Porto - Fátima pelos caminhos de Santiago e das Carmelitas 2020 - Preparação e viagem

#1
A distância entre o sonho e a realidade encontra-se à distância da capacidade de planear e determinação para por em prática os planos realizados, com o toque final da junção de todas as circunstâncias "perfeitas". E coloco perfeitas pois nunca o são, apenas há que olhar para a janela de oportunidade e seguir em frente, confiando que debaixo dos nossos passos hesitantes há solo firme.

Assim, e após 13 anos de sucessivas protelações, seja por nunca ser a altura ideal, seja por haver sempre outros planos mais atractivos, a janela surgiu recentemente (se bem que com os condicionalismos do COVID-19 pudesse não ser a janela "perfeita"), e eis que decidi aproveitá-la para juntar dois em um, e dessa forma tornar o plano mais atrativo e motivador:

Fazer uma peregrinação a solo de bike, um sonho antigo;
Ir até Fátima desde o Porto, uma promessa antiga.

O plano foi feito à velocidade da luz. A experiência das anteriores idas de BTT e a pé, em grupo, até Santiago de Compostela dava um conforto nas decisões a tomar: altimetria acumulada e distância de cada etapa, material a levar, locais onde ficar, pontos relevantes com impacto nas decisões a tomar. O facto da montada ser nova e, no entanto, já bastante testada e aprovada, dava outra segurança extra face às eventuais ferramentas e material a levar, não havia necessidade de levar uma bicicleta suplente e a mala de ferramentas às costas :D Imprevistos podem acontecer, é certo, mas sendo o risco baixo, e um risco que vale a pena correr. Só tinha uma mochila de 30L para preencher, e em 250 km cada grama extra pesa bem!

Embora a experiência de peregrinação seja, a meu ver, mais completa e autentica se realizada em albergues e sem etapas definidas à priori, o facto de ir sozinho para uma aventura destas, e não querendo nenhuma surpresa para a qual não estivesse apto a lidar, decidi levar tudo já planeado "de casa". Dessa forma, o factor imprevisto teria menos margem para causar estragos.

Assim, e com base nas experiências anteriores das idas a Santiago de Compostela como referência, e buscando as informações no site gronze (https://www.gronze.com/camino-portugues) como distâncias, desníveis e locais possíveis para alojamentos, defini em traços gerais as etapas que iria percorrer. Estava decidido a seguir pelos caminhos de Santiago, mas no sentido inverso, tanto quanto me fosse possível.

- Porto (Sé) a Curia - ~100 km e 1200m desnível acumulado;
- Curia a Alvaiázere - ~90 km e 1500m desnível acumulado;
- Alvaiázere a Fátima (passando por Tomar) - ~80 km e 1200m desnível acumulado.

Estes números foram calculados "grosso modo" para estimativa e definição das etapas. Nestas coisas, tenho tendência a errar por excesso, pois na realidade quando estamos a contar com 100 e acabamos com 90, acaba por ser mais agradável que o contrário (pelo menos para mim). No entanto, nem sempre correu como queria... Mais a frente já lá vamos.

Convém fazer um esclarecimento nesta altura: O caminho de Santiago, sendo bastante antigo, originalmente não passa por Fátima. Assim, o meu plano inicial passou por seguir estes trilhos até Tomar, e desde lá engatar pelo caminho nascente de Fátima, que é um trilho marcado que une estas duas cidades. Todo este percurso estaria (ou pelo menos assim o esperava, tanto pelas informações como pela experiência própria), marcado pelas setas azuis, tão semelhantes às amarelas que bem conheço e seria fácil seguir. Também, segundo as informações recolhidas aqui e ali, seria transitável na sua totalidade por BTT, salvo troços pontuais.

Definidas as etapas, marcados os alojamentos (fiz marcação em albergues privados, recorrendo ao booking), contactando previamente o alojamento para saber da disponibilidade para guardar a bicicleta durante a noite, está quase tudo tratado. Ambos os alojamentos foram disponíveis nesse aspecto, sendo que num deles a bicicleta até dormiu no quarto :D De referir que, devido a esta situação da pandemia, consegui dormir sozinho pelo preço de dormir em quartos partilhados. De facto, um azar as vezes torna-se numa oportunidade... A pouca afluência de peregrinos, anormal nesta época do ano - expectável - ajudou nesse ponto.

Faltava apenas preparar a mochila. Decidi ser o mais minimalista possível:
- Equipamento de ciclismo (tshirt, calções, sapatilhas, óculos e luvas) no corpo + uma muda extra do vestuário
- Camisola de desporto mangas compridas e calções desporto
- Impermeável ciclismo + calças impermeáveis
- 2 pares de meias
- 1 havaianas
- 1 roupa interior
- Necessaire (champô, gel banho, creme hidratante, desodorizante, corta unhas, protetor solar, máscaras descartáveis...)
- Kit 1ºs socorros básico da Decathlon
- Kit SOS bike (2 camaras de ar, bomba CO2, bomba suspensões, cera para a corrente, abraçadeiras plástico, dropout e elo rápido, desmontas, ferramenta multifunções...)
- Barras proteicas (6)
- Geis energéticos (6)
- Detergente da roupa para lavagens
- Luzes frontal e traseira da bike
- GPS com diversos tracks (retirados do wikiloc) para o caso de me perder
- Carregador e powerbank

Essencialmente foi isto que levei, posso estar a esquecer-me de algo que até seja importante, se reparar que falta algo mais tarde acrescento a negrito.
 
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#2
Dia 6 de agosto, quinta feira, Dia da partida.

Acordei cedo muito facilmente, dado o entusiasmo de partir nesta aventura. Eram 6:15, o sol estava a nascer. Tinha já tudo preparado de véspera, foi tomar um pequeno almoço rápido, ir até à garagem, por-me em cima da bike e sair. Para começar foram apenas 2 km até à estação de metro, onde ia apanhar o metro até à estação da trindade, no porto. A partida estava prevista para as 6:50.
A viagem demorou cerca de meia hora, entre os olhares dos curiosos que miravam um ciclista tão equipado àquela hora da manhã, de um dia da semana.
Chegado à estação da trindade, eram quase 7:30. Nova pequena etapa de pedal até à Sé do Porto, numa descida pela Avenida dos Aliados e subida por S. Bento rápida e em força, até chegar à Sé do Porto, de onde iria começar oficialmente a aventura.



Feito o registo para a posterioridade, não deixou de me surpreender não ver ninguém a esta hora. Da última vez que cá tinha estado a estas horas e em circunstâncias semelhantes, mais precisamente em maio de 2014 quando fiz o primeiro caminho até Santiago de Compostela de bicicleta, chovia a cântaros e mesmo assim pude observar pelo menos uma dúzia de ciclistas que iriam iniciar a peregrinação para ambos os sentidos! E não pude deixar de sorrir ao pensar no quão mal preparado estavam comparado a agora (fisicamente e de equipamento)... Por comparação, não levei óculos, luvas, não levei impermeável para a mochila (tive de improvisar com um saco do lixo a envolve-la, não levei barras energéticas para ir comendo quando as energias falhavam... Viver é aprender. E há pessoas, como eu, que gostam de aprender vivendo!

Abandonadas estas recordações, rapidamente me fiz ao caminho, e ainda mais rapidamente parei para registar a primeira seta azul:



A excitação inicial tem estas coisas, tinha andado 50 metros apenas... Mas como ninguém estava à minha espera, e não tinha grandes calendários a cumprir, apenas tinha de chegar ao final das etapas, há que registar os momentos devidamente, e os momentos iniciais são importantes.

