Pedal Nacional nos Caminhos de Santiago (29 Out- 1 Nov 2011)

#42
Estou a gostar muito dos vossos fantásticos relatos. Por momento senti que estava lá convosco , pelo que fico à espera de continuidade nesses relatos .
Obrigado pelas palavras nfh. Quem já fez o caminho, sabe o que o mesmo significa.
Não há um dia que passe que não me venha à memoria qualquer acontecimento desta fabulosa viagem.
 
#44
Para a 3ª etapa, tínhamos planeado ir desde Porriño até Caldas de Reis.


3º Dia - Tui-Pontevedra (49 kms)


Nesta etapa teríamos que recuperar o atraso do dia anterior (16 kms) e chegar a Caldas, mas como se vê pelo titulo, os objectivos voltaram a falhar.

Segue o relato deste dia:

Às 6 horas da manha estávamos prontos para sair (quer dizer, o roda 28, como sempre estava atrasado). Sendo assim saímos do albergue às 6:30 e dirigimo-nos ao local que nos tinham indicado para o 'desayuno'. O café chamava-se Boby bar, e surpresa, quando lá chegamos estava fechado! Uma espreitadela para o interior, deu para ver que estava lá gente. Batemos à porta e um senhor veio abrir, olhou para nós, mandou-nos entrar e fechou a porta de imediato. Disse-nos que não gostava da "movida" e que só lhe davam problemas.
Questionámo-lo se este movimento era habitual de Domingo para Segunda (será que o pessoal não trabalha?), ou se teria a ver com o Halloween. Diz-nos ele, que é sempre assim, "...não é por acaso que a taxa de desemprego neste pais está tão alta, e os pais trabalham para os filhos gastarem" (iríamos entender muito bem estas palavras alguns quilómetros à frente).
Comemos uns 'bocadillos' de queijo e fiambre (o pão era fresquíssimo) e meias de leite com direito a reforço. Recomendamos vivamente o local, pena foi, não termos pedido o carimbo na credencial (a fome e a pressa era tanta!!).



Depois de sairmos do Boby, foi hora de ligar os sistemas de iluminação e sair de Tui.
De inicio apanhamos algum alcatrão, mas rapidamente o caminho passou para trilhos com alguma lama.
Sempre que a visibilidade do caminho se resumia às nossas lanternas adoptávamos sempre a mesma formação; um Dakota 20 (GPS) à frente, a bike com a Cateye em 2º (lanterna mais potente), o roda 28 (que não tinha lanterna à frente) em 3º, e o outro Dakota 20 a fechar. Esta formação permitia-nos corrigir eventuais erros de percurso e evitar obstáculos.
Não sabemos se esta árvore sempre esteve assim (partida no meio do caminho) ou foi derivado ao mau tempo.



Chegamos à zona industrial de Porrinho, por volta das 8:30.



Cruzamos a Autovia do Atlântico.



Quando chegamos ao centro de Porrinho, encontramos um peregrino a pé português, que estava com dificuldades físicas. Já procurava boleia ou para Santiago ou até de volta para Portugal.



Como precisávamos de abastecimento ligeiro, paramos à porta do Lidl. Mas como ainda faltavam 15 minutos para abertura, e não queríamos estar parados a apanhar frio, decidimos continuar.



E um pouco mais adiante, deu-se um dos acontecimentos mais marcantes para todos nós, nesta viagem. Em que sentimos mesmo estar sob protecção divina!

O caminho a partir de Tui, coincide muitas vezes com a N-550, uma estrada muito movimentada. Tanto assim é, que em todas as entradas do caminho para esta estrada, existe uma aviso "cuidado, tramo comum com N-550".

Num destes "tramos comuns", estávamos a circular no sentido do transito, mas fora da faixa de rodagem, quando decidimos mudar para a berma contrária (circular contra o transito). Poucos segundo após termos mudado, um Audi branco (com 4 jovens masculinos) que seguia no mesmo sentido que nós, descontrolado, sai fora da estrada e "varre" a berma e o talude durante uns bons metros, ficando no estado que as fotos demonstram.



O rapaz que se vê em cima do carro era o condutor, e pelo pulos que dava devia ser o dono do carro.



A alteração dele era tanta que o vidro traseiro da viatura , que não partiu no acidente, ele partiu-o com um murro!
Um dos ocupantes, pegou no telemóvel, e desatou a correr pela estrada adiante, o mais atingido, tinha qualquer objecto espetado na barriga.
Tudo isto perante o nosso olhar incrédulo. Quer dizer...um fez de conta que não se passou nada! - "Acidente? Onde?"



Se não tivéssemos mudado para o lado contrario, quase de certeza que teríamos "levado" com o carro (reparem na terra que ele arrastou para a estrada). Isto deu-se numa recta, numa estrada com boa visibilidade. Adormecimento, distracção, ou reflexos da "movida"? Não sabemos nem ficamos para saber, seguimos viagem, e só um pouco mais à frente nos "apercebemos" da sorte com que fomos abençoados.



Continuando o nosso caminho, paramos em Mós para o pequeno abastecimento que não tínhamos efectuado em Porrinho.



A senhora do café que nos atendeu, era também responsável pelo albergue (que fica em frente) de Mós. Lamentava-se ela que nessa noite, nem um único peregrino tinha dormido no albergue.



Abastecimento efectuado, seguimos em direcção a Redondela.



Passamos em frente ao albergue e fomos colocar mais um carimbo num café em frente (uma vez que o albergue estava fechado).




Verificação de equipamento e bikes.



O céu começava a ficar muito pouco do nosso agrado(e não era por causa dos aviões)!



Descemos depois (de a subir também) a Lomba em direcção a Arcade.



Paramos num dos sítios obrigatórios do caminho, com vista para a enseada de San Simón.



Depois passamos por um casal de peregrinos da Venezuela, na descida em socalco para Arcade.



Paramos na Guarda Civil para obter um carimbo militar.



Subindo as estreitas ruas de Pontesampaio



A seguir deparamo-nos com aquilo a que chamamos "Labrujinha", mas que na realidade de chama Alto da Canicouva.



Não tinha tanta inclinação como a Labruja, mas custou, e o piso em calçada romana também não ajudou.



Quando a subida em calçada acabou, ainda sobrou alcatrão, e como já estávamos na reserva (já passava da hora do almoço), poupamos as energias sem forçar os motores!



Estávamos cada vez mais perto do destino tão desejado.



Um pouco mais à frente, a capela da Santa Marta.



Esta capela tem o famoso carimbo self-service (está pousado num banco), em que são os peregrinos que carimbam as credenciais .




Ao sairmos da capela, sentimos os primeiros pingos de chuva.



Pingos que rapidamente engrossaram, mas o caminho chamava-nos.



Ainda paramos numa pequena paragem de autocarro, para acertar agulhas sobre onde almoçar. Ficou decidido que quem fosse à frente, mal visse um restaurante ou algo similar (que tivesse sitio abrigado para colocar as bikes) , ficaríamos ai mesmo.



Mal entramos em Pontevedra e passamos debaixo da linha do comboio, vimos ao lado esquerdo o restaurante bar El peregrino. Paramos ai mesmo. Estávamos esfomeados (eu também estava enregelado).



O restaurante estava vazio, pensamos que seria devido ao adiantado da hora (15:00), o empregado mal viu as bikes, torceu logo o nariz. Perguntamos onde as poderíamos colocar, e "lá dentro estava fora de questão" . Ficaram por isso encostadas à janela, do lado de fora é claro, numa pequena faixa onde pouca chuva caia.

Ficamos a saber que o empregado era 'tuga' (desdentado) de Lisboa, ex-picheleiro, que à falta de trabalho na capital, tinha vindo à procura de trabalho para a Galiza. O dono era um velhote que foi para a cozinha.
Também tinham menu peregrino, mas a única coisa que havia para comer era um bocado de agua com massa (a que chamaram sopa), e uns bifinhos de frango com batata frita. Pedimos vinho maduro tinto, que "está fora do menu peregrino", e o empregado traz-nos uma garrafa gelada (serve para disfarçar o sabor) de um maduro martelado. Na garrafa seguinte, pedimos explicitamente vinho natural, e o homem teve que descer a um qualquer anexo para trazer a garrafa, que ao natural ainda sabia pior!
No único sitio em Espanha que fomos mal atendidos, tinha que ser por um empregado tuga!
Deixo aqui uma foto do restaurante, tirada do google, para que ninguém volte a ser enganado por este estabelecimento.



Conferenciamos sobre as opções para o caminho (lá fora continuava a chover bastante) e depois de uma consulta às previsões meteorológicas, ficamos a saber que a chuva só pararia por volta das 22 horas, e no dia seguinte não se previa chuva. Ficou decidido entrarmos no albergue (que ficava mesmo em frente) de imediato, tomarmos um banho quente para aquecer, e depois descansar o máximo possível, para sairmos às 2/3 da manha para fazer os 66 kms que faltavam até Santiago.



O albergue de Pontevedra foi o melhor que encontramos, chão radiante (quentinho) na área social e nas camaratas, que para os nossos pés molhados foi um conforto. Desde maquina de lavar e secar roupa até maquina bebidas, micro-ondas, etc.



Depois de fazer o check-in, fomos rapidamente para um duche quentinho (que eu pessoalmente necessitava urgentemente, porque estava a morrer de frio), e tratamos de nos acomodar e descansar. Todos excepto o roda 28, que como o mais bem preparado para a chuva (e beneficiando do facto de a bike ter guarda lamas) se prontificou a ir buscar mantimentos para o jantar e pequeno almoço.



Enquanto o roda 28 foi às compras, os que ficaram trataram de secar a roupa e calçado dentro do possível (não se pode colocar o calçado dentro da maquina de secar!!).
Aproveitamos também o próprio aquecimento do chão para dar uma ajuda.



O problema foi que, com a lotação esgotada da camarata onde estávamos, esta começou a ficar tão quente, que por volta das 18:00 desligaram o aquecimento da camarata. Já não conseguiríamos secar mais o calçado.
Entretanto o roda 28 chegou, tinha ido ao Froiz. Começamos a lanchar-jantar, e depressa percebemos que o pão que tínhamos não daria para fazer as sandes do pequeno almoço.
Também nenhum de nós tinha pilhas AAA, que gastava a minha lanterna (não sabíamos se as que estavam aguentariam as 6 horas que íamos fazer de madrugada), e precisávamos de sacos plásticos (fruta) para colocar nos pés, devido aos sapatos não terem secado. Então o roda 28 voltou ao froiz . Quando lá chegou lembrou-se de perguntar se carimbavam as credenciais, como lhe disseram que sim, voltou ao albergue para as levar. Com esta "brincadeira" foi 3 vezes ao Froiz.



Na 1ª vez que foi às compras, um dos pedidos tinha sido tampões para os ouvidos (Farmácia), uma brilhante ideia para combater os "motores" da camarata. Como vieram dois pares, embora eu não tivesse pedido, aproveitei a "sobra", e foi assim que consegui dormir mais ou menos em condições.

Quando a camarata ficou cheia (tínhamos: 1 Norueguês; 1 Americana, Espanhóis, e um grupo de portugueses de Famalicão), devido se calhar ao pessoal vir todo encharcado e com pressa de tomar banho (roupas espalhadas pelo chão), ou segundo outra teoria nossa, pessoal que nunca fez tropa, o certo é que a camarata ficou com este aspecto.



Uma vez que dois de nós estávamos de tampões nos ouvidos, o "engenheiro" ficou incumbido de fazer o "despertar" às 2:30, para sairmos às 3:00.


Uma longa madrugada nos esperava.




P.S. - Permitam-me só uma pequena explicação em relação ao termos hesitado perante a chuva, até como alerta para quem tiver que passar pelo mesmo.

Já contávamos apanhar chuva no caminho (as previsões apontavam para isso), preparamos bem os equipamentos (mochilas, alforges e sacos-cama) para que tudo o que levávamos lá dentro não fosse afectado. E tudo chegou seco, ao contrario de muitos que vimos chegar ao albergue com tudo o que traziam dentro dos sacos encharcado!

Também temos alguma experiência de rolar com chuva, quer seja em maratonas de BTT, como em provas de estrada. Mas uma coisa são estes eventos em que nos molhamos e a seguir se toma banho e muda de roupa (sem grandes paragens), e outra estarmos molhados com esta temperatura e pararmos para uma refeição e depois querer continuar.

Além de que as bicicletas, tirando o roda 28, não tinham qualquer protecção nas rodas, o que quer dizer que o andamento em estrada (quanto mais depressa se pedalava mais agua levávamos!) que fizemos ao chegar a Pontevedra projectou uma quantidade considerável de agua para a parte inferior do condutor.
Tudo isto, com a temperatura que estava, tornou as coisas bem mais difíceis.
 
#45
Mas qual guarda-lamas qual quê? O segredo esteve na adaptação do "poncho decathlon (sem mangas, pormenor importante) para as caminhadas" a funcionar como cobertura total de bicicleta, conforme se vê na foto (que tive que pedir por favor + implorar para que fosse tirada por um gajo de iphone contrariado, vá lá que só ficou ligeiramente desfocado, numa outra foto em que eu ia a fazer uma acrobacia ficou completamente "off", infelizmente). Aqui o Roda 28 já tinha dado a receita "anti-chuva" a esse nosso companheiro (que se lhe podia chamar Roda 29 porque comprou uma, entretanto) e a ver se ele não chegou também bem enxuto... o "chuveirinho" do pneu da frente é mínimo. ;-)
Os mais atentos que reparem na data (inflacionada de 1 dia) do carimbo do Froiz, foi "estratégico" (pedi isso ao rapaz do talho - estranhou mas foi impecável, deve ter ajudado já ter estado na conversa comigo quando lá tinha ido buscar meia perna de fiambre) porque não sabíamos como ia ser o dia seguinte nesse capítulo e convinha "angariar" o quórum diário necessário. Quem achar que é batota, pois é só pensar que efectivamente a dia 1 estávamos mesmo a passar no Froiz só que numa hora (ou dia, será que também fazem feriado?) em que não estava aberto... pormenores. ;-)
Não confundir com as fotos com a data carimbada automaticamente a vermelho, também inflacionada de 1 dia, mas isso é porque um dos companheiros nem reparou nisso (ou sabe configurar essas coisas), ehehe, enfarda cardoso!
 
#46
Nota 1: Este fórum ainda está na hora antiga, é tarde mas são 2, não 3 da manhã.
Nota 2: Convém referir melhor a história dos tampões, como no froiz não havia nada disso, eu seria suposto vir de mãos a abanar, prova não superada, mas como sou um tipo muito generoso ainda fui procurar uma farmácia; mais, ninguém pensou no seguinte, como é que eu com uma bicicleta cheia de compras ia conseguir? (tinha que estar a prender, levar os sacos, etc) Pois, continuei a desfrutar da simpatia de toda a gente que me rodeou naquela viagem (desde o froiz, a senhora da fruta a quem surripiei uns sacos extra, até ao rapaz do talho, impecável) e tive a lata (ou "ideia peregrina" :) de pedir a uma senhora que estava a sair da farmácia que me fizesse o favor de ir perguntar "lá dentro" se havia o que eu queria e depois dei-lhe o dinheiro, fiquei mesmo muito bem impressionado com as gentes de Pontevedra.
Então e qual a importância dos tampões afinal? Ah, o importante é que passo a recomendar tampões a toda a gente que vá dormir em camaratas, eu fui dos que voltou a não dormir o sono retemperador - mesmo no beliche ao meu lado estava o ressonador-mor; o "Roda 29" não me quis ajudar a tirar-lhe uma foto - precisava de uma ligeira luz que o ecrã do seu telemóvel podia providenciar, sem ser flash para não correr o risco de acordar o desgraçado -, ele devia saber do seu ronco-problema porque dormiu a ferrar uma coisa, penso que era de pano (tinha piada se fosse um galho, para dar novo alento à expressão "ferrar o galho" que significa dormir). Chegaram a ser 4 ressonadores ao mesmo tempo!, gravei em audio e tudo, a sinfonia (ou cacofonia, ou ressonofonia). Tal como gravei o "basqueiral" de Tui que também não me deixou pregar olho.
 
Last edited:
#47
Adorei ler o post , tenho aqui a minha baixinha a olhar pra mim e perguntar " porque tas a rir pai ? " a cena do TUGA ta demais o cabr** depois de nos mal servir queria convencer que no albergue nos levariam 10€ pelo estacionamento da bicla , quando na realidade o unico custo que tivemos foi 5 euros pela estadia do peregrino com respectiva maquina.

Um pequeno detalhe que escapou aos proprietarios do albergue foi o de colocar um letreiro com o aviso " P.F. Nao secar sapatos no secador das maos " ou outro do genero " P.F. Nao colocar luvas no micro ondas " adivinhe-se la porquê....

Por falar em proprietario de albergue , nao me sai da ideia a cota do albergue de Mós , repararam como ela tava a querer engatar-me ? " Es muy guapo !! " com esta e com outras lixou o roda 28 " és lo mais nuevo " com 1€ por uma banana no fim era ve-lo a dar beijinhos na mao da rica senhora ; )
 
#48
Fogo a tua sorte é eu gostar de ti PÁ !! e amanha seres aniversariante!!!! dia 14 !!!!!

Tambem me saiste um bom cromo , á tua conta ia malhando de tanto rir quando o Ricardo me disse olha pra tras e vê o BATMAN a pedalar , e não é que la vinha o Dan. em estilo BATMAN com a sua capa esvoaçante no meio da chuva como se nada fosse!

É bom recordar tudo e todos os momentos , ate os maus foram bons.

abraço
 
#50
Excelente crónica :D, de repente comecei a reviver o caminho que fiz em agosto!!! o café em Redondela, a "labrujinha", a capela de santa marta e esse restaurante em Pontevedra... foi muito bom recordar :D

também tive uma situação curiosa, enquanto esperava que o albergue abrisse (e antes de almoçar) fui lá buscar umas colas e o mesmo empregado percebeu que eu era português e veio falar comigo... não gostei nada da conversa dele, alguém que se mostrava "lixado" porque no albergue tinha máquinas de bebida que fazia com que eles tivessem de baixar o preço... enfim, pensei com os meus botões que se não fosse o albergue provavelmente eles não serviriam tantas refeições... de tal forma que quando foi para almoçar fomos logo ao restaurante ao lado... mas infelizmente a comida também deixou muito a desejar...

de resto só posso dizer... venha lá o resto da crónica :D
 
#51
Olá pessoal

Ler este relato, depois fechar os olhos e relembrar tudo o que passei em Setembro ao fazer o Caminho Português, lindo

Abraços e venha de lá o resto
 
#52
Atao o ultimo dia? la por ter havido contratempos com um "FUGITIVO" nao quer dizer que nao tenha sido um bom dia!

Va la Obelix amanda o ultimo dia!

Dan manda ai as tuas cenas!


abraço
 
#53
4º Dia - Pontevedra-Santiago (66 kms)


O dia começou cedo, o "engenheiro" acordou o pessoal às 2:30 conforme combinado. Quando saí da camarata vi gente a dormir nos sofás (o roncar incomoda muita gente) e a rapariga americana, enquanto eu preparava as coisas para sair pegou no saco-cama e veio deitar-se no chão do corredor de acesso aos balneários (o chão é radiante, e estava quentinho).

Constatei o trabalho magnifico efectuado pelo roda28 que se deu ao cuidado de escrever inclusive o nome da equipa nas sandes.



Um dos rapazes do grupo de Famalicão, que também estava acordado veio ter connosco e perguntou-nos se queríamos deixar algum material nosso com eles, porque teriam um transporte para trazer as coisas deles de volta (eles iriam para Santiago sem lastro), agradecemos mas não seria necessário.

Enquanto aguardávamos (como sempre) pelo roda28, tratamos de lubrificar as bikes (devido à carga de água do dia anterior).
Saímos do albergue eram 3:30 em direcção ao centro de Pontevedra. Quando chegamos à zona histórica, tivemos a sorte de ver o que se calhar a maioria dos peregrinos (por fazerem o caminho de dia) não tem oportunidade: todo o caminho nesta zona está marcado com umas luzinhas azuis implantadas na pedra (que também tem um padrão diferente das restantes) do próprio chão. Lindo!





Outra coisa que nos chamou à atenção, é que, embora fosse noite de Halloween, e muitas das pessoas com quem nos cruzamos nesta ruas (zona dos bares) estivessem com grandes cargas etílicas (a maior parte ainda com copos na mão), não deixavam de nos saudar e de nos desejar "bon camiño".

Saindo de Pontevedra, começamos a percorrer os primeiros trilhos completamente fora de estrada. Alem da penumbra, tínhamos que lidar com o frio e a forte humidade que se fazia sentir. O Ricky ainda tentou heroicamente aguentar-se de manga curta, mas a certa altura já estava com os braços cobertos de geada.


Quando encontrávamos alguma iluminação, aproveitávamos para mordiscar qualquer coisa.



No lugar de Barro registamos marcos do caminho, como este (reparem na luz da bike a "iluminar" a Vieira):



Conseguimos convencer o Ricky a vestir o poncho!
Quase a chegar a Caldas de Reis, deparámo-nos com esta indicação para um local com um nome "um pouco estranho".



Quando preparávamos esta aventura no caminho português, sempre ouvimos e lemos , que o lema era: "não passes pelo caminho...deixa antes que o caminho passe por ti".
Pois nesta ultima etapa, nas condições em que a iniciamos, quando estávamos no meio da escuridão e nevoeiro cerrado, sentimo-nos parte do caminho. Quando na esquerda tínhamos um aviso para ravinas, ouve até quem jurasse ter visto um sinal (não confirmado) com aviso de lobos. Tudo isto, tornou esta passagem por aqueles trilhos ainda mais mística.
Nestas condições, as fotos não saíram com grande qualidade.



Foi assim que vimos o nascer do Sol (sempre com as vieiras a indicar o caminho).



Quando avistamos o primeiro sitio aberto para comer e beber algo quente, nem hesitamos!



Sem esquecer o carimbo na credencial.



Depois de um excelente pequeno almoço, muito bem servido, em que fomos brindados até com a oferta duns belos churros (contrastando com o "tuga" de Pontevedra), seguimos viagem.
Com o roda 28 sempre a "bombar" nas subidas...



...e o Ricky a dar um pouco de desgaste às sapatilhas!



Os trilhos são excelentes, com estas cores Outonais.



O Ricky já se tinha descartado do poncho.



Em Pontecesures, já se podia sentir um cheirinho aos famosos pimentos.



Padron estava logo a seguir a esta ponte.



Chegados a Padron, fomos ao bar Don Pepe 2, onde o "Pepe" insistiu (nem nos carimbava as credenciais) para que deixássemos umas palavras no livro de visitas. Depois, tiramos uma foto no exterior com ele.



E o respectivo carimbo.



Atravessamos para a margem direita do Rio Sar, porque estão ai: o Convento, a carroça, e o albergue de peregrinos.



Nesta foto podemos ver o "Engenheiro" a posar, junto da carroça, que segundo reza a história levou os restos mortais do Santo até Compostela.
Lá atrás, na ponte, podemos ver o roda28 e o Ricky.



Depois pousamos as montadas e fomos ver o albergue (fechado) e o convento del Carmen (fechado). A curiosidade com o albergue, tinha a ver com o facto de nos terem mencionado ser um dos melhores do caminho português.



Deixamos Padron, seguindo caminho, sabendo que o destino final estava ali tão perto .
Depois de passarmos por Iria em direcção a Padreda, cruzamos mais uma vez a linha do comboio (neste dia, o caminho cruzou 8 vezes esta linha).



Mais à frente, iriamos ter o único "desentendimento" em toda a viagem. Passo a explicar:
Quando estávamos a chegar a Angueira de Suso, que fica após mais uma travessia da linha do comboio, paramos para despir alguma roupa. O "engenheiro" foi avançando, enquanto eu e o roda28 mordiscávamos qualquer coisa. Como tem uma descida ingreme após a linha, esperávamos alcançar o "engenheiro" um pouco mais à frente. Só que nunca mais o víamos, e começamos a ficar um pouco preocupados. Ele com a proximidade de Santiago, entusiasmou-se, e esqueceu-se que não estava sozinho, depois de lhe ligarmos, ele esperou por nós a 12 kms de Santiago e prosseguimos viagem, todos juntos de novo.


Depois do Poligono Industrial de Ames, e de uma grande zona de distribuição eléctrica do lado direito do caminho...



...só um vale nos separava de Santiago de Compostela.



Como é que deixaram construir esta casa em cima do caminho?



Não estávamos à espera deste "funil" mesmo no final.



Depois, percorremos um ultimo trilho de terra e single track em ascensão, antes do asfalto de Compostela.

Paramos para beber, porque estávamos completamente a seco, e para injectar um pouco de energia no Iphone do Ricky (queria postar no seu blog http://biclanoporto.blogspot.com/ mal chegássemos à Catedral).



Continuamos a subir...



...tanto no asfalto, como no cimento!



Aqui, já na Avenida Xoan Carlos I (a 1 km da Catedral)...



...seguindo o caminho à risca, significa atravessar o parque da Alameda.



E eis as escadas que nos separam do final desta grande jornada .



Entramos na praça do Obradoiro estavam a dar as 13:00 no relógio da Catedral.

A foto obrigatória e tão ansiada.



Acabamos por encontrar na praça o pessoal de Famalicão, nossos companheiros no albergue de Pontevedra, que embora tenham saído só às 5 da manha, chegaram quase ao mesmo tempo que nós (foram sempre por estrada). Foi um deles que nos tirou a foto de grupo, e estão aqui por trás do roda28.



Dirigimo-nos de seguida para a oficina do peregrino, para carimbar-mos as credenciais e levantarmos a Compostelana.





Para podermos levantar a Compostelana temos que preencher um pequeno formulário, com alguns dados pessoais, e com a razão da peregrinação. Só existem 3 possibilidades (religiosa; religiosa e outra; não religiosa). Pelos vistos, quem colocar a opção [não religiosa], não recebe a Compostelana.

O roda28 convenceu o funcionário a deixar fotografar a folha, porque viu que "calhou" no mesmo que o meu (têm cerca de 8-10 balcões a "despachar" o serviço).




Tivemos que nos revezar na guarda das bikes (para levantar a Compostelana), porque só entregam ao próprio. Após todos estarem munidos do valioso documento, fomos tratar da viagem de regresso (comboio), da qual darei mais pormenores num outro post, para não atrasar mais este, que já demorou muito para sair do "forno".
 
#54
Muito bom, eu só tenho a dizer isto depois de ver as últimas fotos: o bicigrino que tira fotografias em movimento (e aposto que até sem mãos no guiador para o "alinhamento" perfeito) é mesmo artista! :p :p
 
#55
Confesso que esta é a secção que mais me agrada no fórum.

Parabéns pela vossa travessia e pela crónica.

Em relação a não receber a compostela se colocar "não religiosa", não é dada a compostela igual à vossa (na imagem em cima) mas sim um papel mais feiinho! :)
 
#56
Como todos os outros 2 post´s desta odisseia , tb este ultimo esta fenomenal muito rigoroso e com detalhes que ja nao me lembrava sequer. Mas deixo um reparo NAO ANDEI 12 KM !!!! foram ai uns 2 ou 3 sozinho.....

Vamos mas é preparar a estapa Eixo - Sé do Porto , tou ansioso por esta jornada!

abraço a todos
 
#57
4º Dia - Viagem de retorno (Comboio)


Despachados da oficina do peregrino, rumamos rapidamente para a estação de caminhos de ferro de Compostela, para comprar os bilhetes do comboio, para a viagem até Vigo.

Já sabíamos que só vão 3 bicicletas por viagem (comboio), dai que já tínhamos acordado os "pares"; o Ricky e o roda28 iam primeiro, e eu e o "engenheiro" uma hora depois. Porque o Ricky tinha mesmo de estar no Porto na manha do dia 2, e não sabíamos o que poderia acontecer em Vigo.

Conseguimos bilhetes para as 15:30 e para as 16:30. O lugar (bilhete) para a bicicleta tem que ser expressamente solicitado na altura da compra do bilhete do passageiro, sendo emitido um bilhete para cada "bike". Por isso é que sabemos logo se existe vaga para a bike na viagem que pretendemos.




Como eles iam primeiro, mal chegassem a Vigo, iriam comprar os bilhetes para o comboio da CP (Vigo-Porto), e inteirar-se das "condições de embarque" para as bikes.

Como ainda não tínhamos almoçado, subimos ao centro de Santiago e fomos fazer uma refeição ligeira a uma cadeia de Hamburgers conhecida.




Para não ter que tirar a "tralhas" das bikes, arranjamos lugar no restaurante mesmo à porta, com "vista" para o poste onde encostamos as bikes (presas com 2 cadeados).




Os dois primeiros a partir, tiveram que se despachar a comer, enquanto nós que íamos mais tarde, ainda voltamos para a Catedral, para uma visita mais religiosa.

Novamente tivemos que amarrar as bikes, desta vez nas grades do Hotel dos reis católicos (lado norte da praça do Obradoiro).
Cumpridas as "formalidades" religiosas, ainda fomos comprar uns "recuerdos" e descemos para a estação

Já dentro da gare, encostamos as bikes...




...e aguardamos que chegasse o nosso transporte.




Quando chegou a nossa composição, tratamos de acondicionar as bikes no local para o efeito (bem definido para 3 bikes)...quer dizer no local ficaram, só não as penduramos nos respectivos suportes (tipo peças de carne no talho)...




...mas sim, na sua posição natural.




Para não as deixarmos soltas, usamos os nossos cadeados (os do comboio são pagos) improvisados com o suporte de cima. Misturando os do comboio só para disfarçar.




Depois de uma óptima viagem num comboio que eles classificam como MD (media distancia) com uma única classe, e que faz corar de vergonha o nosso Alfa Pendular, basta dizer por exemplo que TODOS os lugares têm tomada eléctrica, algo que nem o AP tem na 1ª classe! Chegamos a Vigo.

Os nossos dois camaradas já tinham tratado da bilhética. Explicaram-lhes que só poderíamos colocar as bikes dentro do comboio 30 minutos antes da partida, no local "apropriado" para o efeito.

O bilhete era só até Valença, porque depois teríamos que comprar (ao revisor português) o bilhete até ao Porto.




Como ainda tínhamos muito tempo fomos trincar e beber qualquer coisa.

Enquanto estávamos a lanchar, vi 2 tugas passarem com as respectivas bicicletas para a gare, e já não os vi voltarem. Comentei isso no grupo (não fosse perdermos a vaga para as bikes), e o roda28 disse que não podiam ter colocado as ditas no comboio porque ainda faltava 1 hora. Como eu continuava a insistir, ele foi confirmar na bilheteira o horário para se poder colocar as bikes. Os "manolos" confirmaram que só 30 minutos antes poderiam entrar. Ficamos descansados.

Quando faltavam 35-40 minutos para a partida, dirigimo-nos para o nosso comboio, para nosso espanto (meu nem tanto) os tugas já tinham as bikes devidamente aparcadas dentro do comboio.
Com os lugares ocupados, começamos a procurar alternativas noutros espaços livres do comboio. Não havia!

Enquanto nós tentávamos acomodar as bikes no espaço vazio entre os bancos de passageiros, aparece um senhor (que não sabíamos ser o maquinista) que nos diz, que não as podemos colocar no sitio dos passageiros.

Só um aparte; Quando estávamos a preparar esta nossa aventura e fui saber as condições de viagem nos comboios da CP, alertei logo os meus companheiros que o revisor é soberano, e que caso houvesse discordância, tentar levar as coisas pelo dialogo moderado.




Mal o maquinista nos diz ali, que não podemos levar as bikes, o roda28 "dispara" logo: "- Mas nós temos aqui os bilhetes com lugar para cada uma das bicicletas!!" ao que o maquinista retorquiu: " A Renfe emite os bilhetes, mas sabe muito bem que o material circulante não tem capacidade, até porque o material é espanhol (embora pintado com os símbolos da CP).
Tentamos colocar logo alguma "água na fervura" e dei-lhes a entender (por sinais) que já tinha avisado para não irmos pela via da confrontação.
Percebemos também que o maquinista estava com vontade de nos ajudar, afinal sem sabermos, estávamos a falar com um bicigrino dos caminhos de santiago (sim, o maquinista era de Famalicão, e já tinha feito a viagem até Santiago, 3 vezes).
Mostrou-nos um espaço (não acessível ao publico) logo a seguir à cabine de condução, onde conseguimos colocar ao alto, 2 bikes de cada lado.
Presas (também ajudou a segurar) com os cadeados, fizeram a viagem bem seguras.

Ele explicou-nos como funciona, esta exploração entre CP e Renfe:
De Vigo até Valença alem dele (que faria a viagem até ao Porto) viria um maquinista da Renfe, que também poderia implicar com as bikes (por acaso era uma maquinista e não houve stresse).
De Vigo a Valença não existe supervisão ao nível de bilhetes (na prática significa que compramos os bilhetes sem necessidade, porque como podem comprovar pelos mesmos , não foram "picados").

Em Valença entrou o "Operador de Revisão" português (vulgo "pica"). Outro profissional exemplar, que não colocou qualquer problema à posição das bikes, nos vendeu os bilhetes e ainda tivemos oportunidade de trocar impressões muitas vezes durante a viagem (quase 2:30 horas).




Pouco faltava para as 22 horas quando finalmente chegamos à estação de Campanha. Tivemos direito a mais uma bela surpresa, porque tínhamos a família à nossa espera.
 
#58
E nem disseste da "descasca" que fui eu que acabei por apanhar (o último da fila, para variar) por vocês andarem montados na bicicleta em plena estação de Campanhã, diz-me o "securitas" que "quase atropelavam uma criança"... que só por acaso até fazia parte da nossa "pandilha", ehehe.
Grande Oddiseia!
 
#59
Vídeo resumo da nossa aventura no caminho

Fica aqui um pequeno vídeo resumindo a nossa epopeia. Com alguns dos locais mais marcantes, como a Labruja, o acidente em Porriño, a Labrujinha, etc.
O vídeo é o mesmo, mas está em dois ficheiros diferentes (tamanho e qualidade).

A musica não foi escolhida por acaso, chama-se Titanium, e embora nenhuma das nossas bikes fosse constituída por esse metal tão caro, é a sensação que temos quando chegamos com sucesso, ao destino final (Compostela), vencendo todos os obstáculos que nos foram aparecendo ao longo desta epopeia. Como diz na letra "tu atingiste-me, mas não cairei…" "paus e pedras podem partir-me os ossos" "sou à prova de bala". Tudo isso é o que sentimos quando entramos na Praça do Obradoiro, depois de percorridos 250 kms.

Aproveito para agradecer publicamente aos meus 3 companheiros de viagem (Daniel, Miguel e Ricardo) por esta magnifica e extraordinária partilha de experiencias e aventuras.


E deixo aqui uma nota para quem está a ponderar fazer-se ao caminho:

- Não arranjem desculpas para não o fazer, mas sim maneiras de o concretizar, vão ver que não se vão arrepender de terem deixado de adiar.


Um abraço e "Bo Camiño".


Vídeo resolução baixa (320x240) - [video]http://dl.dropbox.com/u/48186603/CaminhoSantiago_low.wmv[/video]

Vídeo resolução media (640x480)- [video]https://www.asuswebstorage.com/navigate/share/GY4XLLMLF4[/video]
 
Last edited:
#60
Como estamos em tempo de austeridade, mas o "bichinho" do caminho nunca mais se perde, decidimos fazer uma pequena incursão pelo caminho português de Santiago.
Assim fomos fazer o troço de Albergaria-a-Velha até ao Porto (Sé) neste Sábado 13-10-2012.
Fomos de comboio até Canelas (linha de Aveiro), e dai, seguimos até Albergaria-a-Velha, onde “apanhamos” o caminho.
Estou só a reunir as fotos dos restantes companheiros e colocarei aqui o relato de mais esta aventura.
Deixo aqui o link do percurso

http://sportypal.com/Workouts/Details/2705781?key=45fcc6772b7458a90d980e24e9536092b902a917
 
Last edited: