Porto - Fátima pelos caminhos de Santiago e das Carmelitas 2020 - Preparação e viagem

#21
Estou em Alveijar, até Fátima é só um tirinho.



Aqui, tive um dos momentos que marcam. Acabado de vencer uma rampa, descansei à sombra de uma árvore de uma casa. O dono, vindo de lá de dentro, ofereceu-me uma garrafa de água. Pequenos gestos que tocam... Fiquei um pouco à conversa com ele e segui, sem que o mesmo aceitasse nada pela garrafa.

Faltam apenas 6 km para Fátima, a minha cabeça já lá está, sentada numa esplanada a beber uma caneca e a celebrar o feito. Mas.. estava a ser fácil demais, calma... O trilho começa a piorar gradualmente, gradualmente, a vegetação cerrada, cada vez mais próxima. O tratamento de esfoliação foi-se intensificando.


Quando as coisas parecem não poder piorar mais, e até estão a melhorar, eis que me vem a voz do apresentador de TV Marco Horácio: "Soltem a parede". Literalmente!



Vá lá, a bike é leve, posso bem com ela. Parede atrás de parede, faz-se facilmente... Eram desníveis com cerca de 1 metro, quase todos eles. Quase parecia uma escada de gigantes.

A suar em bica, após várias paredes deste género, avisto o cabo da boa esperança:


Mas nada disso, para lá chegar não é só vencer a subida que se vê na foto, há uma última parede inesperada:



Vá esta não era uma parede, era uma rapa obliqua. "200 e tal quilómetros sem dificuldades, apenas a ter de levar a bike pela mão graças ao calor, ou então em troços de no máximo meia dúzia de metros. E à chegada, uma injeção de 2 km de tormento."

Bem, se tudo correr bem, parece que cheguei, e acabou a provação e de agora em diante é alcatifa até ao Santuário. Neste momento, o alcatrão é muito bem vindo!

 
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#22
Começo a passear pelas ruas de Fátima, bastante cansado pela estocada final, mas entusiasmado pelo praticamente alcançar do objectivo. 99% de certeza que chego, seja de arrasto, seja com a bicicleta na mão. Passo pelo pátio dos pastorinhos e registo o momento.


A certa altura, os marcos deixam de existir e existe "apenas" a sinalização de transito com indicações várias para o santuário. Entrada nascente, sul... Quero é chegar! Vou pedalando, escolho a entrada sul por ter entrado por Fátima pelo lado sul (e depreender que será essa a mais próxima), e avanço por entre os edifícios. De repente, à minha esquerda, vejo o posto de turismo, e entusiasmado, entro de relance, quase me esquecendo da máscara e arrancando sorrisos pela minha atrapalhação à senhora que lá estava.

Obviamente pedi o carimbo, que, por milagre quase divino, aqui existia! A senhora carimba, está de pernas para o ar... Não há problema, carimba-se novamente, e toma lá segundo carimbo. Reparei depois, é igual ao carimbo recebido em Coimbra, alusivo ao Turismo do Centro de Portugal, indiferenciado do local onde se encontra.
Bem, é uma standardização, e isso é bom de vários pontos de vista operacionais, mas não tem o mesmo valor que um carimbo único de cada local... Ponho-me em cima da bike, "pela última vez", e pedalo em alta velocidade até ao enorme santuário, onde paro mesmo no centro, e registo a chegada::





Porque nunca estamos sós, mesmo quando pensamos que sós estamos, tive a sorte de ter registada a minha entrada no espaço do santuário, bem como foto-check de toda a "equipa" - eu, a bike e a mochila - que pedalou por aí abaixo nesta solitária, louca, incrível, inspiradora e uma série de outros adjetivos que possam caracterizar esta aventura.

Findo esta sessão fotográfica, que já decorreu perto das 14:20 da tarde, era hora de ir comer, pois estava, sobretudo, SEDENTO. E com fome também, embora comer de enfiada 2 barras proteicas e beber muita água deve ter feito inchar o bolo digestivo, de maneira que apenas comi uma bela salada, e bebi um caneco para hidratar e recuperar da estafa
O almoço passou a correr, inebriado pelo estado de entusiasmo por ter concluída a aventura. Após isso, foi tempo de comprar umas lembranças, e ir cumprir o propósito maior que me trouxe até cá...

Velas acendidas, promessa paga, é hora de regressar. Troco as 2 rodas por 4 rodas, e desmontando as rodas da bicicleta, é hora de empacotá-la na bagageira e fazer o caminho de volta. Foi assim, com a dignidade que foi possivel, que a bicicleta que me transportou por mais de 200 km veio na traseira de um VW Beetle:



E porque não convém esquecer, foi assim que a credencial do peregrino ficou.
Esqueci-me de dizer que, no posto de turismo do castelo de Ourém, inspirado pela atitude da senhora do café anterior, e dado que não possuíam carimbo, lhe pedi por favor para assinar a credencial. O rapaz ficou algo atónito, mas espero que desta forma a mensagem fique, e seja transmitida a falta que um carimbo faz.. Mesmo que, ta como os exemplares de Fátima e Coimbra, sejam iguais...



E como dados são muito bons, o dia da chegada, dia fácil, contemplou 62,01 km de percurso, com 980 m de desnível positivo, percorridos em 4h21min.
 
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#23
Como epílogo, os momentos que se seguem a um acontecimento destes são de um regresso à normalidade, que é como quem diz, a anormal normalidade, pois vimos formatados de uma forma diferente. Durante estes três, e que foram apenas três dias, dei por mim bastante mais comunicativo com quem me fui cruzando na rua, com uma sensibilidade diferente para com pequenas coisas do dia a dia, até menos tolerante com certas atitudes de terceiros.
Há, efetivamente, uma pessoa que vai e outra que vem. Algo cá dentro muda, e não sabendo definir o quê, o desejo de continuar na estrada instala-se e começamos a pensar nas próximas aventuras...
 
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#26
Porra pá... perninhas de ciclista!!!... ;)
É tudo efeito das sombras e do exercício, afinal tinha acabado de pedalar uma porrada de km :D Por falar nisso, não te respondi à ultima mensagem, força nessa peregrinação! Quando estás a pensar ir?

Muitos parabéns pela aventura e por está crónica. Excelente.
Deve ser espetacular fazer essas viagens, com calma, e conhecer locais que de outra forma provavelmente nunca saberíamos que existem.
É algo que só posso aconselhar vivamente! Em grupo ou só, vai! Não interessa o destino (desde que nos diga algo, qualquer destino é válido), o importante é o caminho.
 
#27
É tudo efeito das sombras e do exercício, afinal tinha acabado de pedalar uma porrada de km :D Por falar nisso, não te respondi à ultima mensagem, força nessa peregrinação! Quando estás a pensar ir?


É algo que só posso aconselhar vivamente! Em grupo ou só, vai! Não interessa o destino (desde que nos diga algo, qualquer destino é válido), o importante é o caminho.
Só por curiosidade, não causa muito desconforto levar uma mochila dessas às costas durante esses km's todos? Alguma razão mais especifica para não levar uma daquelas bolsas de selim e guiador?
 
#28
Só por curiosidade, não causa muito desconforto levar uma mochila dessas às costas durante esses km's todos? Alguma razão mais especifica para não levar uma daquelas bolsas de selim e guiador?
Causou algum, é verdade, sobretudo porque a que tenho é alta e se a subir demais ela bate-me no capacete, então acabava por deixa-la numa posição mais em baixo e causava algum entorpecimento dos ombros.

A razão de ter optado por esta e não levar nenhuma outra tem a ver com o facto de gostar da bicicleta maneável, e de ser dificil arranjar bolsas para dupla suspensão. Experimentei uma de 10L da Topeak de selim e parecia que ia bater com a roda na bolsa. E depois são bolsas boas para coisas leves, o mais pesado deve ir sempre às costas, portanto...