Nesta altura, ainda não me tinha apercebido, mas a cor das setas azuis viria a revelar-se difícil de distinguir nas paredes sujas, contrariamente ao amarelo que já tão habituado estou.

Atravessada a ponte D. Luís, fiz-me ao caminho, fazendo um desvio para um café matinal. O que eu não sabia, é que me ia arrepender deste desvio por me perder, mesmo com toda a preparação para evitar que isso acontecesse! Já lá vamos mais à frente...

Paragem feita para um café matinal, penso que isto nem estava a custar nada, ia ser uma brincadeira. Decidi por pedais a caminho a sério e só parar quando já tivesse uns bons km's nos pedais. Vejo no GPS onde me posso encontrar com o percurso, começo a pedalar nessa direcção, e rapidamente estou a ver as setas azuis.
Continuo a seguir as setas, sempre com uma pedalada controlada. Começo a ter a sensação que já estava a ficar atrasado, acelero mais um pouco, e com isso descuro-me a ver os trilhos no GPS (que por acaso estava no modo poupança de energia e se desligava após o consultar). De repente, deixo de ver as setas azuis e começo a seguir estes belos marcos:



Complementados por estas magníficas tabuletas:



Vendo isto, penso "estou no caminho certo", vamos embora.
 
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#3
Pois, na verdade não estou no caminho correto... Pelo menos, não naquele que eu pretendia! Estava a percorrer a N1, sabendo de antemão que teria alguns troços neste pedaço de asfalto. Porém, além da ausência já falada das setas azuis, comecei a olhar para trás e também me apercebi da ausência de setas amarelas no sentido contrário. Uma rápida consulta ao GPS mostrava-me que encontrava-me no track.. Curioso... Ia continuar a pedalar, quando me recordo de um relato que tinha lido, em que referia a existência de uma "parede" próxima de Perosinho, e esta localidade já estava distante, aliás, tinha acabado de passar o nó dos carvalhos.. Brinquei com o zoom no mapa e... Descobri outro track, paralelo ao que me encontrava, um dos que coloquei no GPS, e que me fez perceber que estou fora dos caminhos de Santiago, mas num caminho paralelo. Pesquisa feita, percebo que estou nos denominados "Caminhos de Fátima"... e a pedalar por km's de asfalto, sem perspetiva de encontrar trilhos nos km's próximos.

A minha indignação foi tal que apeteceu-me voltar atrás, e quase que o fiz. Nesta altura, já levava 10 km exclusivamente de asfalto e as indicações "oficiais" das tabuletas e marcos mandavam-me por aqui:



Bastante atractivo, não haja dúvida... Sabendo o que sabia, que havia alternativa com mais qualidade, virei à direita imediatamente, seguindo em direcção à rota que procurava seguir.

Neste momento, lembrei-me de uma nota que tinha lido anteriormente no site da associação dos Caminhos de Fátima (https://www.caminho.com.pt/index_p.html) que passo a transcrever:

"Devido a destruição dos caminhos de Fátima e Santiago pelo Turismo de Portugal, a Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima cessou a sua missão de ajudar os peregrinos, lamentamos mas este site foi desactivado devido as alterações no caminho. Para obterem informação sobre o Caminho devem contactar o Turismo de Portugal. Sugeríamos um e-mail de protesto para o Turismo de Portugal: info@turismodeportugal.pt e outro para o presidente da República: belem@presidencia.pt com cópia para: info@caminho.com.pt +info: https://www.caminho.com.pt/"

O que se passou, consegui ir percebendo com o tempo, foi algo aproximado a isto: Esta associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima, que voluntariamente andou a efetuar marcações no caminho com os seus recursos, tendo em conta o caminho de Santiago e o Caminho de Fátima, viu os seus esforços literalmente ignorados por uma entidade "oficial" denominada Turismo de Portugal, que dotada de recursos superiores (as ditas tabuletas e os marcos), ignorou a sinalização existente e conduziu os peregrinos para os caminhos que bem entendeu, tal como a N1 onde me encontrava, ao invés de os colocar em trilhos secundários, mais belos e menos perigosos. inclusivé, fez questão de colocar indicações com cruzes a indicar quais os caminhos a não seguir. Um dos tracks que tirei da net, onde alguém fez o percurso pensando que, tal como eu, estava nos caminhos de Santiago, estava ligeiramente "ao lado" e fez-me cair neste erro, tal como eu faria cair alguém que seguisse o meu .GPX até ao momento.

Aproveito ter mencionado esta associação para dizer que no seu site (https://www.caminho.com.pt/index_p.html) é disponibilizada uma credencial do peregrino, à semelhança dos caminhos de Santiago. Obviamente que a pedi e levei comigo para obter carimbos onde possível, embora, como esperava e infelizmente vim a comprovar, não exista nenhum tipo de "compostela" ou documento que comprove termos feito a peregrinação. Isso fica reservado para as peregrinações a Santiago de Compostela, apenas...
 
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#4
Voltarei a este assunto mais tarde, pois se a minha indignação inicial por esta intervenção foi grande, acabou por amenizar quando percebi que havia alguns troços comuns, e sobretudo quando percebi que iria escolher parte deste troço como alternativa.
Mas não dá para deixar de referir como é triste quando isto acontece. É uma descoordenação total e um desaproveitamento do esforçado trabalho (e bom trabalho!) que acaba por fazer com que o interesse se reduza. Fazer uma rota de peregrinação coincidir na sua maioria com a maior nacional do país não me parece a melhor opção... Para além do perigo (que só por si seria suficiente para desviar em absoluto os peregrinos desta rota), acho pouco atractivo caminhar por esta estrada ao invés de estradas secundárias com menos movimento e maior interesse paisagístico e cultural.

Rapidamente encontrei as setas amarelas (e as azuis também, as originais) que me indicaram que estava no caminho pretendido.





Senti-me melhor, se bem que ainda tinha alguma sensação de já ter "perdido" parte do caminho.. Paciência, vamos em frente, e agora com atenção ao GPS e aos tracks que sigo! Rapidamente me cruzo com o primeiro peregrino que seguia a pé até Santiago. Ambos esboçamos um largo sorriso por nos reconhecermos mutuamente como peregrinos, e um "bom caminho" é trocado efusivamente.

Mais a frente, sempre pedalando a um ritmo algo rápido demais (típico do início e ainda "stressado" por ter andado com os carros a cruzarem-se comigo) e já com 20 km em cima e o tempo a aquecer e a água a escassear, decidi fazer a primeira paragem "a sério". A sério, pois aqui já era uma necessidade, por assim dizer, de abastecer de líquidos. Vi esta igreja simpática e a fonte, com água potável, e decidi que era um óptimo sítio para uma pequena pausa.



Após parar, reparei que a água não era tão potável quanto isso...



Algum engraçadinho tinha cortado o "não", e eu à distância nem reparei que havia qualquer coisa de errada nisto tudo.. Paciência, ainda tinha 1/3 do bidon, teria de chegar.

Fui pedalando por caminhos próximos à N1 , na sua maioria asfaltados e sem interesse "betetista", pelo que decidi não tirar muitas fotos enquanto não apanhasse algum trilho digno de nota. Cruzei-me com a mesma por algumas vezes, e a certa altura voltei a avistar os malfadados marcos, desta vez a apontarem no meu percurso. Estava amuado com eles, mas lá tive de os suportar.

A certa altura, e a fome também começava a apertar, decidi parar ao ver um parque no mapa:



Um iogurte e uma sandes de panado vindas de casa forraram o estômago, e permitiram seguir viagem. Estava em Lourosa, eram 10h da manhã e levava já 30 km, quase um terço do dia. O terço mais fácil, diga-se, pois desnível quase nulo e a temperatura ainda estava a subir...

Mais a frente, parei num café, e estando já sem água e de estômago cheio, decidi parar para tomar um café e abastecer, e quiçá, obter o primeiro carimbo do dia! Estava com azar.. Não tinham carimbo. Paciência, fico-me pela água e pelo café.

Pouco antes de chegar a S. João da Madeira, um sorriso desenhou-se na minha cara: um trilho digno, e a subir.. Foi para isto que vim!



Foi sol de pouca dura, 300 metros depois já me encontrava novamente em asfalto.. Paciência, decerto haverão mais para a frente.

Algo engraçado que fui presenciando no caminho, é que Santiago está bastante presente no caminho e na devoção das pessoas:



Para quem quiser ler:

 
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#5
Isto tinha duas coisas boas: permitia-me saber que estava no caminho certo, e servia para alimentar a mística que o caminho de Santiago representa para mim. E posso explicar, fazendo um parentesis, e incluindo uma terceira razão: apesar de já ter feito "todos" os caminhos de Santiago de Portugal (costa, central e interior) - há infinitos caminhos e inicios para os caminhos, "todos" é uma maneira de dizer os principais - o Caminho Francês está aqui atravessado como o Rei dos Caminhos, desafiante e belo, e algo que quero mesmo fazer. Mas não nos desviemos, foi apenas um aparte. Esta peregrinação, esperava eu, serviria como uma preparação para essa aventura, que imaginava eu, provavelmente irei fazer sozinho à semelhança desta. Esta seria a prova de fogo que me permitiria saber se seria capaz de levar algo tão grande a cabo sozinho.

Dei por mim a pedalar nas ruas de S. João da Madeira.


A seguir a S. João da Madeira, o caminho continua igual como ate cá: por nacionais, intercaladas com alguns caminhos secundários, ambos de asfalto. Apenas cruzei um riacho por uma ponte em paralelo.




Ao chegar a Santiago da Riba, decidi que estava na altura de parar para almoço, e logo a seguir a atravessar o caminho de ferro e apanhar com uma subida, decido que paro no próximo local adequado. Levava 50 km, era meio dia, e ia no geral com um ritmo lento.

Parei no Café Santiago, onde por 5 euros comi uma diária de panados. Não tão bons como os que trouxe de casa, mas mesmo assim estavam 5*. Aproveitei, e por alguma segurança em demasia, pois ainda tinha bastante bateria, pus o telemóvel e o GPS à carga. As fotos do 1º dia + o desejo de gravar o track decentemente levaram a ter esse cuidado.

De barriga cheia e pernas mais descansadas, mas nem por isso com menos calor, decidi fazer-me a caminho, com calma para não abusar do termostato :D. Azar o meu, logo a seguir a Oliveira de Azeméis tive direito a uma "parede" (130m de desnível), que me fez suar bem! Para compensar, de seguida os trilhos surgem, desta vez em maior extensão. Vá, estradões.. Mas depois de tanto alcatrão, sabem a single track.



Mesmo próximo de habitações, o estradão continua a estar presente.



Desemboco numa estrada nacional, e estou quase em Albergaria a Velha. De repente, surge uma estátua da Virgem Maria, e decido registar o momento:




Aqui, os dois tracks que estava a seguir desde o desvio inicial, divergiam. Um, seguia pela nacional, movimentada e barulhenta. Era uma reta que dava acesso à ponte para atravessar o rio Vouga. O outro desviava por caminhos secundários. "Vacinado" pela experiência matinal, decidi ir pelo caminho que desviava da nacional. Estava farto de carros, portanto era óbvia a decisão!
 
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#6
De repente, chego a uma ponte neste estado:



Qualquer pessoa sei que teria uma atitude de voltar para trás, independentemente da razão que levasse uma ponte a estar fechada desta forma, com vegetação a crescer nas fendas do pavimento. Eu não vou dizer o que fiz, mas posso partilhar que essa atitude fez com que apanhasse um c*g@ço daqueles e voltasse para trás, mas a correr...

E aqui está a razão, já vista da nacional. Por onde devia ter ido logo de início, e recomendo a qualquer pessoa que o faça:



Fica o aviso: A ponte velha sobre o rio Vouga está interrompida, e assim parece que vá continuar.
Ao regressar à nacional, cruzo-me com um grupo de mais de duas dúzias de peregrinos que vão até Fátima. Coletes amarelos, um dos elementos com megafone, outro de lanterna vermelha à retaguarda, bastantes com um ar sofredor.. Lanço-lhes um cumprimento à distância, um ou dois responde...

Pouco mais a frente, o caminho volta a desviar da nacional e encontro uma das mais belas paisagens do dia:



Com agrado, percebo que o caminho passa por esta ponte, e sigo em frente. Com o entusiasmo, esqueci a regra básica, que já vou recordar.



E a alegria de seguida logo esmoreceu ao recordar a regra: A seguir a uma ponte sobre um corpo aquático, prepara-te para subir. Era feia a subida, de alcatrão e exposta ao sol, mas como um valente, debaixo dos 30 graus que se faziam sentir, venci-a. Não sem umas pausas estratégicas para refrescar, estava muito calor e deveria ter aproveitado quando estava perto da água, bem menos quente.

Estava a rolar, sabia eu, perto de Águeda, e, de repente a descida esperada até à cidade surge. Estava a chegar à ultima cidade antes do meu destino, e os km já começavam a pesar no corpo, com dores nas costas e nos glúteos a fazerem-se sentir.

Chegado a Águeda, parei no Posto de Turismo, onde consegui o 2º carimbo do dia. Nenhum café dos que parei tinha carimbo até aqui... Aproveitando este momento, decidi deitar-me no jardim a beira rio e avaliar o que conquistei até ao momento:
Eram 16:30, tinha 90 km feitos, e ainda uns 15 pela frente. Tinha sobretudo receio de esforçar-me demais e pagar a fatura nos dias a seguir, pelo que decidi ficar mais tempo a descansar e partir devagar, de forma a sentir bem o corpo e as suas exigências, bem como aproveitar para me alimentar e, sobretudo, hidratar bem. Soube bem, o caminho também se faz parado e parando :)
Antes de arrancar ainda estive uns momentos na conversa com uns taxistas que, vendo-me deitado na relva com a cabeça sobre a enorme mochila, me decidiram perguntar de onde vinha e para onde ia. "Do Porto, para Fátima!", respondo. "Do Porto? Eh veja lá, já poupou 85 euros! Se viesse de taxi era o que lhe custava", responde um deles. Pois é, visto assim, a viagem estava a ser de borla

Abandono Águeda e preparo-me para a subida que aí vem. Tomo o último gel do dia para estar em forma, e registo a saída em foto:



A última subida, e o último registo do dia. Não dá para esconder a motivação deste registo, se não fossem os gostos, que era feito do amarelo :p


Eram 18:00 quando finalmente cheguei a Curia. Estava feito o primeiro dia! Algo cansado, decido dirigir-me rapidamente para o albergue de forma a descansar quanto antes, nem tive curiosidade em visitar as termas (ou sequer de ver se era possível visitar). Lá chegado, e depois do susto inicial de ver o albergue fechado e não conseguir contactar com ninguém (acabei por ver a porta lateral aberta e rapidamente entrei), peço à rapariga da recepção autorização para guardar a bicicleta, algo que a dona, com quem tinha falado no momento da reserva, me tinha garantido ser possível. Qual é o meu espanto quando descubro que vou dormir "bem acompanhado" :D Imaginava uma sala lá fora, agora uma garagem 5* é outra coisa.



Graças ao meu pedido + estar sozinho + toda esta situação do COVID-19, dedicaram-me um quarto quadruplo para dormir com a bicicleta. Bem, aqui não tinha com que me preocupar com ela. Tomei banho, consegui por a roupa a lavar e secar, vesti a roupa de ir jantar e fui, a pé, até ao centro para comer algo rápido. Queria descansar quanto antes de forma a que no dia seguinte o cansaço não se fizesse sentir por demais.

Ainda tive oportunidade para avaliar como me sentia: Era a primeira vez que fazia algo assim, sair de manhã, pedalar o dia inteiro sozinho, ficar a dormir sozinho, em suma: tudo sozinho. Ao meu ritmo, à minha vontade. Foi agradável esta sensação, e embora tenha contactado frequentemente ao longo do dia com as pessoas importantes, estava sozinho. Mas não estava só :)

Eram 22h quando já estava de volta do jantar e de uma caminhada para "desmoer" o repasto e pronto a dormir. Não sem antes ainda ter analisado o dia:

108,92 km percorridos, 1482m de desnível positivo, cumpridos em 6h:22min de pedal. Em ambos os valores as minhas previsões pecaram por defeito... Espero que os próximos dias sejam mais meigos!

Uma nota, relativamete a este dia. No final, um misto de emoções, teve imensa estrada, foi o primeiro dia, e portanto, há uma série de emoções asssociadas que é difícil dissecar individualmente. No entanto, diria que de toda esta distância, 80% do caminho foi penoso por alcatrão e carros.. Tinha confiança que os próximos dois compensassem, senão sentia que a aventura iria saber a pouco.

No final de tudo, e já em jeito de epílogo, posso escrever que o troço desde o Porto até Coimbra não tem um interesse por aí além, dificilmente no futuro considero repetir esta experiência, seja de bicicleta seja a pé.
 
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#7
Dia 7 de agosto, sexta feira, Dia da consolidação.

Ponho-me a pé cedo, mas não tão cedo como ontem. 6:45h chegam perfeitamente, tenho tudo pronto desde a véspera, tomo o pequeno almoço que me deram na véspera no albergue (ou o que restava dele, pois deu-me a fome noturna) e dirijo-me para a porta. Como este pequeno almoço não me saciou nem um pouco, estimei que em 5-10 km tinha de fazer uma pausa para um pequeno almoço a sério.

"Acordei" a bike, e disse-lhe para ir para a porta esperar por mim.



Abri a porta, pus a bike de fora, deixei as chaves no sitio combinado. O dia amanhecia invernoso, o céu encoberto e fresco até, o que convidou a vestir o impermeável nos primeiros km que se previam rolantes. Vamos a isto! Para hoje tinha menos km a percorrer, esperava, mas mais desnível. Vou com calma, com as costas a acusarem umas dores ligeiras, e os glúteos um incómodo ligeiro por ainda estarem algo frios. Rapidamente o corpo se moldou à posição e desapareceram.

Aqui faço um parêntesis, este albergue ficava a 5-6 km do caminho desviado. Não consegui encontrar nada aberto próximo do caminho, portanto optei por seguir em frente e cruzar-me com o caminho no ponto mais curto, o que significava que só teria de fazer apenas 2-3 km até me juntar novamente mais a frente. Com o GPS, facilmente encontrei as setas, confirmei duplamente estar onde pretendia, e siga viagem. Eram 7h, muitos estabelecimentos ainda estavam fechados, pelo que fui andando, com o bichinho da fome a crescer. Mais a frente, senti um cheiro familiar que me fez querer saltar o pequeno almoço e passar directamente ao almoço. Era oficial, estava na Mealhada:



Parei na padaria Tropical no meio de um dia que de tropical nada tinha, e comi bastante bem. E foi o primeiro café que encontrei com carimbo, e logo pela manhã! Merece a referencia! Aproveitei e levei já uns bolos para comer durante o dia, pois não tive oportunidade de ir as compras em Curia.

A seguir, o caminho deriva da nacional e entra em trilhos. Gosto, logo pela manhã ter estes docinhos sabe bem:



Mais a frente o trilho já começou a apertar e por vezes pensei que iria ter de regressar para trás.


Por várias vezes me cruzei com este género de poços ao pé do caminho. Abertos, e depreendo que profundos, não sei como não acontecem acidentes. Até porque mais a frente cruzei-me com uma família que dava um passeio matinal por estes caminhos.




Os km's foram passando, fáceis e rolantes, e, de repente eis uma descida repentina. A meio da mesma, avisto Coimbra à minha frente! O conta km marcava 25 km percorridos, eram 9h da manhã.




Mais a frente, pouco antes de atravessar o rio, vejo uma estrutura engraçada que me lembra os tempos da universidade: um canal de parshall (https://en.wikipedia.org/wiki/Parshall_flume )



Curiosidades por esse caminho que nos fazem sorrir :) Em Coimbra, decidi ir ao posto de turismo para carimbar a credencial, por saber que era um sítio certo de ter carimbo. Lá chegado, a rapariga que me atende pergunta se estou a fazer o caminho das carmelitas (https://caminhosdefatima.com/caminhos/rota-carmelita).
Já tinha lido qualquer coisa sobre esse caminho, e disse que apenas estava a seguir o caminho de Santiago no sentido inverso, com direção a Fátima. Mesmo assim, ela decidiu explicar em que consistia este caminho, uma breve introdução histórica e a garantia que seguia coincidente ao caminho de Santiago, se bem que com algumas diferenças, e que levasse o panfleto para o ler. Aceitei, agradeci imenso e sai, com essa ideia na cabeça.
 
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#8
Fui para o parque à beira rio estudar com calma as alternativas e o que implicavam. A verdade é que as fotos que vi na internet, mais o panfleto que a rapariga me entregou, me convenceram que seria uma boa alternativa. O sol começava a raiar, tímido entre as nuvens, e o calor começava a fazer-se sentir, pelo menos quando o sol raiava.

Comecei por pensar que ir até Tomar e depois virar para Fátima ia ser improdutivo.. Tinha ainda a viagem de regresso a casa nesse mesmo dia, que ainda não tinha decidido como seria, e eventuais outras alternativas não eram agradáveis: prolongar mais a estadia seria algo que não me apetecia muito, e dessa forma não ia conseguir aproveitar para visitar Tomar devidamente, nem muito menos Fátima. Em todo caso, tinha estadia reservada em Alvaiázere (que é fora do caminho de Fátima, pois ambos os caminhos bifurcam em Ansião. Foi então que percebi que este caminho das Carmelitas tinha uma variante que passava por Alvaiázere, e depois unia ao caminho para Fátima tradicional, permitindo assim fazer o planeado e ao mesmo tempo encurtar o 3º dia.

Ficou decidido aí. A partir de Coimbra, seguiria pelo caminho das Carmelitas (que em boa parte é o caminho de Santiago até Alvaiázere). Assim chegava mais cedo a Fátima, tornava o 3º dia menos pesado (as temperaturas previstas convidavam a essa redução), e podia vir mais calmamente embora, e ainda tinha tempo para visitar a cidade, e sobretudo fazer o caminho sem pressas. Continuava pelo caminho de Santiago e adicionava uma segunda rota, inesperada. Assim se tomam decisões :)

Animado com a decisão, atravessei a ponte sobre o Mondego e parei num café para comer algo quente (a paragem para estudar as alternativas tinha-me arrefecido, apesar do sol tímido que insistia em brilhar). Novamente peço o carimbo... Novamente não tem.

Arranco em direcção ao mosteiro de Santa Clara. A subida queimou logo o pequeno almoço que tinha tomado à pouco.




Foram mais 3 lances destes, com uma inclinação bruta. Basicamente foram 100 m de desnivel para lá chegar.

A vista compensou o esforço:




Coimbra tem mais encanto, na hora da despedida. Pois tem, diga-se, apesar de já ter subido até ao Mosteiro, a saída da cidade foi sempre a subir, rampas duras seguidas de descidas rápidas, novamente seguidas de rampas íngremes. A paisagem vai-se alterando, e de um ambiente de subúrbios, passamos rapidamente a um ambiente de trilhos, que seguem a subir, embora mais lentamente e alternados com descidas suaves.



Após passar por Cernache, vejo o primeiro marco do Caminho que marca menos de 100 km. Neste momento levo cerca de 40 km em cima, e o destino já começa a avistar-se. Animado, pedalo com mais vigor ainda.



Mas esta pedalada vigorosa associada às subidas fizeram das suas, e fiquei sem água após passar Condeixa. Estou no meio do nada, numa planície deserta, e ainda me falta um pouco para Conímbriga, onde duvido que encontre água (pelo menos sem recorrer a algum café que, porventura, esteja aberto).
Para piorar a situação, na noite anterior devo ter colocado pouca cera na corrente com medo de sujar o chão do albergue, pois com 50 km percorridos, a corrente já está a chiar. Consulto o GPS, e vejo uma fonte a 3 km, mesmo a face do caminho. Pedalo devagar, pois já estava com bastante sede (tinha comido um lanche salgado, que ajudou a piorar a sede), e de repente.. Eis a fonte! Bebo eu, bebe a bicicleta uma dose de cera, e fico a repousar uns 10 minutos para recuperar.



A cera que falo é a Squirt lube, e para quem conhece, apresentações dispensam-se. Para quem não conhecer, sugiro ler este site:
https://zerofrictioncycling.com.au/wp-content/uploads/2017/12/Squirt.pdf
Até agora, estou convencido pela eficácia e pela limpeza, recomendo!

Abastecido e recuperado, volto a por-me ao caminho. Em breve espero passar por Conímbriga, e o estômago já começa a pedir algum alimento consistente. Vejo que as minhas opções de almoço serão complicadas, pois não há grandes povoações na rota após passar por Conímbriga. E por falar nela, eis que chego às suas imediações.


A foto não faz jus à vista, o Canhão fluviocársico do rio de mouros (a ler a tabuleta também eu :D) é bastante belo. Vá deixo esta fotografia em que consegui não apanhar a bicicleta:



Continua a não lhe fazer jus, ainda assim...

Como era meio dia, e estava no meio do nada sem almoçar, decidi que visitar Conímbriga teria de ficar para outra altura que lá passasse de carro. De bike, fica a visita à distância, e o desejo de voltar.
 
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#9
Os trilhos passaram de repente a ter uma coloração diferente, mais avermelhada, e a envolvência continuou excelente.



A seguir a uma ponte, há sempre uma subida, recordar:



Este troço e o seguinte, ate à localidade de Rio de Mouros, foi o melhor até o momento. Estradão e troços com desníveis, alguns drops, bastante interessante do ponto de vista de uma vertente mais de trail. Foi divertido, até ao ponto em que dei por mim a elevar o ritmo e a cansar-me demais, debaixo de um radioso sol. Felizmente ainda tinha bastante água, porque fiquei cansado.

Mais a frente, situava-se Rio de Mouros. Qualquer pessoa ficaria desiludida, nem mouros, nem rio...




Passo pela rua central que tem o nome do local, e registo para a posterioridade:



O piso continua em terra batida, que seria excelente para fazer quilómetros e apanhar um restaurante ou algum local onde possa almoçar. São 12:30 e o rato no estômago está a ficar zangado. O GPS conta neste momento 57 km.
No entanto, logo após Rio de Mouros, o trilho encolheu substancialmente. Repito, substancialmente. Ficou assim:



Aqui nesta zona dá para ter uma noção da largura, que é pouca. Em alguns locais não havia forma de não levar a vegetação de arrasto, e o desviador foi almoçando, tal a quantidade de erva que mastigou neste troço.

Confiante que estou no caminho certo, prossigo a pedalada.



Este troço é mesmo bonito, e quando o caminho alarga novamente, mais bonito fica.



Mais a frente, paro neste pequeno parque de merendas, que, surpreendentemente no meio do nada, tem uma fonte funcional.





Quanto à ponte, via-se ao longe, mas por preguiça, fome e vontade de comer, não fui tirar a foto mais de perto. Mas era uma ponte bonitinha, asfaltada, o que de certa forma achei que não fazia muito sentido...



Aqui percebo que se quiser almoçar, só mesmo em Rabaçal, que fica a cerca de 7 km. Serão mais 30 min aproximadamente até poder dar ao dente, e o estômago retrai-se de fome.
 
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#10
Ponho-me rapidamente a caminho, e mais rapidamente paro, e desta vez não por nenhuma necessidade, mas porque estava num sítio incrível, do qual já tinha lido o nome algures:
O refugio Nicolau. No meio do nada, visível da berma da estrada, uma dezena de tendas, com inscrições, embelezam a paisagem. Silêncio, total, apenas se ouvem os zumbidos dos insectos com o seu tom monótono, e a paisagem, completa pela decoração a propósito.. Obviamente que tive de parar e explorar o sitio. E tinha fruta à disposição... Não resisti, com a fome tirei uma laranja. Estava algo quente de estar ao sol, mas soube-me maravilhosamente, e ajudou a tapar o buraco no estômago. Em troca, deixei uma moeda de donativo. Este sítio, que à hora (e talvez por esta altura) estava deserto, merecia uma visita.

Não vale a pena explicar por muitas palavras, deixo que as imagens falem por si:









O interior das tendas comunitárias era agradável, a sombra era fresca.





E surpresa: tem carimbo, e o mesmo funciona! Fiz questão de ter um carimbo deste local perdido e algo mágico.






Não muito rapidamente pus-me a caminho novamente, com a decisão de só efectivamente parar no restaurante. A passagem por Zambujal foi célere, pois não possuía nenhum local onde pudesse almoçar ou até visitar, dada a hora já avançada. Fica o registo de uma menção ao caminho de Santiago, com a indicação apontar de onde tinha vindo.

 
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#11
Saí do Zambujal com velocidade, enveredei por estradões, e a distância a Rabaçal ia-se reduzindo. A paisagem voltou-se a vestir de tons secos, e lembrou-me o Alentejo, com as oliveiras a ladear o caminho.





O estradão desembocou numa nacional, e após atravessar uma ponte, a placa diz-me que cheguei a Rabaçal.



De repente, vejo o placar referente ao caminho de Fátima. Estes placares informativos começaram a ser uma constante, e tendo já ultrapassado algum do desprezo do primeiro dia por eles, fui fotografando os que pude.



Começo a sentir o cheiro a comida no ar. Pedalando, chego a um largo perto do centro, onde havia o único restaurante aberto num raio de km's.
Não há alternativa, vou almoçar aqui ou aqui. Por curiosidade algo engraçada, reparei depois de tirar a foto, a loja ao lado esquerdo ao restaurante (a casa amarela em frente), tem uma placa com uma moto-serra da STIHL, que está colocada ao contrário.. Acho que ficar assim não tem mal, serve para o efeito, porquê mudar?


Apesar dos tempos que vivemos, o restaurante estava lotado. A uma capacidade total e mais alguma. COVID-19? Isso não chega cá ao interior...

E eis que aqui se dá um dos momentos mais engraçados e genuínos do caminho, e a razão pela qual gosto das pessoas do interior: Subi as escadas que se vem na foto e que desembocavam num patamar onde tinha uma mesa e 4 tipos almoçar, os quais cumprimentei com um sonoro "boa tarde". Isto, e fazendo um parêntesis, é algo que se vai ganhando quando se passa tanto tempo sozinho, e nos vamos cruzando com peregrinos na estrada, qualquer presença humana merece a nossa audível saudação, que não é mais que uma oportunidade de nos lembrar-mos que não estamos completamente sós.

Após cumprimentar os clientes no exterior, espreito e vejo o interior do restaurante cheio e abafado. Prevejo uma demora enorme até conseguir um lugar, e começo a fazer contas à vida, bem como a pensar se me apetece entrar num local tão abafado assim.

Eis que, um tipo do grupo que estava cá fora, o mais velho e o chefe dos restantes, vim a saber, se vira para mim e pergunta se me quero juntar a eles. Eram 4 e estavam numa mesa que facilmente daria para 8 pessoas. Aceito, e foi óptimo. Eram trabalhadores num campo próximo, com idades entre os 20 e 30 e poucos. O mais velho tinha mais um ano que eu, e as perguntas sucederam-se: "De onde és?" "Para onde vais?" "Sozinho? Que louco!". Lá fui respondendo, e por entre as perguntas percebi que era malta que trabalhava aqui e acolá, e agora estavam na colheita dos campos até daí a 15 dias. Acabei por conseguir pedir rapidamente pois a comida deles já estava quase a caminho, e fui rapidamente servido.

Terminada a farta refeição, agradeci a hospitalidade aos colegas de refeição, prometendo rezar por eles em Fátima. Paguei, pedi o carimbo, que estava sem tinta (estou com azar)... Arranquei, e regressei ao trilhos, intercalando o percurso por estes e por uma nacional, deserta aquela hora.

O calor apertava, e a meio de uma subida paro numa sombra para arrefecer a temperatura. Reparo nesta inscrição no muro que ladeia a estrada:



"Muito pode quem quer", verdade. Estas situações servem como um momento de auto-análise. Porque que estou aqui, e o que quero eu? Se um homem com aquela idade fez este muro, com as suas capacidades físicas reduzidas, o que poderei eu querer e conseguir? De momento, apenas chegar a Alvaiázere. Além disso? Bem, bastantes coisas. E se realmente quero, posso, decerto... O mote fica para pensar nos quilómetros e tempos futuros...
 
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#12
Por distração saí do restaurante sem abastecer a água da bike, e a mesma com o calor já sabia a chá. Com o efeito acumulado do calor, do tempero salgado da comida e do esforço, começo a sentir uma falta de água tremenda. Sei que irão dizer, parece má preparação da minha parte, mas não é. Além dos 500 ml do bidão da bike, levava uma bolsa nas costas com capacidade para 1000 ml. A questão é, que por teimosia, confiança e comodidade (para não ter de tirar a mochila e encher a bolsa). A teimosia tem disto. Como diz o variações, "quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga"

Já se vê Alvorge!



Chegado a Alvorge, vi que havia um café, e sentindo-me sair do deserto, atravesso rapidamente a localidade. Antes ainda tirei umas fotos do centro, deserto.






Mal vejo o café, paro e arrefeço a máquina com uma bela água das pedras. Serviu para descer a temperatura uns bons graus, e atestar o bidon. Vi que até Ansião era uma distância pequena e tendencialmente plano, pelo que decidi continuar apenas com este bidon e não inaugurar a bolsa da mochila. Sou teimoso, eu sei...

Venha daí uma pequena pausa!


Preparo-me para pagar, e por descargo de consciência peço o carimbo.. E na verdade até tem!
Uns quilómetros mais a frente, ainda antes de Ansião, dei com uma indicação de água potável na berma da estrada. Mais a frente, vi esta relíquia, ao lado da seta a indicar o caminho:



Por curiosidade, e não necessitando de água, começo a rodar, no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Nada acontece. "Era bom demais, com este calor abrasador e tantos anos depois disto ser posto a uso, deve ser um monumento", penso. De repente, ouço um "Hey!" ao longe. Viro-me, e vejo uma senhora a rodar o braço no sentido dos ponteiros do relógio. Experimentei, insisti, e de repente.. A água canta e sai, fresca! Não estava a precisar, mas já que era do poço e fresca, aproveitei.

Os caminhos eram agradáveis e convidavam ao passeio, sendo por vezes ladeados por árvores que projectavam uma agradável sombra.



Mais a frente, após trilhos intercalados com um pouco de alcatrão e sem grandes desníveis a assinalar, cheguei a Ansião. Esta aldeia era o ponto decisivo, a partir daqui faltavam 15 km e 250 m de desnível até ao ponto mais alto do dia, e de todas as etapas. Era também o ponto onde teria de seguir pelo desvio alternativo da rota das Carmelitas que levava até Alvorge (o caminho de Fátima tradicional evita esta rota de montanha, como os locais dizem).



Paro por isso numa pastelaria. Pastelaria "O Ancião", em Ansião. Belo jogo de palavras, e bela memória que eu tenho! Não tenho nada, lembro-me porque esta pastelaria, pertencendo a uma minoria, tinha o carimbo e é extremamente útil para recordar os locais por onde passei.

Outra água das pedras fresca, um café e um bolo de arroz, estou preparado para a subida. Que os santos nos ajudem!



Neste momento, 82 km feitos, eram 16h da tarde. No pior dos casos, deveria chegar às 18h, novamente à hora do dia anterior. Paciencia, gostaria de chegar mais cedo, previa até chegar mais cedo, dado que comecei a pedalar mais cedo que na véspera, eram menos quilómetros (por comparação, à mesma hora do dia anterior tinha os mesmos km, mas as subidas já estavam para trás).

A verdade, e que a velocidade média do primeiro dia não viria a ser igual à velocidade média do segundo dia. A estrada dominante do primeiro dia, e a frescura, fizeram com que as médias descessem dos 17,0 km/h para 14,5 km/h.
 
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#13
As subidas iam-se sucedendo, intercaladas por pequenas descidas. A altitude oscilava entre os 200, 250, novamente 200, outra vez 250, 300 metros. O GPS ia mostrando o declive atual, e o declive acumulado crescia cada vez mais. A certa altura, avisto uma pequena igreja, datada de 1747, e uma sombra, desculpa suficiente para resolver parar. Estava em Chão de Couce, a meio da subida, e faltavam menos de 10 km para o destino.



Esta era a vista da pequena igreja em Chão de Couce:



Logo a frente, o caminho volta a transformar-se, e dou por mim num troço técnico e exigente. Dava impressão que pouco percorrido. Acredito que a maioria das pessoas opte pela estrada, cujo percurso me pareceu ser mais a direito que este caminho. Mas menos belo, de certeza.





Este troço foi dos mais bonitos do dia, e também dos mais exigentes e custosos, mas a sombra ajudou a manter a temperatura em níveis aceitáveis. Mais a frente, nova pausa para descansar as costas que com a tensão acumulada estavam a doer. Já estava quase no topo



Eu sei que tiro muitas fotos à bike, mas sou um dono orgulhoso. O conforto, a facilidade de condução.. E quem é o ciclista que não tem orgulho na sua montada? Por vezes, sobretudo no alcatrão, pensei no quão mais bem servido estaria com uma bike HT, mais leve, ou então com uns pneus mais finos e menos resistentes ao rolamento.. Mas enquanto nos pneus posso (e devo vir a) mexer, na primeira parte não quero abdicar do conforto dos 130mm traseiros. Sobretudo pedalando com mochila as costas, a diferença faz-se sentir ao fim de um dia nos trilhos nos mais pequenos buracos.



Quase a chegar ao topo, já se veem as eólicas. Estas estão a quase 600m de altitude, eu apenas vou tocar nos 460m...


Já cheira ao destino. E sim, o caminho é mesmo por aqui!

 
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#14
Ultrapassando o ponto mais alto (que está rodeado de árvores, segue-se, pois claro, uma descida. É em alcatrão, mas a alegria de aliviar os glúteos e as pernas é grande mesmo assim.

A certa altura parei numa fonte, não por sede, mas porque vi a imagem do S. João:



A seguir a esta fonte, aí sim, a descida começou a ser a sério. Atingi os 60km/h sem pedalar, foi fácil comer os últimos km's e entrar em Alvaiázere sem me aperceber sequer da tabuleta de entrada na vila.

Pouco tempo depois, chego ao centro, e novamente me dirijo logo à pensão onde vou passar a noite. Desta vez nem tenho de sair para jantar, pois a pensão tem um restaurante debaixo. E maravilha, o quarto tem AC, que face ao calor que estava a sentir, foi um doce.



A vista da frente do quarto e da estrada:




Terminei eram 17:55. Consegui chegar 5 minutos antes da hora, uma boa conquista. Hoje, durmo sozinho, a bicicleta fica na garagem da foto acima. Paciencia, já é crescida para dormir sozinha.


Para o dia de hoje, a ementa foram 95,40 km percorridos, 1590 m de desnível positivo, feitos em 6h35min de pedal. Para o jantar, a ementa foram uns secretos de porco preto de fazer crescer água na boca.

No entanto, o dia ainda não terminou, pelo menos não de peripécias. Estava eu a jantar, de calções, camisola e chinelos, quando de repente entra outro rapaz no restaurante, igualmente vestido da mesma forma. Não sabia falar português, apenas francês e inglês. E por azar, o empregado pouca coisa pescava das duas línguas.. Então ajudei a traduzir a ementa e as escolhas do Mederic, vim a saber depois como se chamava. Era um Francês, de 29 anos, que trabalhava em Lisboa e decidiu fazer o caminho de Santiago a pé desde Lisboa, nas suas férias. Conversa puxa conversa, acabou por partilhar a sua história de vida e os dilemas que enfrentava, e eu fiz o mesmo. Os caminhos de peregrinação são ricos nestas pequenas grandes coisas, que tanto nos podem dar sem nós contarmos...
 
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#17
Dia 8 de agosto, quinta feira, Dia da chegada.

Alvorada! O toque soou, apesar de ter dormido mais do que em todos os restantes dias, custou a acordar. 6:30 Com perto de 2 centenas de quilómetros no lombo, era o expectável. Dessa forma, a decisão tomada no dia anterior de encurtar este dia era bem vinda, assim o "massacre" ia ser mais reduzido. A conversa com o Mederic também se extendeu um pouco pelas horas fora. É incrível o que estas experiências permitem, transformam uma pessoa, mesmo que momentaneamente, na nossa versão mais sem filtros e acessível. Reconhecemos facilmente as características chave e expomo-nos facilmente, é uma boa terapia.

Após preparar tudo (neste dia fui um irresponsável e deixei tudo por arrumar para o próprio dia), desci até à porta da garagem, fechada por dentro, para esperar pelo pai do dono da estalagem, que viria abrir a porta pelas 7:00h.

Dois minutos depois da hora, em que já estava a prever uma longa espera ao frio (até porque já tinha fechado a porta e deixado a chave no balcão ao sair), apareceu ele, e ainda meio a dormir desejou-me bom dia e boa viagem. Agradeci o favor, e pus-me a caminho, e acabei por parar 100 m a frente e tirar esta recordação.



Neste momento, o caminho começava a subir e o esforço fez-me sentir alguma indecisão, e perdi algum tempo até decidir o que fazer: Estava com pouca comida, tinha 2 geis energéticos e 4 barras proteicas. Estava de estômago vazio, e queria algo quente para confortar o estomago e ligar o motor a sério. E em boa verdade, o dia amanheceu com um misto de nevoeiro e nublado, e estava uma temperatura a roçar o frio. Ao mesmo tempo, queria comprar mantimentos para o dia, pois o que tinha era pouco.

Acabei por correr as ruas de Alvaiázere de café em café até encontrar um que abria às 7:30. Tomei o pequeno almoço, e retomei caminho, pois ja estava a perder tempo. Comprei um bolo para comer mais tarde, e iria ter de me desenrascar com isso.

Quase que me perdia.. O caminho é por ali e como vinha debaixo não vi o meco. É mesmo por aquele trilho de terra (a seta amarela está algo confusa, pois o caminho é no sentido oposto).



Sou bem educado, digo "bom dia" aos seres com quem me cruzo :)



Cada vez mais próximo do meu destino, as representações litúrgicas a Fátima são cada vez mais frequentes.



Após uns trilhos, o caminho passa por uma estrada, e aqui devoram-se alguns km's.

 
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#18
O caminho ia-se fazendo rápido, os primeiros 10 km apresentavam um declive suave, e a velocidade média era superior a 20 km/h sem esforço.

A certa altura, encontrei o esperado desvio entre o caminho de Santiago, que seguia para Tomar, e o caminho das Carmelitas, que seguia em direção a Fátima. Era esta a alteração que tinha feito no dia anterior, apanhar este caminho em vez de esperar por chegar a Tomar. E na verdade, era a oportunidade de sair do alcatrão. Escolhas assim acabam por ser fáceis de fazer.



Aqui em mais detalhe o que está no placar:



A certa altura, deu-me vontade de me espreguiçar e dedicar à preguiça, não sei porquê :)



Uns quilómetros adiante, o trilho transformou-se numa estrada asfaltada, e os apenas 44 km em falta encorajavam à pedalada.



Ainda enquanto me encontrava a percorrer o trilho de terra batida (da foto anterior), começou a surgir em mim um momento de epifania e de reflexão. Esta experiência estava quase a terminar, e de repente os pensamentos assolaram-me: lembrei-me do porquê de vir, da sucessão de acontecimentos que se proporcionaram a que viesse. Pensei do que é que quis "fugir" e do que é que vim em busca de, e do que esperava encontrar e do que já tinha conseguido encontrar. Foi, talvez, uma série de momentos que não terá durado muito tempo, mas a percepção temporal foi bastante díspar, pareceu-me a manhã toda. E foi bom, é bom não perder o rumo e termos um entendimento abrangente de tudo o que nos levou até ao momento presente, sobretudo quando envolve decisões tomadas no passado, e que podem influenciar o futuro.

Este momento teria condições para durar mais tempo, não fosse ter de repente chegado ao lugar de Lumiar. Vi a tabuleta de relance, e não pude evitar o trocadilho ("Estou a ser alumiado em Lumiar"), porém o estado de espírito brincalhão rapidamente se transformou em assombro, quando olho para as casas pelas quais vou passando...





E não é só casas, há estruturas nos campos que não sei precisar bem o que eram...



Parecia um cenário apocalíptico. Lembrou-me a Guernica, de Picasso, a imagem real de uma cidade bombardeada. Simultaneamente, uns cães ladraram ao longe e avançaram na minha direcção, ameaçadoramente. Parecia que a morte morava ali. Um sentimento de arrepio invadiu-me, e com ganas, berrei aos cães e assobiei-lhes, para os manter à distância. Resultou, aos latidos foram-se afastando. Pude então parar e apreciar melhor a envolvência. Passou um camião por mim, a única presença viva desde que comecei a percorrer esta estrada, e esse acontecimento serviu para quebrar o transe para regressar definitivamente ao mundo real.

Vendo que algumas casas estavam em boas condições, decidi entrar para ver. É irresistível, tenho um fascínio pelos locais abandonados, e este local captou a minha atenção de uma forma. Escolhi a casa da foto anterior, e este era o seu interior.



 
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#19
Pelo conteúdo, dava para perceber que se tratava de uma casa de estrangeiros que estabeleceram residência cá. Senão, quem mais poderia ter interesse em aprender "portuguese in three months"? Ainda consegui ter um vislumbre de um papel escrito a caneta esferográfica a dizer "Quem mandou tirar o cadeado grande?" no meio de uma pilha de lixo, mas não registei para a foto.

Saí, com algum sentimento de culpa de cada vez que exploro um local habitacional abandonado e um misto de pensamentos relativamente ao conteúdo que vi lá dentro. Decidi dar uma volta pela aldeia, percorrendo os seus caminhos, já que o meu caminho apenas tocava numa das extremidades do local.

As casas estavam completamente abandonadas, portas abertas, janelas abertas.. Os cães tinham ido nesta direcção, pelo que não me apetecia ter mais encontros, deixei esta por explorar.




Casas e mais casas. Contei pelo menos uns 30 fogos em pé. Devem ter chegado a morar mais de uma centena de pessoas neste local, e não terá sido assim há tanto tempo quanto isso.



A sua maioria estava numa ruína total...



Mais a frente, encontrei um cruzeiro e uma tabuleta toponímica bastante cuidada, e a minha curiosidade voltou a aumentar: "que tipo de local, com um cruzeiro ainda intacto e tabuletas tão bem cuidadas, servido por bons acessos, é deixado assim ao abandono?"







Mais à frente, e já no retorno ao meu caminho, passo pelo único sinal de vida presente nesta aldeia: uma casa recente e cuidada, com dois carros à porta.



"Há vida em Lumiar" - pensei. Rapidamente contive o impulso de escrever um papel e deixar na caixa do correio a questionar a história deste local (se é que ainda é conhecida).

Mais a frente, ainda entrei noutra casa abandonada, mas o seu interior estava em mau estado e apenas registei o seu interior.



Parei para abastecer água neste curioso sítio que parecia um poço com um acesso lateral.



e depois desta experiência toda, regressei ao caminho. Este, parecia ter uma atmosfera ainda mais mística...



Fui pedalando, novamente a descer, e fui dar a Freixianda, onde vi, com bastante alegria, bastante mais vida do que vi anteriormente.



Já estava no concelho de Ourém, já se respira Fátima, como li num dos placares do género do anterior. Vendo que havia um supermercado próximo, decidi fazer umas compras. 2 Donuts, sumo de laranja, um lanche e um iogurte. Rapidamente consumi metade do que comprei, guardei o resto e fiz-me ao caminho, com a paragem em Lumiar eram 9:30, tinha apenas 20 km feitos, sendo que eram maioritariamente a descer.

Com o corpo alimentado, ultrapassei facilmente a subida leve que me separava de Rio de Couros.



Aqui tive um momento de indignação: Vi a indicação de casas de banho, e por descargo de consciência, segui-as. Ao avistar as casas de banho propriamente ditas, vi outra indicação para casas de banho, no sentido oposto às mesmas, com a indicação "WC - 24h". Estando já perto das primeiras, fui ver e... fechadas...
Resolvi então ver se a última indicação era correta, e 50 m ao lado das primeiras casas de banho, vejo noutro edifício 2 portas para casas de banho... fechadas!

Pensei na utilidade de existirem casas de banho públicas, fechadas. Pior, na existência em duplicado deste recurso, existindo ainda a menção à disponibilidade total (24h), quando nem um nem outro funcionam.. Realmente, há pessoas que não querem ter trabalho, e com atitudes destas ainda deixam de ter trabalho...

Enfim, a maior casa de banho do mundo está sempre aberta...

Prossegui caminho, e eram cerca de 11h quando o sol resolve sair detrás das nuvens e dar os bons dias.



Este senhor tinha algumas latas à frente de casa...
 
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#20
As localidades iam ficando para trás com rapidez. Estava a correr tudo lindamente! Tacoaria nem a vi, e em Seiça apenas parei para um café rápido. Perguntei novamente pelo carimbo, mas.. Nada. Contudo, e inesperadamente a senhora prontificou-se a assinar como que a provar que estive ali (provavelmente já lhe terão pedido o mesmo, será um costume nas peregrinações a Fátima?), e como foi simpática, acedi e agradeci. Pronto, tenho um autógrafo na credencial!






Mais a frente deu-me a fome, calor e sede. Eram 11:30 e o calor subia rapidamente. Resolvi aproveitar o que o caminho nos dá e parei novamente para me esticar.



Após esta paragem, tive uma descida vertiginosa, claro está de uma subida generosa, que no topo me permitiu ver Ourém.



Está quase! E para melhorar, quando ia dizer que estava a encontrar alcatrão demais, o piso muda para um suave estradão.



Ao longe, avisto o castelo, e uma ideia começa a formar-se.. Qual será?



Faço uma paragem técnica, e confirmo: o caminho das carmelitas tem uma variante que passa por lá. Entusiasmado, pois faltava pouco e ainda era de manhã e estava com bastantes pernas de sobra para a aventura, decidi trepar até ao castelo. Apenas um desnível de 150 metros, e já que não fui a Tomar, tenho de ter um castelo na lista!

Passo como um raio pelo centro da cidade. O posto de turismo estava fechado, portanto nada para ver aqui. Começa a subida. Belas rampas! Apenas fui vencido pelo calor, começava a ficar insuportável. Fiz uma série de paragens para que a temperatura baixasse um pouco, sempre com a sensação que se não fosse este factor, não teria de parar nenhuma vez. Mas, a certa altura, eis o castelo. Entro, montado no meu cavalo de fibra...



É por aqui o caminho!


Mais à frente, encontro uma fonte a debitar um néctar delicioso. Estava sedento, e nem a tabuleta me demoveu a não bebericar avidamente as águas que da fonte brotavam, sem receio de eventuais maleitas que desse gesto pudessem advir.




Estava radiante! Propus-me ao desafio e consegui! Só faltava um carimbo, pelo que vou em busca de um café. Todos tem um ar um pouco "de elite" pelo que ponho a ideia de entrar la dentro. Subitamente, vejo a indicação de um posto de turismo e corro rapidamente para lá! Entro e... Desilusão, não tem carimbo... O investimento que houve nestes caminhos é bom, mas é desperdiçado na falta destas pequenas coisas, como um carimbo.. Não há uma visão maior que inste a seguirem o exemplo do que se faz aqui ao lado? É que é literalmente aqui ao lado...

Tiro umas fotografias à paisagem para acalmar e fazerem o mesmo efeito do carimbo (ou ainda melhor!):



Do outro lado do castelo:


Decido prosseguir viagem, e ao descer apanho um caminho da 2ª grande guerra. Literalmente, um rock garden, repleto de crateras. "É por isto que vim de BTT", penso...



Na foto não dá para ter a perceção, mas o caminho estava realmente em muito mau estado, foi uma moedeira valente!

Mais a frente, 12,6 km para o destino. Está quase!



Era uma da tarde, e tinha decidido comer só quando chegasse a Fátima. Neste ponto decido acabar com o stock de comida, e agora é só parar quando chegar. Não, não foram os caracóis que me deram apetite, não sou apreciador...
 
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