Singularidades Titânicas

#43
Engraçado, este tópico parece mais um tópico alusivo ao aniversariante do que a ida a Drave eh eh.................então tambem vou aproveitar pra desejar muitos parabens(atrasados) e não as condulências;-)
que haja ainda muitos anos pela frente pra festejar;-)
 
D

danielkezia

Guest
#44
Muitos Parabens, atrasados tambem, mas chegaram...
Que passe muitos anos em cima do Kubota e em cima das titanias e tambem de outras "coisas".

Cumps.
 
#46
Boas!

Quando estou deprimido, gosto de vir para aqui... suavizar a mente, sonhar! sentir aquela vontade de pedalar...

Este "Major" não deixa nada ao acaso, sempre bem apetrechado... com a lição sempre bem estudada, á que fazer-lhe uma venia!!

Parabens por mais um relato á "MAJOR"

Abraço

bartes -13-
 
#50
Um convite de amigos para passarmos um fim de semana em Unhais da Serra puseram-me a fazer planos para uma incursão à Estrela. Um "amigo" cedeu-me uns trilhos de outro "amigo". Uma dúzia deles. Curioso, fui vê-los no Google Earth. As coisas pareciam trilhos de aves de rapina a sobrevoarem o maciço central. Depois de questionado, o "amigo do amigo" lá confessou tratarem-se de trilhos de caminheiros. Em linguagem fina, trekking. Podia usar este bocado, assim, e unir com aquele, assado, e regressar por cozido e frito... Enfim, lá pus alguma coisa no GPS e abalei, depois de dar uma vista de olhos ao METEO do IST: iria ficar frio, muito frio. Prometia-se ausência de grau ou, mesmo, um défice deles.
A manhã acordou risonha mas ventosa e... sim, fria, muito fria. Preparei um pequeno-almoço reforçado, ganhei coragem e comecei a subir. Apesar de haver algumas alternativas ao asfalto, depois de experimentar o primeiro corta-fogo, desisti de seguir os conselhos dos "amigos". No cimo das primeiras curvas, parei para ver a vila.



A subida foi quase sempre em asfalto, suave mas contínua, até à Nave de Santo António. Graças a um troço em terra e asfalto muito degradado, com pedregulhos soltos em derrocadas invernais, não há tráfego automóvel, fazendo deste acesso ao topo um caminho agradável. Em certas zonas, um vento gelado e forte fazia a face gelar. Estava frio, muito frio.





O gelo na estrada fez-me, por uma vez, ficar sem bicicleta debaixo do traseiro. Já desconfiado, ia prevenido e fiquei de pé, mesmo que numa posição pouco digna para um moço da minha idade e gesta.





Quase na estrada que vem da Covilhã, olhei para trás a mirar o trajecto já subido.



Na Nave de Santo António foi altura de decisões. Uma das hipóteses era descer a Manteigas e voltar a subir esse famoso vale glaciário. No entanto, não resisti a ir ver os topos coroados de neve tal como as outras centenas de macacos que, de automóvel, subiam a montanha. Lá fui eu, encostado à berma, apenas incitado por um ou outro condutor mais efusivo, incluindo um jovem soldado da GNR que, por duas vezes, me deu apoio psico-geriátrico.



Já lá para o final da subida resolvi beber. Ainda não tinha ingerido líquidos pois o frio não me fazia transpirar. Chupei pelo tubo do Camel-Back mas debalde... não saía água. Intrigado, trinquei o bocal com mais força e senti algo crocante. A água tinha gelado no tubo e não fluía. Depois de algum jogo de pressões positivas e negativas lá chegou, fresca, muito fresca.
O topo parecia-se com uma feira, dezenas de automóveis, povão a atirar bolas de neve, a comer, a planear o almoço ("são cinco pratos!! vamos lá..."), a deslizar sobre a neve, a tirar fotos, a lutar contra o trânsito, a impedir o trânsito, marimbando-se do trânsito. Muito trânsito. Pensei que deviam ter reservado a Estrela só para mim. Falta de respeito!





Na Torre planeei o regresso. Pensava continuar a estrada até à Lagoa Comprida e, aí, encontrar um estradão que desceria até à Loriga.





A dada altura tive uma visão do vale que, supostamente, poderia ter descido caso não me tivessem informado tratar-se de um passeio para caminhantes. Estes são os perigos da internet e da globalização da informação.



Confiante que seria fácil encontrar o dito estradão, não me tinha preocupado em gravar o waypoint do seu princípio. Asneira. Falhei o início dessa descida e continuei na estrada que segue para Seia. Preocupado por estar a descer uma encosta bem diferente da que tinha subido, atalhei logo que pude. A descida, em travagem contínua para minimizar o arrefecimento das mãos, levou-me a S. Romão. A meio tive que parar para restabelecer a circulação nos dedos. Estava gelado, muito gelado. Batia o dente. Assim que o sangue reencontrou o caminho dos capilares digitais, as dores nas pontas dos dedos vieram intensas.

Lá em baixo o tempo estava mais ameno e uma placa indicava que estava a 15 Km da Loriga. Paciência, havia que pedalar, quase sempre a subir. Finalmente cheguei à aldeia.



Aí, tinha gravado um trajecto. Analisei-o cuidadosamente e vi que seguia uns caminhos interessantes mas com total desrespeito pela manutenção da cota altimétrica. Resolvi manter-me na estrada e ver como a coisa evoluía. De facto, trilho e estrada voltavam a encontrar-se mas comecei a suspeitar da escolha de caminhos. Calçadas romanas, caminhos monte acima e monte abaixo.



Resolvi ir seguindo por estrada. Sempre se voltavam a encontrar, trilho e estrada. Como o Sol mostrava já uma inclinação suspeita, comecei a calcular horas de luz e de pedal. Subir a eito o monte poderia ser mais directo mas sabe-se lá que tipo de trilhos estes "amigos" me tinham arranjado. Seria tudo trilhos para botistas? Mesmo que fossem para BTT, seria a direcção a mesma que eu tinha tomado? Sabendo que teria que ir à volta dos morros, fazendo muitos mais quilómetros, resolvi não arriscar carregar com a bicicleta por ravinas e giestas. Estava a ficar tarde para isso. Contava, em todo o caso, que fossem outros 15 quilómetros ou coisa parecida. Quando a tabuleta apareceu, fiquei com um sorriso bem amarelo.


Unhais da Serra 38 Km

Estradas bonitas. Subidas intermináveis. Fixei a sua designação: N231.
Finalmente a subida amansou e a estrada desembocou, junto a um restaurante, na N230. A casa de pasto lembrou-me que estava com fome, muita fome. Queria, no entanto, despachar a coisa antes que ficasse escuro. Sonhei alto e pensei que talvez a estrada descesse, apenas descesse. Uma vozinha dizia que sim, a outra que tirasse o cavalinho da chuva. Felizmente, a tal N230 descia quase sempre, num declive suave mas que me permitiu acelerar e despachar os 20 Km que faltavam. A vista da tabuleta de Unhais foi uma benção. Tinha frio, tinha fome, estava cansado. Podem dizer que "o gajo só fez asfalto", que "aquilo não tem dificuldade" mas o certo é que aquela centena de Km com 2400m de acumulado me causaram um belo empeno. Nem o banho quente me restituiu um completo bem-estar. Só com meia garrafa de tinto é que me senti humano outra vez.
Foi um dia frio, muito frio. Soube mais tarde que, na Torre, as previsões eram de mínimas de -9°C e máximas de -5°C...


 
#53
Irra! fiquei gelado...

Há umas semanas atrás, pedalei com um colega que me relatou uma aventura recente de alguns amigos que tinham feito a subida à torre por estrada. A coisa parece não ter corrido muito bem e em grande parte devido ao frio, chegando alguns elementos a necessitar de ajuda, tal foi a dose

Pessoalmente, dou-me mal com temperaturas muito baixas, especialmente nas mãos...encarei este relato como um desafio severo.
Louvo a persistência !


RPires
 
#56
Excelente crónica, pedalar com essa amplitude de temperaturas não está ao nível de muitos...os meus parabéns por continuar a alimentar os sonhos de muitos bttistas com estes magníficos foto-reports.

continuação de boas pedaladas
 
#57
Com Amigos assim trata em arranjar inimigos...ou um Quadro Nicholeta para usufruíres do milagre da multiplicação :( ..Kaputt

Por fim: Alguém que te puxe as orelhas.... :confused:

MY
 
#60
O REGRESSO AO MONTEMURO

Fugi à lavoura para apanhar um empeno. Pois. Voltei ao Montemuro para melhorar algo que lá tinha explorado há quase um ano atrás (http://www.forumbtt.net/showthread.php/12408-[Crnica]-Finalmente-o-Montemuro). O dia, que se prometia solarengo, assim o ditava. Afinal, vou ter muito que trabalhar até à reforma. Talvez nem a chegue a usar...

O projecto implicou levantar-me a horas em que a lua, ao contrário de mim, nova, ainda decorava um céu escuro. A viagem demorou pouco mais de uma hora e, ainda cedinho, arrancava.
Era dia de feira em Cinfães.




Após Contença, o trilho marcado pelo Airborne mandava-me por umas calçadas acima, visitando azenhas e aidos, alguns ainda com uso. Tinha tentado seguir este percurso na Travessia de Junho passado mas, sem track, perdera-me.








Os caminhos eram exigentes para o físico, a habilidade e o equilíbrio mas a paisagem de Inverno transmitia paz.









No planalto, os trilhos não eram óbvios e só consegui acompanhá-lo mantendo-me em cima do risquinho do GPS. Pensei com alívio no facto de estar só. Certa companhia iria, certamente, importunar-me com críticas sobre o traçado. É certo que houve algumas ligações menos evidentes e pouco dadas à bicicleta. Ao contrário de outros, eu aceito os factos e continuo teimosamente.



