[Crónica] “A Serra da Lua” - Sintra @ 04/12/2005

froids

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#1
Relato do dia do Reconhecimento do percurso para a actividade “A Serra da Lua” na Azóia, em Sintra a 04/12/2005.

A Serra da Lua - Btt na Azóia!

Será que é desta? Pensava eu enquanto colocava o mapa dentro do porta-mapas.
Fazia os últimos preparativos quando o Conceição chegou a minha casa. Tínhamos combinado lá, ficava a caminho e assim poderíamos seguir num carro só. Prontos nos fizemos à estrada.
O destino? A povoação da Azóia, em Sintra! Tínhamo-nos proposto concluir um projecto que contava quase um ano. A Volta da "Serra da Lua"!
A chuva forte que tinha caído na noite anterior e que ainda se fazia sentir na manhã de Domingo, dava-nos a certeza que pelo menos os trilhos iriam estar "pesados", mas seguimos com a convicção plena de que seríamos capazes de aguentar o que viesse.
E assim arrancámos.
Está frio! - dizia o Pedro.
E se era verdade! – pensava eu…
Fazia um frio de estalar, bem o sentia na cara enquanto percorríamos os primeiros metros da descida que dava início à nossa actividade. Mas, se o frio passou com o adaptar do corpo ao esforço das subidas, com o tempo nublado mantínhamos ainda na ideia que poderia vir a chover "bem", já que pouco depois de termos entrado na terra batida tínhamos mais outra certeza: os trilhos estavam mesmo "pesados" e empapados, mas menos do que estávamos à espera. Ao menos uma boa notícia!
Fomos andando feito Bravos, resolvendo partes do percurso que jaziam ainda envoltas em mistério, pois não sabíamos como as iríamos "ultrapassar", mas a bom ritmo acabámos por tudo resolver, e passadas 2 horas do início da nossa actividade estávamos na Vila do Mucifal. Tínhamos deixado já para trás a Ulgueira, Almoçageme e a Praia Grande, sem muita lama e sempre sem uma gota de chuva, pelo menos até agora!
Depois de um cafezinho para animar as hostes, uma nova vista de olhos no mapa e bússola e aí fomos nós à aventura novamente!
Por esta altura já me tinha questionado se nao seria mesmo desta que iríamos culminar este projecto, mas nada de foguetes pois ainda íamos a meio e não tínhamos sequer começado a subir, e eu sabia que o que faltava era nada mais nada menos, que toda a costa N e NO da Serra de Sintra. Desde Gigarós (Gigueirós), ate ao Penedo e depois até aos Picotos, terreno empinado e duro, e ainda por mais era o sector que me faltava reconhecer, ou seja, no mapa é uma coisa mas será que conseguiríamos passar pelos trilhos que eu tinha escolhido, em casa no calor da lareira apenas algumas semanas antes?!
Era o que Eu e o Pedro iríamos descobrir.
Se bem o pensei, melhor o fizemos e num ápice estávamos nas escadas que permitem passar a estrada que leva para Colares, perigosas por sinal, mas que nos permitiriam ter acesso privilegiado à pequena e característica ponte Romana por cima da ribeira de Colares, onde, apesar de envolta num cenário idílico eu sabia que começariam as verdadeiras batalhas deste passeio.
Não sei se foi pela fome que já apertava, se foi pelo factor psicológico de irmos encontrar das mais longas subidas de Sintra, ou se por outro lado foi a beleza do local por onde passávamos que nos fez parar, mas assim o fizemos.
Cumprir com as vontades do corpo revitaliza a mente e espírito, e depois de dividida uma gorda sandes de presunto entre três, já que o Conceição tem o dom de fazer amigos entre os companheiros de quatro patas, lá seguimos serra acima desta feita em direcção à povoação da Eugaria, onde poderíamos cortar à direita no sentido de Penedo.
A esguia estrada cimentada, que subia serpenteando por entre o típico casario, permitia-nos bom ritmo e foi depressa que chegámos à passagem por cima da ribeira dos moinhos. Os últimos metros tinham sido já feitos em terra batida com algum empedrado solto, mas nada nos poderia ter preparado para a subida que estaríamos prestes a enfrentar. Uma rampa longa e empinada de um empedrado esburacado e solto, terrivelmente húmido, que tornava inglória e vã qualquer tentativa de manter a tracção constante e a direcção no lugar. No entanto, era o que teríamos que ultrapassar, o mapa indicava ser aquele o caminho a seguir.
E se a beleza do local cortava a respiração o mesmo se poderia dizer daquela subidinha, que depois um “patinanço” mais artístico já me tinha obrigado a encostar. No entanto, talvez contagiado pela beleza do lugar ou por, se calhar ter acreditado mais do que eu, Pedro “obriga-me” a vê-lo passar, ofegante mas decidido, até desaparecer depois da última curva.
