Caminho de Santiago pela Geira Romana

#1
Há momentos da vida que são totalmente inesperados. Sejam factos positivos, sejam negativos, sejam os dois, a verdade é que não podemos saber o que a vida nos espera, nem como preparou o embrulho das sucessivas prendas com que nos vai brindando diariamente. Certo é que, do grande plano inicial de 2020, que foi cancelado sem previsão de se realizar no corrente ano (nem no próximo), entre cancelamentos, peripécias, improvisos, desilusões, mudanças profissionais, pessoais, o mapa de peregrinações passou de 1 para 3. Não sendo nenhuma das 3 a inicial, todas elas tem um lugar próprio, espero, e todas elas terão uma importância quase vital, pelo que todo esforço que dedicarei a esta epopeia (sendo uma peregrinação, não merece nada menos que este adjetivo para classificar a sua grandiosidade e importância).

Fazendo uma pequena introdução, comecei o ano com uma peregrinação a pé a Santiago de Compostela. Um feito que, sendo este um fórum de BTT, não faria sentido menciona-lo. No entanto, a importância pessoal de todo planeamento, a espera e a motivação para a sua concretização foram enormes, assim como as consequências da sua realização tiveram efeito quase imediato a realização 2ª peregrinação, essa já de BTT (Porto a Fátima, já relatado neste fórum aqui).

Por entre peripécias, aventuras e "desventuras" (português do Brasil), chegamos ao presente momento em que posso aplicar o ditado "não há duas sem três". E na verdade, esta terceira peregrinação afigura-se essencial...

Posta esta introdução, que de enigmático tem muito, todo o restante post será o mais esclarecedor possível. Uma crónica permite-nos esta dualidade, sendo que toda a motivação pessoal por detrás deste projeto é enorme e ao mesmo tempo diferente de todas as outras peregrinações que fui realizando. E, no entanto, tem algo em comum a todas elas: a superação.

Tudo começou por uma conversa, um pedido de opinião sobre uma peregrinação desde o Porto a Santiago de Compostela, de bicicleta pelo caminho central. Sendo conhecido no meu círculo de amigos por toda as aventuras deste género relacionadas com Santiago de Compostela (e já lá vão uma mão cheia delas, por vários itinerários), fui questionado sobre conselhos, como etapas, locais onde dormir, etc. Imaginei-me regressar de imediato... A dada altura, o convite para me juntar surgiu na conversa em jeito de desafio, ao qual rapidamente acedi, mesmo com várias dúvidas: Seria a 4ª vez que o iria realizar, e embora tal fosse desejado, não deixava de ser uma repetição algo monótona, que dado o meu propósito, arriscava-se a ser enfadonha.

Mas neste mundo em que tudo é inesperado, a ideia de realizar o caminho da Geira Romana rapidamente me passou pela cabeça, e atirei, em jeito de contra desafio, a ideia à malta. Acontece que foi prontamente aceite, e o desconhecido surgiu diante nós, como uma certeza inevitável.

Foi o (re)começar de tudo...
 
#2
A informação existe. Longe vão os tempos de intrépidos aventureiros que, equipados com material bastante pior que o que podemos encontrar numa vulgar loja de desporto (daquelas começadas por D...), mas que à altura seria o topo de gama, se aventuravam, repletos de conhecimento, dados, e uma dose de intuição extraordinária para se conseguirem orientar numa época de mapas, bússolas, cartas topográficas e nada de GPS ou outros sistemas de orientação a computador.

Hoje, ninguém vai para lado nenhum onde não se consiga ver uma imagem aérea do google maps, e julgo que isso fez perder um pouco a essência do misterioso, algo que a maioria de nós (ou pelo menos uma parte, onde me incluo) tem necessidade. Resta-nos o misterioso da vida, pois essa ainda não conseguimos prever na sua completude, e com essa já temos uma boa dose de desafios...

Assim, uma rápida pesquisa pelo Dr. Google revela-nos uma data de relatos, feitos quer a pé, quer de bicicleta. Sendo este caminho recente (a sua marcação terminou há coisa de 2-3 anos, tanto quanto sei), a qualidade da informação é de topo. Os operadores turísticos ainda não se debruçaram sobre este caminho e aplicaram as técnicas de SEO aos pacotes turísticos que eventualmente ofereçam: Dou um exemplo:
- Façam a pesquisa "Caminho central Santiago de Compostela" e a pesquisa "Caminho geira Romana Santiago de compostela". A ocorrência de pacotes turisticos a "oferecer" experiências turísticas é assustadora no 1º caso, e inexistente no 2º caso. O que torna a procura fácil e os relatos sucedem-se uns atrás dos outros.

Bem, acho que é a melhor maneira de nos sentirmos exploradores rumo a algo desconhecido... Desconhecido dos turistas, da massa de pessoas que vai apenas por ir, porque está na moda. Nada contra, atenção, apenas sinto que para aqueles que procuram o desconhecido e a genuína experiência, fogem da massificação e oferta de serviços cada vez mais afastados da simplicidade que é peregrinar, acompanhados de nós mesmos, sem distracções e inputs externos constantes.

Selecionei uns quantos relatos, quer a pé, quer de bicicleta. Somos todos diferentes, a percepção de cada um dos relatos entrará como média para a dificuldade a atribuir aos diferentes troços do percurso, e assim dividir a coisa em etapas "fazíveis". Sendo que tenho de contar com os diferentes andamentos, e nem sempre é facil imaginar o que vai ser...