O granito vigiava-me atentamente.









Lá em cima, o gelo ainda não tinha derretido completamente.



Da cumeada, apreciei o relevo granítico e imaginei a sua génese, milhões de anos atrás.



Os caminhos largos, abertos pelo indústria do vento, levaram-me a S. Pedro.



Segui pela cumeada usando, durante a maior parte do trajecto, esses estradões. Do cimo ouvia o cantar dos chocalhos das cabras. O silêncio era tão grande que, para poder transmitir as sensações, tenho de recorrer a uma pequena filmagem. Não resisti a incluir uma mensagem cifrada a quem sabe muito bem quem é... é tão bom, o silêncio!

[video=youtube;sSNUjy1I0tw]http://www.youtube.com/watch?v=sSNUjy1I0tw[/video]

No colo próximo da aldeia de Aveloso



vi-me no meio de um rebanho e seus valorosos guardas peludos. Tentei lembrar-me do significado de uma cauda tão erecta. Sobrevivi...






O dia estava magnífico. Quase sem vento e um Sol que aquecia sem incomodar.




“Olha um meco! Um dos altos!!”- pensei.



Uma vozinha, saída não sei bem donde, ecoou no meu cérebro: “É meu, é meu...”. Devia ser o Marco dos marcos a reinvindicar os seus direitos e prioridades. “Que se lixe”- pensei- “também não preciso de mecos para ter um objectivo para o passeio.”. Segui para o segundo colo na cumeada, vendo as aldeias de Alhões e Bustelo.



Chego, assim, a esse colo, chamado pomposamente de Portas do Montemuro. Uma pequena capela de 1717, bem protegida do frio por uns muros altos, reside humildemente ao lado da estrada.







Apesar do dia estar fresco, estava-se lindamente ao Sol, pois não corria qualquer aragem. Sentei-me a comer o pãozito com queijo e marmelada que me teria de bastar para o dia todo e arranquei monte acima.

“Olha outro!...”.
“É meu, é meu...”.
Que raio de desígnio mais pateta...



Parece que os mecos já se reproduzem. Este tem gémeos! Seremos um dia dominados por uma raça superior de mecos.

Segui.

Próximo da aldeia da Gralheira (sim! Aquela do famoso restaurante que constitui o objectivo de alguns pedalantes...) arredei-me dos trilhos conhecidos e fui explorar uma alternativa desenhada em casa. Lembro-me de uma sucessão de pequenas aldeias...



árvores em repouso invernal...



líquenes a servirem de roupagem ao carvalho negral...



trilhos variados, alguns a desaparecerem por baixo das giestas...



pelourinhos artísticos em Panchorrinha...



Um trilho técnico levou-me de Panchorrinha a uma ribeira que alimenta o Douro (o rio Cabrum).



Lá em baixo esperava-me uma ponte lindíssima.



Lembro-me de pensar se não seria muito mais interessante fazer uma colecção de pontes em vez de uma colecção de estruturas piramidais ou cónicas em cimento, com tiras cinzentas e escritos de amantes entesoados!? Seria ir à descoberta e não apenas seguir as instruções evidentes, de qualquer maneira, no terreno. As fotos, essas sim, seriam bem mais variadas e bonitas...

Para sair do vale, seguia-se por um trilho ao longo do rio e mantido mais ou menos limpo provavelmente pelo fluxo de pescadores.



Pouco depois, havia que pagar o divertimento da descida com uma subida complicada.
Entrei, depois, em caminhos cheios de água e ladeados por azenhas antigas.





Mais aldeias. Mais edifícios rurais a testemunharem modos de vida em extinção.



Apesar do desenho do trajecto ter tentado aproveitar (e fê-lo) os caminhos rurais antigos, foi inevitável um troço de asfalto que, do fundo do vale, me voltou a pôr em cima, junto a Pimeirô. Aí entrava no trilho já percorrido e que era absolutamente delicioso.





Os trilhos técnicos sucediam-se ininterruptamente, culminando numa descida em calçada até ao rio Bestança onde me esperava a ponte de Covelas. Vistas consoladas em corpo massacrado.





O regresso implicou uma subida longa, inicialmente numa calçada em que apenas consegui ir montado cerca de metade do percurso, seguida de uma estrada secundária onde fui relaxando o corpo. Em Cinfães, um restaurante que prometia belas francesinhas, atiçou-me a fome. O corpo dorido pedia algumas calorias irracionais. Optei por uma fatia de pizza. Podem desenganar-se dos 64 Km do percurso. Nem os 2150m de acumulado de subidas conseguem explicar o empeno. Apenas uma experiência pessoal nas calçadas o poderá explicar. As alternativas avistadas desta vez fazem-me pensar que o percurso ainda não está perfeito. No entanto, há-de passar algum tempo antes de lá voltar. Ou não...

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