Bom, tem mesmo que ser, pensei! E depois de controlados os pulmões e a “montada”, lá me fiz novamente ao tortuoso caminho, contagiado e inebriado pela força e motivação do meu grande amigo e companheiro destas aventuras, e depois de mais uns metros também eu tinha já concluído aquela que ficou conhecida entre nós, no final desse dia, como “a primeira das três grandes”.
Já completamente embrenhados no ambiente pesado e húmido da serra de Sintra, tão característico desta época do ano, continuámos a subir até à pequena povoação de S. Sebastião onde, mais uma vez, a nossa determinação e empenhamento foram fundamentais para vencer a rampa que tínhamos pela frente, desde os depósitos de água de S. Sebastião até à povoação de Penedo.
Outra vez o maldito empedrado - lembro-me de pensar.
Felizmente mais seco e em melhor estado permitiu-nos novamente pisar forte nos pedais. Em silêncio e em perfeita sintonia, subíamos metro após metro, conquistando altura à Serra. Tudo até aqui estava perfeito. Nós estávamos cansados mas altamente motivados, as bikes respondiam com maior ou menor “resmungar” ao que se lhes pedia, os trilhos e caminhos surgiam à nossa frente tal como o mapa, dentro de um sujo porta-mapas, indicava.
No entanto as dificuldades surgiriam mais à frente quando, a caminho da Qta. da Urca, já depois de passada a povoação de Penedo, haveríamos de provar na pele das canelas a minha falta de atenção na leitura do sujinho mapa. Depois de um corta-mato mais hardcore e de termos proporcionado às nossas montadas uma viagem às nossas costas, tivemos ainda tempo para umas brincadeiras com uma cobra muito pouco amistosa que se escondia nas calhas do portao da horta que tivemos que saltar para corrigir o nosso pequeno engano. Esta nossa amiga com um palmo de tamanho, quando confrontada comigo armado em "David Attenborougouuuoh” não hesitou em atacar, mostrando a sua minúscula bocarra vermelha, duas ou três vezes, até que rendidos à sua ferocidade, resolvemos deixá-la ir.
Vencidas as mais recentes adversidades e de novo no caminho certo, foi com alento que nos fizemos àquela que seria a última das subidas, mas nem por isso das menos trabalhosas.
Longa, muito longa, ficou para a memória como a “terceira" do dia.
Seria o tudo por tudo!
Se, ate aqui só tínhamos desmontado devido à inexistência de trilho, tudo o resto tinha sido feito esmagando os pedais e não seria agora que sairíamos derrotados. Até porque sabíamos que vencida esta batalha seria sempre a descer até à Azóia onde tínhamos o carro, o que significava uns minutos, poucos, de pura adrenalina e de velocidades loucas.
Ia trepando e a minha mente vagueava e percorria já cada curva dos trilhos doidos da descida, o que me serviu para esquecer e aliviar o sofrimento das pernas que queimavam e que pareciam rasgar a cada pedalada fora da cadência. Sempre estávamos a trepar à quase duas horas e meia, ininterruptamente. Concentrado acabo de fazer mais uma curva da subida quando vejo o trilho que sai à esquerda e que nos levará na direcção pretendida.... Primeiro à cota mas depois sempre a descer!
Boa, acabou a subida!! - grito para o Conceição que me segue, também ele focado e concentrado, envolto nos seus próprios pensamentos.
Agora é sempre a descer, certo? Pergunta o Conceiçao.
Sim e sempre para direita, respondo eu depois de mais uma vez olhar o mapa. Epá, lá mais em baixo temos que cortar à esquerda, mas depois logo se vê. Digo ainda, como quem acredita realmente no que está a dizer.
Claro que não vimos o trilho à esquerda, devemos ter passado por ele tipo foguetes!
Talvez devido à minha incapacidade para ler mapas a velocidades superiores a 40km/h só percebemos o nosso engano já tínhamos acabado a descida, que como calculámos, não demorou mais que uns escassos minutos. Apenas os necessários para nos embriagarmos de adrenalina e de emoção, para nos pôr os braços a ferver e os reflexos em franja, de nos fazer esquecer todo o sofrimento das últimas horas a trepar bem e nos fazer rir e gritar como crianças crescidas.
Rapidamente corrigimos o nosso engano e nos pusemos no carro para felizes e eufóricos nos congratularmos por termos levado a bom termo este projecto, que tantas outras vezes nos tinha humilhado e vencido, obrigando-nos a apreciar o momento, como se de um final de uma qualquer maratona se tratasse.
Tantas vezes até hoje, lembro-me de pensar!
E se nas pernas não ficaram marcas do cansaço, ficaram sem dúvida memórias extraordinárias de uma tarde passada na perfeição, não apenas no dia a seguir, mas guardadas para sempre como quem guarda tesouros, porque é disto que a vida é feita. De sonhos, de projectos, de vitórias e de derrotas.
Neste dia alegra-me que tenha sido de vitória!
Estranho foi que frio, afinal só mesmo nos primeiros 500 metros e que chuva.....
Bom! À chuva nem vê-la!

por Frederico Nunes
:cheers: