Geotrilhos @ Camiño S.Salvador & Camiño Primitivo {01 a 07 Outubro 2011}

#1
Etapa 0: A ideia, os preparativos, a viagem e a chegada a León


Tudo começou como qualquer outra nossa aventura... “e que tal fazermos o caminho Primitivo de Santiago!?”; “Hmmm....”; “(...) então e se fosse o de S. Salvador mais o Primitivo!? :)”.

O caminho Primitivo foi escolhido por ser o caminho utilizado pelos primeiros peregrinos e por ser um dos mais duros, o de S.Salvador por passar na cordilheira Cantábrica tornando-o complicado por natureza.

O desafio estava lançado para a primeira semana de Outubro e o Pedro, o Fernando, o Daniel e o Kemp abraçaram esta aventura épica sem grandes hesitações. Os preparativos começaram a ser feitos com bastante antecedência, marcação de férias, planeamento das etapas, estadias, material/equipamento necessário, etc, etc... O tempo foi passando e a data da partida estava cada vez mais próxima.

Contudo começámos a ter alguma dificuldade em arranjar transporte e quando faltavam 2 dias para iniciar a viagem depois de várias tentativas sem sucesso lá conseguimos arranjar transporte e motorista para León. Havia sempre a alternativa comboio e/ou transporte próprio como última hipótese mas graças ao amigo Raúl esta acabou por não ser opção fazendo o grande favor de nos ir levar a León numa carrinha alugada. Assim foi, no sábado à hora combinada lá estava o Raúl pronto para nos levar e o nosso colega Luís que fez questão de se vir despedir de nós e desejar um “buen camiño”.



A viagem foi longa mas a boa disposição esteve sempre presente.



A meio da manhã parámos em Castro Daire para beber um café e para enganar o estômago e seguimos viagem até Chaves onde parámos para almoçar aquela que seria a última refeição portuguesa nos próximos 6 dias. Ao almoço o Daniel lembrou-se que deveríamos levar as cores da nação durante a nossa peregrinação e assim foi comprámos um lenço para o efeito e seguimos viagem. A última paragem já foi em terras espanholas para beber um “café solo” e esticar as pernas.



Depois do Raúl nos deixar em León começou a nossa aventura. A primeira coisa que fizemos foi procurar a catedral para o primeiro carimbo da jornada.

Depois de algumas fotos da praxe fomos procurar o albergue onde iríamos ficar.



O Albergue não era mau mas aparentava ser pouco sossegado...



Depois de deixar as mochilas e guardar as bicicletas fomos procurar um local calmo para jantar. Não foi fácil pois era sábado à noite e a cidade já estava repleta de vida.



O jantar foi um prato combinado típico dos nuestros hermanos.

Antes de regressarmos ao albergue ainda demos uma pequena caminhada pela zona histórica da cidade.



Muito bonita, bem iluminada e com muita vida!

Regresso à base e ZZZZzzzzz.... ????
Naaa! Afinal o albergue era mesmo muito pouco sossegado!
Foi complicado dormir nessa noite! Muito complicado....



Etapa 1 - 02 Outubro: León - Pajares



Depois de uma noite mal dormida o pequeno almoço tinha que ser reforçado para equilibrar a balança mas o albergue não tinha nada que pudesse satisfazer as necessidades nutritivas de um ciclista como tal procuramos uma mercearia onde compramos pão, queijo, fiambre, sumo, água e fruta e fomos até um sitio calmo e sossegado para comer.



Após o pequeno almoço fomos até à Catedral de León para darmos inicio à nossa aventura e tirarmos algumas fotos. Seguimos as conchas e deixamos para trás a zona histórica e urbana da cidade. Percorridos alguns kms de asfalto já fora da cidade entramos numa zona de trilhos com pouca vegetação e solos secos. Foi então que apareceram as primeiras subidas maioritariamente curtas mas com alguma inclinação e os primeiros single-tracks.





Tínhamos previsto que esta seria a etapa rainha da nossa aventura e aos poucos fomos andando e passando por várias vilas e aldeias abastecendo água nas várias fontes que fomos encontrando pelo caminho. Andámos cerca de 30kms por vales sempre na margem esquerda do rio Benesga e seguimos caminhos e estradas de menor dimensão. Ao chegarmos à Estrada Nacional 630 parámos junto a uma fonte para comer algo mais consistente com os mantimentos que tínhamos comprado de manhã.



Até ao momento tínhamos feito a parte mais fácil da etapa. Se até aqui o terreno tinha sido acessível tecnicamente daqui para a frente as coisas iam mudar.

Ao chegar à aldeia de Buiza tínhamos duas hipóteses de seguir o camiño. Uma delas é desaconselhada no inverno (a vermelho) por causa da neve e porque passa em locais de difícil acesso.



Como estava bastante calor e o que nos move é a aventura (e um “pouco” de insanidade) seguimos exactamente por esse trilho.





A partir daqui a pedra começou a ser predominante nos trilhos, quer a subir quer a descer, a média baixou de forma significante e passado algum tempo chegamos novamente a uma outra aldeia chamada Rodiezmo.





Mais uma vez havia alternativa e desta vez até era por estrada, apenas 9kms!



Mas não, nós tínhamos ido fazer o caminho de Santiago e era pelo caminho que íamos continuar e lá seguimos pelo trilho até ao topo da montanha, até que a determinada altura este deixou de ser ciclável! (Até mesmo para quem fosse percorrer a pé era complicado)



Ou seja, durante cerca de 5km os papéis inverteram-se e tivemos que ser nós a transportar a bicicleta pela montanha.



5km podem parecer pouco mas no topo da montanha percorrer esses kms e carregar com a bicicleta é uma experiência única!



O silêncio era quase total, não havia nada a não ser montes de perder de vista, à medida que chegávamos ao fim de um monte começávamos a descobrir o outro.



As placas que indicavam o camiño eram em ferro, altas para puderem ser vistas quando há neve. Podia-se facilmente constatar que aqueles caminhos eram percorridos por muito poucos peregrinos. O que tinha de perigoso tinha na mesma proporção de grandioso e magnífico. A natureza no seu estado mais puro!



Com muito esforço chegámos ao topo da montanha, o caminho para descer era um single track que desaparecia nalgumas zonas.



Lá fomos nós com bastante cuidado até chegarmos a uma zona menos complicada.



Nessa altura o sentimento de alivio era mútuo, a parte pior estava feita! Já era tarde, tínhamos pouco mais de 1h de luz e ainda não sabíamos onde íamos ficar. Apenas sabíamos que não íamos cumprir o planeado que era chegar a Pola de Lena! Com isso em mente descemos o resto do trilho até Puerto de Pajares.





Após algum tempo tínhamos finalmente chegado ao asfalto. Naquela localidade não havia albergue e tivemos que ir até Pajares 400mts de desnível mais abaixo. Tivemos que descer por estrada. Foi uma descida vertiginosa com curvas apertadas onde a velocidade alcançada era tão grande que chegava para ultrapassar os carros. Ficámos com um sorriso de orelha a orelha!

Chegámos à aldeia de Pajares e fomos procurar o albergue, graças às indicações dos habitantes locais lá encontrámos o sitio. À porta estavam outros peregrinos que nos disseram que a responsável não estava presente e que tínhamos que lhe ligar para saber se havia camas vagas. Os mesmos alertaram-nos para o facto de que ali na aldeia não havia nenhum local para jantar e que eles tinham combinado com a responsável do albergue e que ela traria jantar para eles. Nessa altura ficámos preocupados mas houve camas e jantar para todos! Após um dia muito duro nós merecíamos!

Por fim os alongamentos....




Lições aprendidas:
Podemos concluir que a distância é sempre relativa, terminámos o dia com cerca de 70kms e 1500mts de acumulado numa etapa muitíssimo dura num terreno bastante complicado com muita pedra e subidas de todo o género. Para compensar a dureza desta etapa percorremos trilhos fantásticos extremamente divertidos pudemos apreciar paisagens fantásticas e tivemos um contacto único com a natureza. Outro factor chave foi o calor, que provocava desidratação e perda de sais muito rapidamente. Foi necessário beber muita água e muitas bebidas isotónicas.
Foi um desafio gerir o esforço físico e mental!
Um conselho para quem queira fazer esta etapa, não optem pelo caminho de inverno se tiverem menos de 2h de luz.


 
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#2
Etapa 2 - 03 Outubro: Pajares - Oviedo

Ao contrário do que aconteceu no albergue de León, desta vez dormimos bem mas o pequeno-almoço foram as sobras do dia anterior e um capuccino tirado na máquina.



Depois da experiência da etapa anterior ficou provado que nas próximas etapas tínhamos que andar mais e não inventar tanto para podermos chegar mais cedo aos albergues. :)

Na noite anterior a responsável pelo albergue deu-nos os contactos de um albergue particular em Oviedo caso o oficial já tivesse cheio que era o mais provável. Para além disso também nos deu indicações para seguirmos o camiño, seguindo por um vale em vez de irmos pela montanha.

Começámos a andar e descemos pela estrada à procura do corte que nos tinham falado mas por distracção, e pela velocidade que estávamos a atingir, não o encontrámos e quando nos apercebemos já estávamos no desvio para o percurso de montanha e assim que entrámos no trilho começámos a subir, o caminho era bastante inclinado e com muita pedra solta e seguia pela encosta acima deixando prever que permaneceria assim durante uns bons kms.



A determinada altura deixámos de ver indicações, o caminho deixou de estar marcado, e houve alguns momentos de dúvida sobre onde este nos levaria.



Ao terminar a primeira subida, sem indicações visíveis, optamos por um corte a descer, atravessando um grande terreno com uma casa, no meio da montanha, e ficámos a saber que o caminho estava de facto mal marcado e que o melhor era seguir por um trilho que contornava a montanha até encontrar uma igreja. Daí conseguiríamos voltar a encontrar as marcações.



Seguimos pelo trilho, agora ciclável, e mais uma vez falhamos o caminho.



Ao olhar para trás, ao fundo, via-se a igreja onde deveríamos ter passado! Como até aqui o nosso sentido de orientação estava a funcionar na perfeição optámos por seguir até encontrar outro corte em vez de voltar para trás. Mas os cortes que iam aparecendo acabavam sempre em becos sem saída! Até que o próprio caminho principal acabou num beco sem saída, cortado pela linha de caminho de ferro. Nessa altura não havia nada a fazer a não ser voltar para trás.

Percorremos poucos metros e eis que o Pedro tem uma ideia brilhante. Que tal regressar ao albergue para ir buscar o telemóvel que ficou lá esquecido. Tínhamos feito cerca de 13km em montanha que nos demoraram 2h30m. Bora voltar para trás! 

A parte boa nisto foi que o caminho de volta era descer. Um pouco depois estávamos de regresso ao ponto de partida do caminho! Ou seja fizemos um pequeno “aquecimento” na zona antes de começar a etapa!:)

Ao chegar à estrada o Pedro e o Fernando subiram até Pajares e o Daniel e o Kemp desceram até à próxima vila em busca de comida. Quando voltamos a agrupar, em Campomanes, ninguém falava de outra coisa senão na descida de 15kms com 600mts de desnível onde se proferiram frases sensatas como “não ultrapasses o camião”!

Depois de comer, bebemos um café, carimbámos a credencial e seguimos viagem para compensar o percalço. Até Pola de Lena fomos sempre por trilho, quase sempre em single-track.



Ao chegar a Pola de Lena fomos advertidos por um polícia local por circularmos em contra-mão na via pública! Apanhámos um bom susto porque o sr agente atravessou a viatura no meio da estrada. Coisa de Hollywood! Depois da advertência lá seguimos com atenção redobrada à sinalização. Até Mieres formamos um pelotão durante 10kms pela estrada e por uma ciclovia paralela à A-66.



Nesta, ainda parámos para encher os bidons de água e comer uma sandes de chouriço (que depois de tanto tempo na mochila mais parecia banha de porco).



Em Mieres fizemos uma paragem rápida para café, e sellar a credencial.



Depois até chegar a Oviedo o caminho seguiu maioritariamente por estrada com alguns single-tracks pelo meio para animar o caminho.







O Outono fez das suas e graças aos muitos ouriços dos castanheiros que havia pelo caminho ainda houve tempo para um furo.



Ao chegar a Oviedo fomos procurar a Catedral de S. Salvador; no entanto quando chegámos já estava a fechar e não foi possível fazer a visita.



Posto isto, fomos procurar o albergue particular que nos tinham indicado. O albergue era uma casa de estudantes com quartos individuais com tv e com cozinha e como tinha jardim ainda foi possível lavar as montadas.

Graças ao facto de termos cozinha optámos por fazer o jantar em casa (massa com atum e salada e iogurte para sobremesa)



Enquanto uns ficaram a tomar banho outros foram às compras.



O cozinheiro de serviço, impaciente, não demorou a preparar o merecido manjar.

Depois de 2 dias de muita montanha terminámos o caminho de S.Salvador.

Lições aprendidas:
Se quiserem ganhar uma história para contar para netos e tornar uma etapa de um caminho de Santiago inesquecível então deixem um telemóvel no albergue, para terem uma desculpa para voltar para trás.
Como rescaldo do caminho de São Salvador ficam paisagens inesquecíveis mas também muito tempo perdido por enganos provocados pela deficiente ou mesmo inexistente marcação do caminho. Ficamos com a sensação que mesmo com a bicicleta acabamos por fazer mais quilómetros do caminho original que os peregrinos que seguem a pé, que ao fim de alguns enganos acabam por optar por seguir por estrada. Para quem queira seguir o caminho pela montanha parece-nos que o percurso que deveríamos ter seguido e que passaria perto da aldeia de Navedo seria uma boa opção e uma boa fuga à estrada.



{continua....}
 
#3
Etapa 3 - 04 Outubro: Oviedo - Campiello

Com tanto “luxo” só podíamos ter uma noite descansada!

Saímos do albergue e antes de chegar à Catedral de S.Salvador fizemos uma curta paragem para café e primeiro carimbo do dia.





Em frente à Catedral encontra-se uma placa que assinala a primeira peregrinação a Santiago de Compostela. 12 séculos depois lá íamos nós seguir as suas passadas!



Seguimos durante cerca de 10kms por estrada e por caminhos agrícolas até que vieram os primeiros single-tracks.









Andámos mais 10kms até que parámos junto ao rio Nalón para comer. Poucos kms depois estávamos em Grado onde paramos para carimbar as credenciais. Desde Grado até ao Santuário Nuestra Sra. del Fresno foi sempre a subir. Foram 5kms por estrada com algumas inclinações que chegavam aos 17%. No topo parámos para almoçar.



A paragem tinha sido num local estratégico pois ao retomar o camiño tinhamos uma descida pela frente que até calhou bem para facilitar na digestão. Ao chegar à primeira aldeia parámos novamente para encher os bidons com água pois o calor não perdoava.

Continuámos por mais alguns kms e chegámos a Cornellana, passámos a ponte e seguimos numa ciclovia paralela ao rio Narcea e fomos passar ao lado do Mosteiro de S. Salvador.



Tirando a descida que tínhamos feito logo a seguir ao almoço estávamos a achar esta etapa demasiado insípida.

Uns kms mais à frente vieram novamente os trilhos e finalmente apanhámos um bocado do camiño com algumas zonas mais técnicas, subidas com pedra solta e até uma passagem de um ribeiro. Estava a melhorar... :)







Ao chegar a Salas optámos por não parar e após passarmos a vila entrámos no trilho e comçámos a subir, subir e subir durante 15kms até avistarmos as torres eólicas.





Lá no topo passámos pela aldeia de Bodenaya e encontrámos um refúgio para peregrinos onde parámos para abastecer os bidons e carimbar as credenciais.







Pedalámos por mais 10km até Tineo. A chegada ao centro de Tineo foi uma loucura, descemos 100mts de altitude em pouco mais de 300mts de distancia por ruas cheias de gente. Quando chegámos ao centro os níveis de adrenalina estavam no máximo!

O pior foi que logo a seguir tivemos que subir tudo novamente!

O objectivo desta etapa era dormir no albergue de peregrinos em Borres no entanto já não tínhamos muito tempo de luz e ainda nos faltavam mais de 15km. Como o tempo escasseava e não sabíamos muito bem o que tínhamos pela frente tivemos que aumentar o ritmo.

12km depois estávamos em Campiello. Graças à informação que os amigos Hernâni e António nos deram já estávamos prevenidos para o facto de que esta era a última civilização antes de Borres. Ou seja, em Borres não havia comida somente o albergue! Faltava apenas confirmar a disponibilidade das camas no albergue... O nosso relações públicas Daniel ligou para o albergue e disseram-lhe que não esperavam grande afluência no albergue e que de facto lá não havia restaurantes e que o melhor era jantarmos em Campiello descansados e no fim ir até lá para dormir.

Assim foi, aproveitámos também a existência de uma mercearia para comprar a comida para o pequeno almoço e almoço do dia seguinte.



Logo em frente à mercearia havia um café/restaurante. Fomos à porta ver a ementa e acabámos por ficar para jantar. Ao entrarmos já havia um grupo de peregrinos reunido em torno de uma única mesa comprida com apenas alguns lugares vagos, os nossos. O ambiente era bastante acolhedor e familiar. Rapidamente começámos também a partilhar as nossas experiências com os restantes...

Estavam à mesa, franceses, belgas, ingleses, argentinos e nós! De todos as histórias que ouvimos a que mais nos cativou foi a de um belga que tinha iniciado o camiño a pé em França e já estava em peregrinação desde 6 de Agosto de 2011.



O jantar foi bastante farto, para entrada foi bôla de carne e pão com queijo creme, depois o 1º prato foi sopa de peixe (acho que todos nós repetimos o prato), o 2º prato foi caldo galego, o 3º prato foi grão com carnes (chouriço, entrecosto,etc...) e não fosse alguém ter fome ainda veio para a mesa presunto e queijo de cabra. Para terminar uma taça de arroz doce! Fantástico! Comemos até não poder mais! Absorvemos sal suficiente para não precisarmos de isotónico na etapa seguinte! :)

Depois de um jantar assim escusado dizer que ninguém quis fazer 3kms até Borres. Ficámos a dormir no albergue particular de Campiello, propriedade da senhora Hermínia, dona do café/mini-mercado/restaurante onde jantámos. Coincidências.... É um salão relativamente grande onde cabem uns 30 beliches, uma máquina de lavar e outra de secar roupa e 3 casas de banho.

A estadia acabou por ficar mais cara mas a qualidade também foi superior aos albergues oficiais.
 
#4
Etapa 4 - 05 Outubro: Campiello - Padrón

Apesar de estarmos a partilhar o espaço com mais 15 peregrinos conseguimos descansar e acordar relativamente cedo, mas já com a maioria dos caminheiros no caminho. O nevoeiro e o frio que apareceram durante a noite ainda se mantinham de manhã. Antes de começar a etapa, tomamos um pequeno-almoço improvisado no complexo desportivo de Bolo Celta (uma espécie de bowling ao ar livre das Astúrias), com carcaça asturiana e fatias de fiambre com quase 100g empurrados a sumo.



Enquanto as pernas se habituavam à temperatura seguimos por estrada, passando por Borres, onde tínhamos pensado passar a noite e subindo para La Mortera. Ao longo do caminho até Santiago encontram-se diversos locais onde o caminho se divide e há a possibilidade de escolher entre percursos diferentes. La Mortera coincide com o inicio de um dos percursos que mais nos haviam recomendado: a rota dos Hospitais, um percurso de montanha que ganhou esse nome por passar por dois hospitais que ali existiram, e de que agora restam algumas ruínas, sendo o mais antigo do séc. XV.

No início da subida cruzamo-nos com os primeiros peregrinos a pé.



O nevoeiro continuava cerrado e ameaçava não deixar ver a paisagem desta variante do caminho. Finalmente, por volta dos 800m de altitude a neblina ficou para trás, e sentimos que tinha valido a pena ter escolhido aquele percurso.





Depois de ultrapassadas as primeiras ruínas apanhamos a primeira grande subida feita, com algum custo, a pé até atingirmos um pequeno planalto com alguns pinheiros onde aproveitamos para fazer uma pausa à sombra. Os peregrinos a pé não nos davam tréguas neste terreno tão inclinado e chegaram passados alguns minutos.





O terreno acidentado obrigava a que parte das subidas tivesse de ser feita a pé.

Finalmente o caminho voltava a ser ciclável, um pouco antes das ruínas do segundo hospital e assim continuou durante alguns quilómetros.



Um a um, os restantes peregrinos ficaram para trás, dando-nos incentivo e desejando continuação de bom caminho, um ou outro provavelmente pensando porque não se tinham lembrado de trazer uma bicicleta.



Depois de um sobe e desce constante, sempre acima dos 1100m, chegamos ao alto de Puerto de Palo Aí, depois de alguma hesitação (a vontade de seguir por terra era muita), seguimos o conselho que nos tinham dado nessa manhã, para não tentar fazer de bicicleta o caminho marcado mas antes para seguir por estrada até Berducedo. Demos o valor a esse conselho quando nessa noite alguns peregrinos a pé nos contaram as dificuldades que tinham passado nessa descida.

Um café ao pé da estrada foi o pretexto para nova paragem, agora para almoço, sendo o prato principal a bela da carcaça mas agora com atum. Em Berducedo voltamos a seguir as marcações. Depois de novo sobre e desce em terra e asfalto alcançamos um novo topo.




Este portão, um dos muitos que abrimos durante este caminho, dava acesso ao que seria a descida do dia.



Uma descida de mais de 7km com uns 700m de desnível. Uma descida alucinante praticamente sempre em single-track, já que mesmo no inicio onde o caminho é mais largo as pedras soltas não deixam margem para as bicicletas circularem fora da trajectória limpa. Para não destoar dos dias anteriores houve um furo, no pneu do costume, provocado por um desvio em alta velocidade contra uma dessas pedras mais afiadas. Enquanto uns se dedicavam à mecânica outros chegavam, em êxtase, ao fim da primeira parte da descida.



Na parte final um pequeno bosque de castanheiros proporcionou para mais uns minutos de diversão com mais um bom single-track.





O caminho termina praticamente em cima da barragem de Grandas de Salime e daí segue por estrada, numa subida interminável até à povoação com o mesmo nome.



A partir dai começamos a pensar onde terminar a etapa, já que tínhamos a opção de ficar em Castro, um pouco à frente ou seguir para Fonsagrada (muito mais à frente).

Acabamos por decidir avançar até onde nos fosse possível, fazendo a gestão da pouca água disponível e aproveitando algumas macieiras mais acessíveis para irmos recolhendo algo que comer.

A seguir a Penãfuente a indicação de que faltavam ainda 10km para o destino do dia. Resistindo ao asfalto continuamos a seguir as indicações subindo mais um topo em single-track. Na descida, um marco simbólico para nos lembrar que estávamos cada vez mais perto: uma pedra assinalava a despedida das Astúrias e das suas montanhas e a entrada na Galiza.



Até chegar a Fonsagrada ainda houve tempo para fazer alguns trilhos engraçados.



Lá descobrimos que, ao contrário do que pensávamos, não havia albergue. Um pequeno telefonema para o albergue de Padrón, a pouca distância e confirmamos que ainda havia vagas.

Chegamos ao albergue praticamente ao pôr-do-sol, com 75km feitos. Este albergue é uma pequena casa rústica, com paredes caiadas, chão e escadas de madeira, as inevitáveis camas de beliche, mas com todas as condições para os peregrinos, incluindo uma cozinha equipada com o suficiente para se fazer uma refeição. Apesar de não termos mais para comer do que algumas maças que ainda sobravam contamos com a solidariedade dos peregrinos que vão passando pelo albergue: seguindo uma receita secreta o Daniel brindou-nos com uma refeição de arroz com polvo (o polvo, em lata, adquirido na máquina de venda automática que estava à porta do albergue).



Lições aprendidas:
Não adianta ter o bolso cheio de notas ou cartões quando a máquina de venda só aceita moedas.
 
#5
Etapa 5 - 06 Outubro: Padrón - Melide

Íamos para o 5º dia consecutivo a pedalar e pela primeira vez não íamos comer pão ao pequeno almoço! O pão já não estava a resultar...Não seria uma verdadeira aventura se pelo menos um dia não houvesse massa ao pequeno-almoço! :)
Digamos que o menu foi um bocado forçado. Nenhum de nós tinha moedas para tirar o que quer que fosse da máquina que havia no albergue e como também não havia nenhum café por perto tivemos que recorrer às sobras do jantar do dia anterior.
Inédito para uns hábito para outros, lá comemos a massa, como é costume num dia de prova!
Saímos do albergue ainda o sol estava envergonhado e subimos até às ruínas do Hospital Real de Montouto, fundado em meados do século XIV por Pedro El Cruel.



Pensámos que seriamos os primeiros a alcançar este marco mas o feito já pertencia a um simpático e ágil peregrino que antes de partirmos se ofereceu para nos tirar uma foto.





Logo a seguir entrámos num single-track espectacular que parecia não ter fim.





Durante umas horas andámos num sobe e desce constante até que chegamos a Castroverde onde parámos para comer, advinhem...uma baguete. O dia já não era a mesma coisa sem a baguete! :)

20kms depois estávamos a entrar em Lugo. Seguimos as setas até chegar à porta de S.Pedro, uma das dez da grandiosa e imponente muralha romana que rodeia a zona histórica da cidade.



Entrámos e fomos até à catedral. Tirámos umas fotos à fachada e fomos visitar o interior. Infelizmente estava em obras mas ainda assim foi possível ver alguma coisa. Aproveitámos a paragem para comer mais qualquer coisa e carimbar a credencial.



Saímos de Lugo e andámos uns bons kms em estrada mas sempre a subir, de vez em quando lá apareciam uns trilhos para desenjoar mas quando começávamos a tomar-lhe o gosto voltávamos à estrada. Até ao momento ainda não tínhamos andado durante tanto tempo por estrada.



Andámos mais um bocado por estrada até que chegámos à aldeia de Águas Santas. Como a água ali era ou foi em tempos santa nós achámos por bem atestar os bidons numa fonte à beira do caminho. Por esta altura já tinhamos 82kms nas pernas, fora os acumulados dos dias anteriores, e comentámos entre nós que a partir dali até Melide devia ser sempre a descer ou no máximo plano. Houve até quem afirmasse de forma irónica que: “O caminho agora vai passar lá ao fundo naquelas eólicas!”. Nesse momento a piada não caiu muito bem! :) Mal sabíamos nós que íamos lá passar!



Custou um bocado a chegar ao topo do monte mas valeu a pena porque a vista era espectacular e porque finalmente não havia mais nada para subir até Melide. Restava descer e rolar mais alguns kms...

O albergue de Melide, de todos em que ficámos, foi o maior e o que tinha melhores condições derivado a albergar peregrinos que fazem o caminho francês.

Depois de nos instalarmos fomos procurar um sitio calmo para jantar. Optámos pelo restaurante da pousada Chiquitín situada na rua do albergue. O restaurante tinha óptimo aspecto e um atendimento muito bom. Jantámos que nem uns reis por um preço bastante aceitável. Recomendamos!
 
#6
Etapa 6 - 07 Outubro: Melide - Santiago de Compostela

Apesar do número de pessoas que estavam a dormir na nossa ala do albergue foi possível descansar durante a noite. Acordamos relativamente cedo mas já com o albergue praticamente vazio.
Depois do esforço extra do dia anterior os 55 km que nos separavam de Santiago tinham um significado diferente, quase como se fosse o primeiro dia a pedalar. Já não havia dúvidas que íamos conseguir terminar o caminho e cumprindo as datas a que nos tínhamos proposto.
O albergue foi esvaziando e depois de feitas as compras para o pequeno-almoço, na padaria/minimercado que se encontra em frente ao albergue, apenas sobrava o nosso grupo e 2 companheiros de bicicleta que viemos a perceber serem portugueses, também a fazer o caminho Primitivo, e que tinham seguido à nossa frente nos últimos 3 dias. Depois de trocar algumas impressões e de tomar um café para animar e aquecer iniciamos finalmente a etapa.
Um pouco de estrada, até sair da zona mais urbana de Melide, mal deu para aquecer e estávamos de volta ao caminho, passando pela igreja de Santa Maria.
Sendo Melide o ponto de encontro entre o caminho Francês e o Primitivo já estávamos a contar com o aumento do número de peregrinos. Mas uma coisa é partilhar o espaço do albergue e outra, completamente diferente, é partilhar o caminho em si, principalmente depois de 5 dias com o percurso praticamente por nossa conta.



Até chegarmos a Santiago passamos por algumas dezenas de pessoas a pé, das mais variadas nacionalidades. Não estando equipados com qualquer tipo de campainha ou algo que assinalasse a nossa presença passamos muito do percurso a inventar formas de chamar a atenção a quem seguia a pé à nossa frente, falando e rindo alto, por exemplo, muitas das vezes coisas sem nexo, apenas para fazer barulho. Mesmo assim ficam na memória a reacção de algumas das pessoas com quem nos cruzamos, como 2 senhoras que se abraçaram no meio do caminho em perfeito terror, ou algumas que corriam aos ziguezagues com as mãos a proteger a cabeça, ou o senhor italiano que gritou “vem ai mais 2!” para avisar o grupo em que seguia da nossa presença.
Nessa altura o nosso grupo já se tinha separado, o Daniel e o João, seguiram no ritmo acelerado em que apetecia andar naquele terreno (há uma teoria de que foi a sua passagem que provocou todo o terror nos caminheiros), e o Fernando e o Pedro que foram parando para documentar o passeio, colocar mais uns carimbos nas credenciais e tentando não assustar (ainda mais) as pessoas.



Apesar de haver subidas o caminho parecia plano e os quilómetros faziam-se a bom ritmo, alternando entre alguns estradões, pequenos single-tracks e algumas ligações em asfalto.



Um pormenor que nos saltou à vista foi a vertente mais comercial desta etapa. Como exemplo encontramos poucas fontes mas havia máquinas de venda automática com abundância. Nos cafés que iam aparecendo os peregrinos juntavam-se em grandes grupos.
Percebemos também porque muitas das pessoas apenas caminhavam com uma pequena mochila nas costas ou mesmo sem nada, pois ao longo do percurso cruzámo-nos uma série de vezes com carrinhas que se dedicavam a levar mochilas de campismo de um albergue para o outro, tornando assim a caminhada muito mais confortável.

Em Lavacolla, praticamente no final da etapa, o grupo juntou-se novamente, aproveitando para fazer pela primeira vez nos últimos 6 dias um almoço de faca e garfo, num pequeno café.

A ementa não prometia nada de bom para a saúde, com grande abundância de fritos. Influenciados em parte pelo volume da dona do estabelecimento optamos por um saudável (!) caldo galego e pelas inevitáveis sandes.



Depois de aconchegar o estômago seguimos para os quilómetros finais.
Ao chegar ao Monte do Gozo, paramos para mais um carimbo na credencial. Aproveitamos para visitar um monumento que entre outras coisas comemora a peregrinação do Papa João Paulo II mas que também serve para que muitos peregrinos deixem pequenas lembranças e mensagens.



Depois da última descida em terra entramos na área urbana de Santiago de Compostela, deixando de nos preocupar em desviar de peregrinos e passando a preocupar com o transito.

Já no centro histórico percorremos as ruas de pedra, até que 480km depois da partida em Léon, já não havia conchas para seguir… chegávamos ao destino, a Catedral de Santiago.

Quem já fez o caminho, qualquer um, sabe que o que se sente ao entrar naquela praça é especial. E desta vez não foi diferente.



A alegria de atingir a meta não se pode esconder.



Tal como nós, outros peregrinos faziam da praça o local de descanso deixando bicicletas e mochilas pelo chão.



A loucura já tomava conta de alguns…



Depois da foto seguimos para a Oficina do Peregrino para carimbar a credencial pela última vez e levar para casa a Compostela.



Para terminar a peregrinação voltamos à Catedral para uma visita ao seu interior e o túmulo de Santiago.

Já com o sentimento de missão cumprida fomos descansar. Podia ser assim que terminava este relato mas não. Isso tudo porque a organização deste evento épico ainda tinha algumas surpresas reservadas.
 
#8
A vocês só vos posso dizer...GRANDES MALUCOS.
Obrigado a cada um de vos pela partilha e os meus parabéns pelo vídeo e pela sua edição está magnífico...até as músicas da transição dos dias e das várias imagens está fantástica.

Grande abraço... :)
 
#9
Obrigado MacSeven.

É um prazer poder partilhar esta experiência com a comunidade aqui do fórum!
Para além disso esperamos que esta partilha sirva de incentivo e de ajuda para aqueles que queiram fazer algo semelhante tal como aconteceu connosco.

Abc. e boas pedaladas!
 
#10
Muitos parabéns pela vossa aventura e em especial pelas vossas crónicas e foto report. Senti-me quase como se estivesse nos trilhos convosco :).
O vídeo então, está fantástico, mete muitos clips profissionais a um canto :). Que câmara fotográfica/filmar usaram?
 
#11
Boa noite

PARABÉNS

Fantásticos, os trilhos, foto reporte e aventura

Espero para o ano fazer este Camiño, pelo menos o primitivo......

BON CAMIÑO

Cumprimentos BTTistas
Nuno Campos
 
#13
O que se pode de facto dizer????
È simplesmente por estas e por outras, já por aqui narradas, Puras Aventuras no Caminho de Santiago, e outros lugares celestiais, Portugal incluído, que somos apaixonados pelo BTT.
Faço minhas as palavras dos ilustres colegas anteriores, o vídeo é de facto divinal, conseguiram-me "prender" ao PC durante todo o vosso Caminho.
Uma massinha ás sete e meia da manhã cai sempre bem não? :D
Muitos parabéns e obrigado pela partilha.
 
#14
Mais uma excelente aventura para recordar e de pôr muita gente roida de inveja (a minha intenção em Maio era fazer também o caminho de S. Salvador, mas houve alguns factores de peso contra...). Parabéns também por esse video.....tem uma qualidade e beleza exemplar para muitos prós...

:yeah::yeah::yeah:
 
#19
@cagareu: Tão cedo não esqueceremos dessa descida! Foi demais! No final o Fernando quis ver o quão quentes estavam os discos e acabou por queimar a luva...

@tpfernandes: O Primitivo é espectacular! Nós adorámos! Eu espero fazer o Português no próximo ano.
 
#20
O Português fi-lo dois anos por isso já nada é novo.

Fiz também parte do Sanabrés do qual gostei bastante.

O próximo tem que ser mesmo o Primitivo, depois Finisterra e Muxia e por aí fora! :)