Sendo assim, consultei e selecionei os seguintes relatos como mais relevantes:

https://debragaasantiago.com/caminho-descargar-trilho-geira-arrieiros-track-ver/
https://turisbike.com/braga-a-santiago-pela-geira-romana-e-arrieiros/
https://debragaasantiago.com/etapas-camino-xacobeo/
https://www.edgarcosta.net/lifestyle/braga-santiago-compostela-via-romana/

Entre 3 ou 4 dias, a opção sensata recaiu pelos 4 dias. Pelo que li, mesmo com boa preparação os 3 dias são extenuantes.
Vendo as localidades onde fosse possível pernoitar, telefonemas feitos, questões colocadas aos alojamentos, e eis a divisão:
 
#3
Anotação 2020-09-06 125521.png

Desculpem o formato de imagem, a tabela estava tão bem feita que não quis estragar. Para o primeiro dia, e inicio da peregrinação, E dado que temos uma etapa de metro + comboio até chegarmos a Braga (a hipótese de sairmos na véspera não se colocou, embora pudesse ser sensata), convem que seja mais reduzida. No entanto, não nos livramos de quase 2000 metros de acumulado!

Na preparação destas etapas também teve impacto o trilho. Consultando os GPX disponíveis (nos sites indicados acima tem alguns), há alternativas em certos momentos, escolhas diferentes consoante o aventureiro, pelo que o melhor é por tudo no google earth visível, ver acumulados, declives e tomar as decisões certas.

Para terminar, após o dia rei de km e esforço, temos um "biscoito" com 790 m de acumulado e apenas 30 km de distancia, o que espero que nos permita regressar no próprio dia a casa.
 
#4
Após algum tempo de ausência, vou dar continuidade a este relato:

Planos feitos, malas arrumadas, bicicletas preparadas. Inclusive um colega da aventura foi comprar a bike uma semana antes, o que nesta altura me fez temer o pior. Temi por ele, confesso, pois uns anos antes tinha eu feito algo similar e acabei por comprar uma bicicleta de um tamanho errado tal era a pressão para comprar a tempo, temi por nós todos, pois imaginei que pudéssemos não chegar ao destino

Porém, chegou o dia da partida e às 6 da manhã estávamos todos a pé cada um à espera do metro na sua estação devida:



Como se consegue ver no reflexo, 5:58, para duros.

Chegados a Campanhã, reunimos as montadas para a foto de grupo e homenagear assim o trio que nos ia carregar aos três, esperavamos nós, durante os próximos 4 dias



Aqui poderão notar a diferença de preparação e arrumação do material entre mim e os meus colegas. Ambos optaram por bicicletas rígidas e sobretudo pelos alforges, o que lhes possibilitou ficar com as costas libertas, ou no máximo com uma pequena mochila. Eu, por optar (sempre) pela dupla suspensão, levo a mochila de 30L as costas e 6kg de peso. Obviamente isto exigirá mais fisicamente de mim, mas permite-me sentir a bicicleta livre e ligeira. E, a certa altura, bem que foi útil, pois no nosso percurso tivemos varias vezes de carregar a bicicleta às costas, e sentir cerca de 22-25 kg nos braços é extenuante, bem diferente de sentir 12-15 kg. Mas já lá vamos


Às 7h apanhamos o comboio, saído do Porto (campanhã) em direção a Braga. Contávamos chegar por volta das 9h da manhã lá, e após um café começar o pedal daí em diante. Seria o dia mais curto, portanto podiamos partir um pouco mais tarde do que desejável

 
#5
Com o estomago confortado para mais umas horas, demos início ao percurso, seguindo o GPS. Rapidamente demos com orientações de um trilho de S. Bento que parecia seguir simultâneo com o nosso.




Isso permitiu relaxar um pouco o olho no GPS, é que embora existindo marcas do caminho de Santiago (as setas amarelas), estas são raras e muitas vezes estão escondidas pela vegetação ou colocadas em locais pouco convenientes.

Tínhamos começado a pedalar à pouco e os obstáculos começavam a surgir, embora se tratassem de obstáculos citadinos


É nestas situações que eu desço montado enquanto eles desciam com as bicicletas pela lateral :cool:



Aqui deixo uma foto do meu "equipamento", bem como das indicações dos dois caminhos que nesta altura seguiam juntos



Na mochila, entre ferramentas básicas da bicicleta (bomba da suspensão e dos pneus, desmontas, par de camaras de ar, elo rápido, multiferramentas e uma série de zip ties), levava uma muda de roupa extra, alimentos e suplementos, meias, um corta vento/impermeável, calças impermeáveis, manta térmica e kit de primeiros socorros, um pijama e uma tshirt e calções e uma camisola. Uma coisa que vou sentindo com quanto mais aventuras faço, é a necessidade de menos coisas. Imprevistos? Resolvem-se. Preparação mental para os resolver é que é o importante.

Por entre este belo arco saímos da zona urbana de Braga e começamos a aventurar-nos no monte



Mais a frente, surgiu o primeiro aperitivo do dia: uma subida em calçada difícil e com imensos buracos. Nada de demais, apenas um aquecimento
 
#6
O caminho desenrola-se por estrada intercalado por estradões como o anterior, passando pelas povoações limítrofes a Braga. A dificuldade é mínima e a prometia. E digo "mínima", mas por duas vezes tivemos de superar duas rampas em que tivemos de carregar a bicicleta pela mão. Nessas alturas, cedi gentilmente a minha bicicleta ao elemento feminino da equipa, transportando eu a dela (com os seus 20 kg). É nestas alturas que eu agradeço ter trazido a minha "levezinha".
De repente, o caminho começa a inclinar um pouco para a subida que se avizinhava, e surge uma propriedade abandonada:



Estivemos quase uma hora a explorar este velho palácio abandonado.. Mais tarde, iriamos sentir falta dessa hora, porém.. Nada de arrependimentos, o caminho faz-se pedalando e parando, e esta hora foi bem empregue. Não sendo do âmbito deste caminho, deixo aqui algumas fotos que recolhemos no interior:










Após esta pausa, seguimos viagem, e após uma subida próxima da localidade de Louredo, surgem as primeiras indicações da Geira



A Geira tem particularidades interessantes, que é o facto de cruzar o Gerês a uma altitude mais ou menos consistente (~300m), o que dado o relevo da região, é notavel o feito alcançado pelos povos romanos em terem domesticado a natureza dessa forma. Atingir a sua cota é feito por umas rampas consideráveis apos Louredo, sendo que até então o caminho se desenrola entre os 50 e 150 m de altitude, e de repente vemos o altimetro subir desde os 150 até aos 320m num piscar de olhos (e num esforço de pernas). Nesta altura, a Ana, o nosso elemento feminino, estava a sentir mais dificuldades a vencer as subidas, enquanto o Pedro estava pouco atrás de mim, mas sem acusar cansaço. Esperava o contrário, confesso, dado que sei que a Ana está habituada a fazer logas distâncias e o Pedro tinha ido comprar a bicicleta na semana anterior após 8 anos sem pedalar. Isto também se explica pelo facto da Ana trabalhar no UK, onde não há subidas consideráveis, e o Pedro treinar frequentemente (menos cycling).

A Geira começa por ser um estradão assim



As paisagens são formidáveis




Parte deste caminho da Geira romana desenrola-se numa série de milhas da mesma. Aqui o primeiro marco, correspondente à milha XIV

 
#7
Os trilhos proporcionam-nos paisagens fantásticas



Aqui, cometi o primeiro erro de organização. Pus à consideraçao da malta descer da Geira para ir a Terras de Bouro almoçar. Digo descer, pois estavamos nos 450m e Terras do Bouro fica a cerca de 170m de altitude, o que implicava depois regressar à geira. A ideia de subir novamente desanimou sobretudo a Ana, e o Pedro tendeu a concordar com ela. Erro meu, porque isso implicou que não almoçassemos devidamente, e os km's nas pernas pediam alimento. Mais a frente, acabamos por lanchar, mal dispostos, num tasquinho ja perto de Campo do Gerês. A fome tem disto, e organizar um evento destes por vezes leva a que não possamos ser tão democráticos e sermos mais autoritários

Após subirmos até aos 700m, já de barriga cheia, chegamos a albufeira de Vilarinho das Furnas


Aqui o caminho era fácil, em estradão, e as cores do por do sol que se avizinhava tornavam a paisagem espetacular. Momentos para recordar sempre que lá passe




Mal sabiamos que a partir do momento que entrassemos na mata de Albergaria, iria surgir o pior troço do caminho, nao em termos de paisagens, mas sim de dificuldade



Aqui, e sobretudo apos atravessarmos a ponte sobre o rio homem (Ponte São Miguel), falhamos um dos desvios aconselhados para bikes (nesta altura, e devido a demorarmos imenso tempo na subida, o GPS começou a dar sinal de bateria fraca e troquei para o relógio, onde só conseguia ver um trilho de cada vez, e por acaso escolhi o do caminho "original" (e a pé). Aqui tivemos uma hora para fazer 5 km, foi literalmente empurrar a bicicleta acima pelo terreno acidentado. Dureza máxima, à qual os meus colegas aguentaram.

Nesta altura, a Ana já tinha decidido que iria regressar no dia seguinte a casa, devido ao fecho das fronteiras e a possibilidade de se ela nao regressasse nesse dia, ter de fazer quarentena obrigatória. Foi com imensa pena que recebemos essa notícia, porém de certa forma as possibilidades de fazermos o caminho original os três eram imensamente reduzidas, dada a exigência e a capacidade física.

Há males que vem por bem
 
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#8
Atravessamos a fronteira, e aí tivemos a louca descida desde a Portela do Homem até Lobios. Fizemos parte pela estrada, travões sempre a fundo nas curvas, foi incrível.





Terminamos em Lobios, onde lamentavelmente, não pudemos ir as Termas por causa do "bicho", pelo que fomos imediatamente jantar. No dia seguinte, eu e o Pedro iriamos ter um dia mais duro que hoje, e a Ana iria regressar, pelo que aproveitamos o único jantar juntos como um momento memorável

Dados do dia:

Distância: 65 km
Tempo: 5h10min
Altimetria: 1333m de elevação
 
#9
O dia seguinte amanheceu com as dores da estopada do dia anterior. Tomamos um espartano pequeno almoço e pegamos nas montadas para arrancarmos num ápice. A Ana iria acompanhar-nos durante a primeira hora do dia, finda da qual iria regressar para Lobios e esperar a sua boleia de regresso. Dormimos mesmo junto ao trilho, pelo que rapidamente nos juntamos, e começamos a subir. A paisagem matinal fazia esquecer todas as dores que com a pedalada se iam dissipando



Após esta subida, despedimo-nos da Ana. Foi uma despedida com alguma tristeza, foi ela quem me desafiou para uma aventura que eu recusei e em troca propus esta, e ela aceitou. Das poucas fotos que tiramos todos juntos, acho que esta caracteriza bem o grupo que partiu de Braga cheio de vontade de pedalar



Após a despedida, eu e o Pedro enveredamos por uma descida incrivelmente rápida e que levou os nossos limites ao máximo. Considero-me uma pessoa cautelosa, e que embora estar numa bicicleta de dupla suspensão e sem alforges, nass descida que apanhamos e com todas as irregularidades do piso, não ousei ultrapassar o Pedro, que seguia a minha frente como um raio. Que máquina, tirou tudo que podia da sua KTM. Bem, esta sessão de pancada havia de passar a fatura mais a frente (ou pelo menos ajudar nesse aspeto), mas ja la iremos...

Regressamos ao ponto mais baixo desse dia, que era o rio Lima. Estava algo em baixo



Como já bem sei, a seguir a um rio vem uma subida. E ela veio. Neste dia estava previsto alcançarmos os 1200m de altitude de Castro Laboreiro (estavamos a 45m no rio Lima), pelo que a subida avizinhava-se longa e penosa.

Facto curioso é que estávamos em Espanha, e iriamos regressar a Portugal. O trajeto deste caminho de Santiago faz um desenho curioso no mapa



A certa altura, as indicações não deixavam duvida para a proximidade com o Nosso Portugal


Os declives foram surgindo, cada vez mais frequentes. Se esta parte do trajeto seguia pelo alcatrão, agradeceríamos mais a frente, pois permitiu ir ganhando alguns metros preciosos, sobretudo para o meu colega de equipa que, e a Ana que me perdoe, era neste momento o mais lento da dupla.

Pouco depois, o alcatrão deu lugar a algo mais antigo e resistente, blocos de pedra robustos e duros de pedalar na subida, sobretudo para o Pedro que com a carga extra na bicicleta se debatia para conseguir tração suficiente

Este era o aspeto do piso



Na foto está um ciclista com uma carapaça, favor ignorar :)

As subidas não terminavam, e faziam vítimas



O altímetro marcava agora 700m de altitude, estávamos quase a chegar ao topo. "Quase".
A água era algo fundamental para a boa pedalada e sobretudo em subidas, essencial. Todas as fontes eram motivo de paragem, abastecer o depósito e encher mesmo o bandulho. O Pedro seguiu com uma garrafa de 750 ml, eu seguia com uma de 500 ml. Seguia também com a blade nas costas para caso previsse algum troço desertico me prevenir, porém para quem não tiver receio da agua das fontes, estas são abundantes no caminho



Logo a seguir a termos parado nesta fonte, onde fizemos uma pausa mais longa para repor forças, tomar um gel e comer alguns frutos secos, surgiu o primeiro de dois azares seguidos: o Pedro furou um pneu! Bem que me pareceu uma subida fácil para ele ficar tão para trás.



E foi aqui que me apercebi do grande erro que tinhamos cometido: A Ana tinha ido embora nessa manhã e levava metade do mateiral de reposição para a bicicleta do Pedro (visto ambas as bicicletas usarem válvulas schrader, o Pedro só tinha uma câmara de ar extra com ele, a Ana tinha a outra, juntamente com o kit de remendos). Neste momento, o Pedro estava "descalço", só tinha uma camara de ar de reposição. Ah, e não tinha bomba, só eu é que tinha...

Pus rapidamente mãos a obra e mudei o pneu




Neste momento, provavelmente ficou registada em foto a causa dos seguintes 10 minutos de paragem (e muitas consumições extra). Vou só postar a foto e ja falo mais a frente. Adianto que o que sucedeu talvez tenha sido potenciado pela descida louca de hoje de manhã, não sabemos, mas suspeitamos



Pneu mudado, usei uma bomba de CO2 para sermos rápidos a retomar caminho. Ou melhor, mais rápidos a parar. O suporte dos alforges do Pedro estava partido!



Talvez pelo apoiar a bicicleta com todo seu peso na lateral do alforge, talvez pela descida, talvez pelos dois. Estava partido, nao interessa a razão.

Iam dois engenheiros no meio do mato.... Não, não é uma anedota. Sem entrar em pânico, percebemos que o olhal partido fazia uma meia lua, estava apenas partido em sua metade. Com jeitinho e uma série de zip ties que trouxe comigo, conseguimos manter a meia lua presa ao sítio. Com mais jeitinho e uma série de alavancas e nós, prendemos um cordel aos alforges (bem como naturalmente esvaziar ao máximo possível o lado afetado), e dessa forma evitar sobrecarga sobre este ponto fraco

 
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#10
Todos estes contratempos deixaram uma séria preocupação em mim, associada a uma fome enorme. Estávamos a sensivelmente 8 km de Castro Laboreiro, eram 13:30 da tarde e ainda tínhamos os últimos 300m de desnível para vencer, e a bicicleta do Pedro estava presa por fios (literalmente, num dos dois casos): sem câmara de ar suplente, e o alforge partido.

O caminho deu tréguas e deu lugar a um belo estradão que nem aproveitamos devidamente. A certa altura, num cruzamento com a estrada, decidimos seguir a mesma e subir mais rapidamente, e assim chegar a algum sítio para comer rapidamente. Conseguimos chegar a Castro Laboreiro por volta das 14:20, e fomos de imediato comer um bacalhau. Bem se diz que peixe não puxa carroça, duas horas depois ja estava novamente com fome, mas isso são outros assuntos. Fomos rapidamente servidos no restaurante Miradouro do Castelo, o que foi bom para tomar decisões quanto aos passos a seguir já com o estômago reconfortado. Assim, o cérebro até pensa melhor

Em conversa com locais, ficamos a saber da existência de um bom mecânico automóvel umas casas abaixo. Decidimos que era essencial a visita, e pusemo-nos ao caminho.

Como recordação, a vista do miradouro do castelo:


Estavamos no ponto mais alto do dia de hoje e da viagem pelo que fazia falta contemplar este momento.

No mecânico, conseguimos reparar a câmara de ar e uma duzia de zip ties, mais resistentes do que as que tinha. Pelo menos tínhamos novamente alguma segurança, e pusemo-nos a caminho.
Nesse momento, e sabendo que estávamos bastante atrasados, decidi irmos pela estrada ao invés pelo trilho. Pedi a orientação ao GPS para irmos em direção a Ribvadavia, a paragem desse dia. Iriamos perder algumas descidas técnicas, mas paciência, assim fazíamos por alcatrão mais rápidos e menos sujeitos a estragar o remendo feito.
Na verdade, o trilho seguia bastante próximo de nós, e a estrada escolhida era pelo que foi fácil imaginar a paisagem que estaríamos a observar lá



E de repente.. O estamos no trilho! O mesmo desembocava nesta estrada, que começava a descer abruptamente, para entrar novamente em espanha, sem que nos apercebessemos da fronteira. Haja alegria!




As descidas eram vertiginosas e exigiam dos travões. A certa altura lembrei-me que só tinha trazido calços para as pastilhas traseiras (2 vs 4 pistoes). Parei e vi o desgaste. Ainda tenho imenso, recupera do susto, volta a descida e a travar a serio até queimar :cool: Descemos dos 900 até aos 200m de altitude rapidamente, avançamos uns bons km que não contavamos, e portanto as coisas estavam a melhorar.


Em Espanha, por esta altura era necessário usar máscara. Reparamos bem nisso



O caminho levou-nos novamente a cruzar o rio Minho, e neste local uma belíssimo passadiço surgiu




Pedalamos rapidamente, pois já eram 20h, e ainda tinhamos de fazer 1 km extra para ir buscar a chave até conseguirmos finalmente descansar. Parece pouco, mas naquele momento a barriga ja mandava parar e o cansaço era algum, portanto todos os metros contavam.

Chegamos a Ribadavia eram 21h, e tivemos de comemorar o facto


Para o dia de hoje, tivemos:

Distância: 76 km
Tempo: 6h23min de pedal
Altimetria: 1690m de acumulado positivo
 
#11
O terceiro dia amanheceu calmo, o despertar por terras de nuestros hermanos foi bom. O sono reparador de uma óptima cama (mérito ao alojamento que escolhemos) foi reparador, e bem necessário dado o que se avizinhava: Este seria o dia mais longo, a etapa rainha! Para este dia planeei nada menos que cerca de 95 km com +2000 metros de acumulado. Uma monstruosidade, que permitia duas coisas: Termos algum calo (ou cansaço) para enfrentar isto e sabermos como gerir a coisa, e conseguir um 4º dia calmo e tranquilo, para regressar ao Porto com tempo e contornando todos os imprevistos possíveis.

Uma etapa ambiciosa, discutível se deveria ser colocada no 3º ou 2º dia, mas que dada a escassez de alojamentos teve de ser no 3º dia. Isto também permitiu um crescendo na sensação de superação, algo que a meu ver tem interesse dada a duração da pedalada. No dia seguinte, os 40 km que nos esperavam seriam fáceis e o ponto alto seria apenas a chegada.

Começamos a pedalar por volta das 8:30 locais, por entre um vinhedo que nos proporcionou uma paisagem animadora



Apesar de ser sábado, ja se trabalhava por aqui



E esta era a paisagem que se via por detrás de nós



A certa altura enganamo-nos no caminho, e teimosamente evitamos retroceder e retomar o caminho. Em vez disso, tentamos atravessar o desnível em linha reta em vez de o contornar. A dificuldade do percurso fez-nos dar meia volta e regressar ao caminho original. Há destas coisas, nem sempre é por onde queremos, ou o que pensamos ser mais fácil nem sempre o é. Nem sempre em frente é a melhor política.

A manhã foi-se passando, por entre desníveis acessíveis, situando-se entre os 90 e 250m de altitude. Atravessamos uma zona florestal cerrada, perto de Caldelas (em espanha, nao no gerês) com uns single tracks espetaculares, mas que dada a velocidade e adrenalina nem ficaram registados em fotos.

Mais a frente, e já com a barriga a dar horas, paramos em Beran para um café matinal no unico café aberto àquela hora (quase 10 da manhã, diga-se. Em Espanha acorda-se mesmo tarde). Estavamos com ideia de parar apenas o suficiente para um café con leche rápido, mas uma senhora vendo-nos chegar em tais preparos, pediu se podia tirar-nos uma foto com a neta dela junto aos peregrinos. Obviamente acedemos, e a simpática senhora ofereceu-nos um belo repasto. Ainda tentamos recusar, mas ela quis pagar-nos tudo. O caminho tem destas coisas, e se realmente ha algo melhor em receber, é dar. Ficamos mesmo contentes por poder dar a alegria que a senhora sentiu ao ver dois peregrinos com as suas montadas na terra dela, e registar o momento com a neta



Muitas vezes esquecemo-nos do essencial.. A vida puxa-nos para as coisas sérias, as preocupações de adultos, e o simples ato de fazer a vontade a uma criança e sobretudo à simpática senhora foi o mais marcante nisto tudo, e algo a relembrar. Fez-me lembrar uma passagem onde, algumas semanas antes, uma simpática senhora velhinha vendo dois caminhantes passarem a sua porta sob um calor abrasador, fez questão de dar as duas laranjas que tinha no frigorífico.. Nessa altura quase que chorei, e tracei as pequenas semelhanças entre os dois acontecimentos. Vivemos tempos em que dar é tão importante, onde todos temos falta de tanta coisa que não se compra, e estes pequenos gestos fazem uma diferença enorme. Marcam, pela positiva. E são as coisas que nos marcam pela positiva que importam recordar e agarrarmo-nos diariamente.

Pusemo-nos ao caminho, e regressamos aos single tracks, desta vez convenientemente registados




Num interregno nos tracks, paramos para abastecer a máquina, o tempo estava a aquecer e mereciamos hidratar-nos. Isto acontecia sempre que possível, e procuravamos por carimbos, o que infelizmente neste caminho veio a revelar-se algo extremamente raro



Tudo bem, na verdade nao viemos pelos carimbos, apesar de serem parte da experiência.. A experiencia em si é esta
 
#12
Nesta altura estavamos a 300m de altitude, e sabia eu, ainda teriamos de descer até aos 100m para a seguir subir até aos 800m em duas subidas que temia eu, que seriam duas paredes autênticas. A preocupação pelo estado da bicicleta do Pedro, e mesmo pelo estado físico dele (recordo que ele nao andava de bicicleta há 8 anos e apenas treinou 2 semanas bicicleta antes de vir) era algo que não me abandonava a cabeça.

Após abandonar os single tracks novamente, e uma pequena descida em alcatrão, recordei a paisagem que deixavamos para trás



A seguir, embrenhamo-nos novamente em trilhos (estava a ser uma alteração de paisagens muito rápida e sucessiva. Passamos por uma aldeia abandonada e com mato bastante cerrado em volta





A certa altura o caminho fazia uma cobertura engraçada sobre o trilho



A certa altura, e com apenas 30 km percorridos (até hoje ainda não sei como demoramos tanto a percorrer esta distância), resolvemos parar para almoçar. Era quase meio dia, estávamos praticamente no ponto mais baixo e a subida iria começar a seguir. Convinha nao repetir o erro do primeiro dia e almoçar assim que possível. Conseguimos encontrar um tasquinho engraçado, que nos serviu dois bocadillos. Havia fotos dos mesmos, mas não a consegui encontrar. Estavamos em Pazos de Arenteiro

Aqui, além de um, conseguimos dois carimbos. A rapariga do bar, vendo o nosso interesse nos carimbos (que ela não tinha), fez uma chamada ao pároco local, que se ofereceu para vir trazer em "10-15 minutos". Algum tempo que não queriamos perder, mas valeu a pena. Trouxe o carimbo de Pazos de Arenteiro e o carimbo de Igrexario, que segundo ele iriamos atravessar mais a frente. Ora pois muito bem

Seguimos para a descida final, e logo que iamos começar a subir... Um furo!



De barriga cheia, debaixo de um sol abrasador e um clima algo húmido da beira rio (era o ponto mais baixo do dia), mudar um pneu.. Ninguém merece tal azar! Felizmente tinhamos arranjado a câmara de ar no dia anterior, pensei que pudesse ser um preciosismo mas na verdade salvou-nos. O furo foi novamente na bicicleta do Pedro, julgo eu que graças ao tubeless, não tive nenhum problema a viagem toda.

Novamente sem camara de ar de reserva, pusemo-nos a subir. Aqui também não havia problema se nao tivessemos nenhuma, na verdade.. Fizemos a subida quase toda a pé dado o calor que se sentia, e a ausência de sombra. Estavamos a 150m e tinhamos de subir até aos 500m (primeiro patamar da subida)
 
#15
Bom relato e boas fotos.
Estou a gostar bastante dessa vossa aventura.
Obrigado, estou a escrever o relato algo à posteriori (isto foi em início de setembro) por falta de tempo e alguma motivação, mas agora com o confinamento de novo deu outro alento :)

Uma aventura destas, é sempre com tubeless... rodas com liquido fresco e um kit de tacos ;)
Ora lá está, eu com a parte do tubeless e liquido fresco fui, so levei camara de ar porque imaginei que pudesse ter algo mais rasgão que furo
 
#16
Obrigado, estou a escrever o relato algo à posteriori (isto foi em início de setembro) por falta de tempo e alguma motivação, mas agora com o confinamento de novo deu outro alento :)



Ora lá está, eu com a parte do tubeless e liquido fresco fui, so levei camara de ar porque imaginei que pudesse ter algo mais rasgão que furo
eu já tenho as minhas rodas com alguns tacos... paus de esteva secos!!! chegou a casa... mas...
 
#17
A subida foi lenta, demorada, sob o sol quente de setembro que se fazia sentir. Subiamos com a bicicleta pela mão pois o declive era forte, o calor extremo (ja disse que estava calor?) e o almoço ainda estava a ser digerido. E aqui a diferença de preparação entre mim e o meu amigo notou-se mais, portanto para ajudar a manter o ânimo de "estamos no mesmo barco", resolvi ir a par com ele.

Não tirei fotografias deste troço do caminho que durou cerca de 5 km e que demoramos cerca de 1h a percorrer. Posso dizer que se desenrolava numa zona florestal rodeada de montanhas (uma delas a que estavamos a subir), e à nossa direita tinhamos uma vista cada vez melhor à medida da subida. Este trilho foi dar a uma aldeia pequena, Igrexario, situada a 500m de altitude. Esta foi a tal adeia que o pároco nos trouxe o carimbo. Deve ter imaginado que após uma subida destas não iriamos querer saber do carimbo mas sim de água e descanso.
Perguntamos por água, pois o meio litro que tínhamos enchido 1h antes ja há muito tinha ido. Um simpático habitante deixou-nos encher os bidons na mangueira do jardim, e refrescados la seguimos viagem. Pela frente tínhamos agora uma zona de planalto até à ultima estopada a subir até aos 800m de altitude

De seguida ficamos a sentir-nos em casa (ambos somos de vila chã)



Neste momento e após terminarmos a maior subida consecutiva do dia, íamos pensando em como resolver o problema de não possuirmos mais nenhuma camara de ar. Mais a frente, decidimos parar em Feás, uma pequena localidade, e comer alguma coisa. O Pedro aproveitou para questionar sobre a existencia de alguma loja ou mecânico, e para nossa alegria um dos frequentadores do café prontificou-se a ir a casa assim que acabasse a partida de dominó que estava a jogar, e nessa altura arranjava-nos uma camara de ar. Aproveitamos para comer, mas infelizmente a partida de dominó atrasou mais tempo do que estavamos a contar, e perdemos quase 45 minutos nesta paragem. Aqui comecei seriamente a pensar em alternativas, eram 15h e só contavamos com 40km nas pernas.. Estava complicado a nivel de tempo. Tudo bem que eram os quilómetros mais duros de subidas, mas ainda tinhamos pelo menos 50km pela frente, e temi que pudessem ter troços técnicos. Fui-me mentalizando que teriamos que atalhar para chegarmos ao nosso destino.

Entretanto regressou o senhor com a camara de ar. Era das de gel, óptima! Dificilmente haveria de furar. Para melhorar, ele deu-a, nao quis nada por ela, apenas que chegássemos ao nosso destino e que um dia regressássemos lá.. O caminho é incrível :)

Pusemos rapidamente pernas ao caminho, e felizmente que esta parte do troço, sendo a subir, era por alcatrão. Em breve chegamos ao ponto mais alto, e enquanto esperava pelo Pedro, tirei a foto de Feás (la em baixo)



Conquista, estavamos a 800m e a partir de agora era sempre a descer, ou pelo menos não iriamos subir mais do que viessemos a descer. Inclusivé, até ao nosso destino final era a descer (ainda não referi, iriamos ficar em A estrada, que se situa a cerca de 300m de altitude).

A vista era bonita, e mais seria sem os pinheiros


E como tudo que sobe desce.. Bem, apanhamos uma descida que foi terrível. Nesta altura eu sentia que ja nao podiamos parar, tinhamos de aproveitar todos os momentos para imprimir ritmo e cumprir com a distancia que tinhamos pela frente. Porém esta descida foi dura, enveredamos por um caminho florestal de rocha dura, bastante acidentado, com ramos no caminho.. Fui descendo a frente, mas a certa altura decidi que aquilo era demasiado e se apanhassemos uma subida com aquele piso iriamos ter de levar a bicicleta pela mão. Foi neste momento que decidi parar no final da descida para encontrarmos alternativas.

A certa altura o trilho, que por acaso tinha tanto de beleza como de dificuldade, começou ligeiramente a subir e mantendo a dificuldade, decidi efetivamente estava na hora de seguir pela estrada. Fomos dar a Beariz, e enquanto esperava que o Pedro me alcancasse, fui pesquisando os trilhos e as alternativas disponíveis:
As estradas eram próximas ao caminho. Sendo estradas, perdem a piada, mas eram na sua maioria estradas muito secundárias, pelo que não seria tanta perda. E tinha de ser, neste momento já não conseguiriamos chegar a A estrada com luz do dia, e portanto ja era imperativo uma alternativa fosse por onde fosse.

Alterei o trajeto, escolhendo as estradas menos movimentadas para chegar a A estrada (belo trocadilho não?) e assim que o Pedro chegou a minha beira, comuniquei-lhe a decisão e seguimos caminho.

Gostei da atitude dele, ainda queria ir pelo trilho original, cheio de garra apesar de estar em menos forma que eu e a carregar com uma bicicleta bem mais pesada! Mas compreendeu que isso seria difícil de conseguirmos, e aceitou a decisão com toda a vontade.

Seguimos pela estrada, a partir de agora tínhamos 40 km pela frente e eram 18:40, o sol começava a perder o alento com que nos tinha brindado de manhã e a seguir ao almoço.



Após virarmos à direita, as paisagens compensaram, nada mau




Deste troço há pouca história, por entre aldeias passadas a uma velocidade fugaz, fizemos uma paragem para lanchar ja algo tardia. Seguimos rapidamente caminho e graças a irmos por estrada os km iam passando bastante mais rapidamente.

Fomos andando, a certa altura decidimos não ir pela estrada que planeei e ir por uma mais estilo "nacional" pois era mais a direito. Lá assistimos a um belo por do sol, e as energias para continuar a pedalar redobraram-se. Eram 20:30, hora espanhola



Aqui ainda estavamos a 10 km de A estrada, e felizmente grande parte do trajeto era a descer. Luzes ligadas por entre os carros, a certa altura voltamos a cruzar-nos com o trilho, que seguia pela estrada. Nos últimos 5 km, tive mesmo de parar tal era a fraqueza, e comer umas bolachas para fazer o último esforço. Estava quase, o dia ia longo e puxado, hoje tinha abusado nas expectativas, até para mim estava a custar. Foram muitos km em estrada, que sendo um pouco batota, não me deixam recordar esta etapa como a etapa rainha.
Não quer dizer que não tenha gostado, pelo contrário, teve momentos incríveis, tanto de superação, como de beleza, aprendizagem, sobretudo esta última. Mas não senti o entusiasmo que senti nos outros dias. Também chegamos tarde ao hotel, eram 21:30, mal tivemos tempo para tomar banho e jantar (e eramos os únicos no restaurante aquela hora). Esta etapa tinha mais expectativas, contudo estava cumprida e merecia uma celebração.
Comemos e bebemos bem, e tratamos de guardar as bikes e, como faço sempre no final de cada etapa, colocar um pouco de cera na corrente. Hoje dormiram bem aconchegadas:




Para este dia tivemos:

Distância: 90km
Tempo: 6h23min
Altimetria: 2227m de elevação
 
#18
O último dia amanheceu sorridente, e para continuar o que fizemos no jantar do dia anterior, comemos bastante bem ao pequeno almoço. Era o dia final, o dia em que neste momento salvo se algum imprevisto acontecesse, chegaríamos a Santiago de Compostela, 4 dias após termos saido de Braga. Só nos faltavam 40 km, que seriam expectavelmente fáceis e rolantes na sua maioria. Maioria, pois o trilho começava nos 300m, descia até aos 30m e só depois voltaria a subir até aos 270m que se situa Santiago de Compostela.

Os primeiros 15 km foram um doce, extremamente fáceis, por entre vilas, estradões e estradas, com um pendente declive negativo. Que maravilha, mal era preciso pedalar!



Esqueci-me de referir que saímos do hotel a passar das 9h locais, e eram 10:15 já contavamos com 18km nas pernas e estavamos no ponto mais baixo do dia



A partir de agora ia ser sempre a subir

O caminho passava por locais com uma paisagem bucólica. Aqui em S. Juan de Recesende, comemos uma pequena refeição matinal.



As subidas nem se sentiam, salvo uma ou outra rampa mais inclinada, era tudo sempre plano. Fomos pedalando, sempre certinhos, quando a certa altura avistamos ao longe... Santiago de Compostela!



As sempre reconhecíveis torres da Catedral a rasgarem o horizonte estavam bem a nossa frente, faltava a já por mim conhecida descida e subidinha mortal até à Praça do Obradoiro

Pedalamos com vontade redrobrada, descendo a alta velocidade. Parei a certa altura para a última foto com a recordação do caminho da geira e dos arrieiros



Hão-de dizer que eu gosto pouco da bicicleta, mas a verdade é que vejo o simples facto de enquadrar a bicicleta na foto como um toque pessoal. Como se eu tivesse la. É uma panca, manias...

Atravessamos o centro da cidade e.. chegamos :) Eis a magnífica!



Mais entusiasticamente, seria assim



Após as fotos da praxe, e antes de irmos tirar a compostela, fomos hidratar-nos e petiscar uma tapa





E com o estomago cheio, hora de ir a oficina do peregrino tirar a compostela e um certificado de distância (este nunca tinha tirado)

E vamos a dados deste dia:

Distância: 31km
Tempo: 2h23min
Altimetria: 527m de elevação

Como dá para perceber, foi um dia mesmo soft. Mas ainda faltava o regresso...
 
#19
O regresso foi feito logo de seguida a termos a Compostela e o certificado. Começamos a pedalar para a estação de comboios de Santiago de Compostela, para comprar o bilhete e apanharmos o comboio em direção a Vigo. Em Vigo, iriamos dirigir-nos até a central de camionagem, onde já tinhamos comprado os bilhetes do autocarro que sairia às 17:10 em direção ao Porto.

A viagem de comboio foi tranquila, os espanhois estão bem preparados: Os comboios tem suporte para as bicicletas, e podem ficar à vontade pois os suportes tem aloquete, grátis. Algumas coisas a aprender CP... Nem tirei foto, mas a verdade é que encostamos as bicicletas, e fizemos a viagem longe das mesmas completamente descansados (vá, nunca completamente, na verdade). Ao irmos buscar as bikes em Vigo, ja tinha uma terceira que entretanto tinha-se juntado às nossas duas.

Em Vigo, ja na central de camionagem, desmontamos as bikes e embulhamos rodas e quadro em sacos plásticos. Isto porque, tanto quando fui lendo por ai, ha motoristas que embirram quando as bicicletas vao inteiras na bagageira. Para prevenir, e mesmo que graças ao COVID o autocarro ir com imenso espaço na bagageira, resolvemos levar sacos do lixo de 150l para as embrulhar.

A viagem foi longa e sonolenta, e serviu como apreciação da mesma, por entre imensos pensamentos.
Cada viagem que faço a Santiago tem um contexto, e as últimas 2 viagens, distintas entre si, foram bastante importantes por razões diferentes. O caminho da geira romana é um caminho selvagem, duro, difícil. É belo sim, bastante! A superação foi tremenda, e exigiu ajustes imprevistos para fazer face a acontecimentos inesperados.

A esta distância, torna-se difícil escrever sobre o caminho da Geira sem implicar as motivações pessoais que me levaram a empreender mais uma aventura até Santiago, talvez a maior e de mais superação de todas, até pelo "peso" da responsabilidade que levei as costas das pessoas que foram comigo. É um caminho "virgem", onde o GPS é essencial para não nos perdermos e fazermos as melhores escolhas. É um caminho belo, com uma história milenar, e que virá agora a ser cada vez mais descoberta. Para os peregrinos a pé, será dura a falta de locais de apoio, a inexistência de albergues, e falta de indicações. Para os bicigrinos, a dificuldade maior será no piso em alguns troços que é extremamente difícil. É um caminho no seu estado original, ainda não massificado, deserto em pleno setembro (se bem que em ano de pandemia não seria de esperar outra coisa de qualquer um dos caminhos), e um convite à reflexão e superação. Em jeito de resumo, se estão preparados para a dificuldade, vão. Não se irão arrepender. Mas preparem-se bem! Para terem uma ideia, em 2018 apenas 221 pessoas percorreram este caminho. Em 2019 já foram 860. Mesmo tendo quadruplicado o número, ainda é bastante menos do que os outros caminhos, tal como as 5500 pessoas que sairam do Porto para percorrer o caminho no mesmo ano. Será um caminho a explodir, com a data atrasada pela pandemia (nao vi literalmente ninguém nos trilhos, foi uma experiencia diferente das restantes em que até temos de dizer "bon camiño" em voz alta para que abram espaço para as bicicletas passarem).

Há as milhas, há o caminho da geira, há o caminho dos arrieiros. A história está lá toda, mas como toda a história, se não for cuidada e preservada passa à história. Será cuidada, acredito, pois com a massificação do caminho essa é uma consequência algo lógica.

Os caminhos serão sempre diferentes, e se bem que tenha gostado deste, não sei se regressarei a este. Se bem que gostava de dizer o mesmo do central que ja fiz 2 ou 3 vezes, mas a esse sei que hei-de regressar. A geira, não tendo sido feita na sua totalidade, será uma imperfeição perfeita. Quem sabe.. Talvez o destino troque as voltas. Por hora, a interiorização do mesmo ainda não terminou, daí que seja algo que terá de amadurecer bem antes de regressar...

Muito mais haveria por dizer deste caminho, apenas que irá ser sempre um caminho incompleto, importante, e belo. Se alguém chegou até aqui no relato, só posso aconselhar a fazer o caminho, se a duvida existir. Preparados para tudo, mas vão!
 
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