Sempre é hora e meia para lá chegar. De tanto entusiasmo, dei conta, ao chegar, que nem carteira, nem documentos, nem dinheiro, nem chaves levava. Esperei não ter encontros imediatos com agentes da autoridade e que o gasóleo chegasse para o regresso.

Depois de uma inspecção sumária à vila, arranquei em direcção aos pinhais que tentam crescer entre toda a pedra que é exposta no planalto beirão.



Os trilhos eram largos, de bom piso, e sem grandes desníveis. Pensei que seria um bom trajecto para guardar na gaveta para quando, com noventa anos, não aguentar acumulados acentuados e pisos que sacodem os ossos. Interiormente, agradeci não estarem comigo companheiros a queixarem-se de fazerem 150 Km para andar em estradões...



Começava a encontrar vestígios da actividade humana do passado. Desta vez aconselhavam-me a pôr-me na alheta para não ser intoxicado por metais pesados.



Nos primeiros quilómetros portei-me bem e segui à risca o risco que tinha traçado apesar de, por vezes, ter tido a tentação de improvisar. O trilho levou-me à origem do Vouga:



Devo confessar que não fiquei impressionado. Achei tudo muito arbitrário. Porquê aquele charco e não outro, ao lado?



Avancei em direcção ao povoado próximo, Senhora da Lapa.





Granito e muros são coisas que abundam por aqui.



A Senhora da Lapa é daquelas povoações que teve origem, como podem ler na tabuleta, em pastorinhas alucinadas.



A aldeia é, toda ela, dedicada à religiosidade. Imaginei hordas de fiéis, toneladas de tachos de arroz de frango e montanhas de garrafões num qualquer dia de festa. Neste Sábado o lugar estava sossegado, com devotas, nos seus hábitos cinzentos, a caminharem convictamente de uma casa para outra.











Subi em direcção ao alto. Chamarem serra da Lapa a este montículo saliente no planalto parece-me exagerado. Lá em cima abundam cruzes, Cristos, abrigos para cruzes e, até, uma cruz a perder a tusa.



Espantado, confirmo o sucesso da Carmo nestas regiões remotas. Será ela prima de algum secretário de Estado?



-"É meu, é meu"- pareceu-me ouvir. Juro que não lhe toquei. Muito menos encostei a bicicleta e carreguei no botão da máquina fotográfica.




Apontei à serra de Leomil. Tinha mais esperanças neste maciço. Em caminho, passo por mais um rio na sua infância. Era o Paiva, o causador desta coisa toda.



Subi, então, à serra, ouvindo as palavras do Miguel Torga: "Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora." Eu sei que ele se referia a Trás-os-Montes mas ele próprio se negava a aceitar a fronteira administrativa do Douro e reclamava, para essa zona, a margem Sul do rio, "toda a vertente do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio".











Ao avançar serra acima vejo indicações de vestígios arqueológicos que me fazem constantemente mudar de rumo e me fazem gastar longos minutos na sua procura. Louvo a câmara de Moimenta que tão numerosas e preciosas indicações colocou no concelho. Pena que algumas estejam destruídas.







Nesta fortificação pré-histórica encontrei algumas relíquias, como esta carica da idade do bronze:


Abundava o lixo pré-histórico de algum neandertal mentecapto.



Retomei o caminho traçado para ser, pouco depois, novamente desviado. Uma estátua-menir (da Serra da Nave), com uma figura desenhada, abençoava-me ao lado do caminho.



A tabuleta explicava aos mais ceguinhos:



Nesta zona chamam orcas às antas. Talvez derivando de arcas? Não interessa. A minha imaginação derivou para o estádio dos dragões: "Vou ao estádio das Orcas ver os Dragões..."-pensei. Imagens épicas de um filme com criaturas incríveis entretiveram-me enquanto avançava.









 
#78
Depois de tanto impromptu à procura de megalitismo, voltei ao traçado original apenas para entrar num caminho privado que me convenceu a voltar para trás com um portão rico em arame farpado. Acabei por fazer um clássico: atirar-me pelo primeiro caminho que encontrei e que acabou por se tornar num corta-fogo vertical, de piso desfeito e com todo o tipo, formato e tamanho de pedra. Fi-lo grande parte a segurar a máquina a meu lado até me encontrar mais seguro junto a uma represa. Um caminho levou-me até ao povoado de Leomil. É claro que, de longe, via descidas bem mais inteligentes!



Os muros altos não me impediram de coscuvilhar a actividade que tinha lugar nos quintais. Imaginei que era altura de pôr batatas à terra...





Gostei de Leomil. Arejada.



Placas por todo o lado a indicar solares. Parece que vêm todos daqui: os Balsemãos, os Sarmentos, os Paiva Gomes, os Coutinhos... Junto ao Pelourinho atestei a água.



Estava a minutos de Moimenta da Beira, ponto de retorno da passeata. De Moimenta desci à barragem de Vilar, indo cumprimentar o meu terceiro rio da zona: o Távora. Conheci-o aprisionado pelo cimento. Só mais tarde o veria ainda a fluir livremente, mais a montante.




Esta terra é terra de vinho, azeite e maçã.





Continuei sempre em asfalto, passando por Fonte Arcada onde uma interessante torre (torre-atalaia quinhentista) se projecta contra o plano de água, no fundo.



Só na aldeia de Quinta da Laje entrei novamente em trilhos, subindo o vale da ribeira de Ferreirim.



Cheguei (sem saber) muito próxima da Beselga (cumprimentos aí a esse pessoal!) mas virei para Sul na aldeia próxima de Freixo. Subi, então, à serra de Pereiro onde os trilhos que tinha desenhado não tiveram correspondência com a realidade fazendo-me entrar em vários caminhos sem saída antes que atinasse com a descida até à estrada. O corpo já se ressentia. Optei, por isso, por um regresso asfaltado. Mesmo assim foram 112 Km com quase 2000m de acumulado. Pensei na ideia que tinha tido no início: um passeio sem grande acumulado, com pouca trepidação, para os meus noventas... só se fosse para dar o "coup de grace".



PS: Voltarei. Há que limar arestas, reduzir asfalto, fazer o trajecto fluir antes que possa compartilhar a volta com a comunidade. Pode ser que haja feedback e conselhos dos experts da zona.
 
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#79
curiosamente de Miguel Torga também são estes versos:

"
Chamar-te génio é justo, mas é pouco.

Chamar-te herói, é dar-te um só poder.

Poeta dum império que era louco,

Foste louco a cantar e louco a combater.



Sirva, pois, de poema este respeito

Que te devo e professo,

Única nau de sonho insatisfeito

Que não teve regresso!"
 

Kamoes

Active Member
#80
Amigo lobo!

Obrigado!

É um luxo, poder ler estes relatos de voltas!
Tão bem escritos, fotografados, marcados...

Obrigado, pela maneira como escreves, e pela maneira como mostras este Portugal que eu não conheço!

Um abraço ;)
Marco Camões.